segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Quieto!
Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão impróprio, inadequado, bobo. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceito pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável. Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. Minhas histórias acabam sempre no egocentrismo ou preconceito. Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus convites quase nunca agradam. Meus pedidos sempre desagradam. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego. Minha voz doce assusta. Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim. Falar do que sinto é, na hora, desintegrar com seu olhar. Então fico me perguntando sobre o que deveria dizer, se só sei o que sinto. Devo sentir por personagens de livros, filmes, jornais e ruas? É assim que se diz sem ser o que não importa de verdade? E se for o contrário? Mas pra dizer do contrário, fica sempre no ar, é melhor não dizer. Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida, coitado de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais uma delas. Se provoco, eu que provoque sozinho porque ninguem não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Meu trabalho nunca foi e nunca será do homem dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menino. Quieto. É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba. Se eu for garoto, garoto é um saco. Se eu for homem, homem só existe ele. Se eu for criança, fale com sua analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? Pode, desde que, depois, eu tenha estrutura para ver toda uma massa desistente desabando sobre meu sofá pequeno. Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontinhos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ele já não está mais. Se repito, quase explode. Se digo uma, sou bom de ser guardado em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louco. Se explico, sou louco. Quieto. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Se estou animado, cuidado com a rasteira. Se estou desanimado, não tem mão pra levantar. Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto. Olhando pra ele,quando ter 14 anos já era velho demais. Lembrando de quando ele me disse que é no silêncio que se sabe a verdade. E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir. Ele me diz. E o pior é que eu nem posso falar por ele. É tudo mentira.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Não é um texto.
Você não está lendo um texto. Você está dormindo numa rede, atravessando um farol, comprando um porta-clipes, fazendo arroz integral, prendendo os cabelos, assistindo jornal na tv(putz...é tão cedo e eu escrevendo), vendo sua cachorra espreguiçar. Sei lá, qualquer coisa. Mas você não está lendo esse texto.
Eu também não estou escrevendo pela trigésima vez sobre gostar de alguém. E tentando entender todos os 567 contras e 876 a favor. E tentando metaforizar um cheiro, um olhar, uma frase. E tentando descrever minha dor só para dar a ela algum patamar mais interessante do que a simplicidade de uma simples dor. E tentando supervalorizar minha alegria, só para dar a ela um gosto de vitória como se jamais fosse cotidiano ser feliz.
Eu não estou de frente para uma folha em branco. Tentando tornar meus personagens mais interessante e meus sentimentos mais nobres. Eu estou de frente para eles, vendo que meu personagem pode ser sem graça e meu sentimento pode estar morrendo.
Este é um não texto porque cansei da minha covardia em me contar um mundo que eu invento para viver melhor. Cansei de me contar um personagem só para que suspirar não seja um simples movimento involuntário. Cansei de me contar uma história linda, só para que os dias não corram sem magia e sem a certeza de um grande final de filme.
Imagina só que vida chata se eu, ao invés de escrever um texto de amor, cheio de esperança, profundidade, dor, maluquice, tesão, estivesse escrevendo um texto assim: e ninguém é interessante e eu, pra ser sincero, não gosto de ninguém.
Triste, muito triste. Chato. E pior do que tudo isso: anti-literário. Como é que um escritor vai se sustentar com um coração vazio?
Mas chega. Hoje decidi que estou prestes a assumir meu coração vazio. Não decidi isso movido por uma grande coragem ou por um momento de iluminação. Nada grandioso aconteceu. Apenas sinto que dei um pequeno, quase imperceptível, passo para uma vida mais madura. Eu simplesmente não suporto mais pintar o céu de cor-de-rosa para achar que vale a pena sair da cama.
Não posso mais emprestar mistério ao vazio, vida ao oco, esperança ao defunto, saliva ao seco. Não posso mais emprestar meus desejos para que pessoas se tornem desejáveis. E, finalmente, não posso mais inventar amor só para poder falar dele.
Muinta gente me fala “que coragem falar assim sobre o amor”, “que coragem ir tão fundo na sua dor”, “que coragem sentir tantas coisas a flor da pele”. Mas pelo menos hoje quero me desafiar a fazer algo muito mais difícil. Quero não sentir nada. Quero descansar meu coração de saco cheio das minhas invenções e precisando se preparar para viver algo de verdade.
Como será que é acordar e não esperar nada com o toque do celular, da campainha, do messenger, do e-mail, do ar, do chão? Como será que é sentir e gostar da vida pela sua calmaria e banalidade? Como será que é viver a banalidade sem achar que isso é banal?
Este é um não texto. Pra falar de um não amor. Pra falar de um não homem. Pra falar de uma não fantasia, invenção, personagem. Esse é um texto a favor da vida, pra falar da vida. A vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. A vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. Mas que é incrível por ser real.
A vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária.
Eu também não estou escrevendo pela trigésima vez sobre gostar de alguém. E tentando entender todos os 567 contras e 876 a favor. E tentando metaforizar um cheiro, um olhar, uma frase. E tentando descrever minha dor só para dar a ela algum patamar mais interessante do que a simplicidade de uma simples dor. E tentando supervalorizar minha alegria, só para dar a ela um gosto de vitória como se jamais fosse cotidiano ser feliz.
Eu não estou de frente para uma folha em branco. Tentando tornar meus personagens mais interessante e meus sentimentos mais nobres. Eu estou de frente para eles, vendo que meu personagem pode ser sem graça e meu sentimento pode estar morrendo.
Este é um não texto porque cansei da minha covardia em me contar um mundo que eu invento para viver melhor. Cansei de me contar um personagem só para que suspirar não seja um simples movimento involuntário. Cansei de me contar uma história linda, só para que os dias não corram sem magia e sem a certeza de um grande final de filme.
Imagina só que vida chata se eu, ao invés de escrever um texto de amor, cheio de esperança, profundidade, dor, maluquice, tesão, estivesse escrevendo um texto assim: e ninguém é interessante e eu, pra ser sincero, não gosto de ninguém.
Triste, muito triste. Chato. E pior do que tudo isso: anti-literário. Como é que um escritor vai se sustentar com um coração vazio?
Mas chega. Hoje decidi que estou prestes a assumir meu coração vazio. Não decidi isso movido por uma grande coragem ou por um momento de iluminação. Nada grandioso aconteceu. Apenas sinto que dei um pequeno, quase imperceptível, passo para uma vida mais madura. Eu simplesmente não suporto mais pintar o céu de cor-de-rosa para achar que vale a pena sair da cama.
Não posso mais emprestar mistério ao vazio, vida ao oco, esperança ao defunto, saliva ao seco. Não posso mais emprestar meus desejos para que pessoas se tornem desejáveis. E, finalmente, não posso mais inventar amor só para poder falar dele.
Muinta gente me fala “que coragem falar assim sobre o amor”, “que coragem ir tão fundo na sua dor”, “que coragem sentir tantas coisas a flor da pele”. Mas pelo menos hoje quero me desafiar a fazer algo muito mais difícil. Quero não sentir nada. Quero descansar meu coração de saco cheio das minhas invenções e precisando se preparar para viver algo de verdade.
Como será que é acordar e não esperar nada com o toque do celular, da campainha, do messenger, do e-mail, do ar, do chão? Como será que é sentir e gostar da vida pela sua calmaria e banalidade? Como será que é viver a banalidade sem achar que isso é banal?
Este é um não texto. Pra falar de um não amor. Pra falar de um não homem. Pra falar de uma não fantasia, invenção, personagem. Esse é um texto a favor da vida, pra falar da vida. A vida com seus defeitos, cinzas, brancos, estagnações, paradas, frios, silêncios, amenidades. A vida que pode não acelerar o peito e deixar tudo com estrelinhas de purpurina. Mas que é incrível por ser real.
A vida que não se escreve mas se vive, mesmo que isso, muitas vezes, seja ainda mais difícil que qualquer regra gramatical ou construção literária.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
A vida sempre continua
O bom de estar procurando é justamente sair de casa, seja pra onde for, e ter boas histórias pra contar, já dizia meu penúltimo último homem do mundo por quem eu sofreria.
Não sei exatamente o que estou procurando, mas como parei o remédio do soninho e não durmo mesmo, acabei parando numa festa com uma mesa um tanto peculiar e uma banda com um cara que gritava em um microfone ininterruptamente. Com violência. Com vida. E eu só pensava na força que saia de dentro dele.
A menina ao lado contava que tinha dormido transando. E o namorado só descobriu porque, depois de anos sem ela emitir qualquer som durante o ato, ela tinha roncado. Era tipo um avanço.
O cara da frente dizia “ô Jimmy, tem que parar de rir do amor, amor não é que nem o Felipe ou qualquer idiota, aquele amigo da escola que você tira sarro das tetas, amor é pra elogiar, exaltar”. Mas eu juro que rir é uma forma de amar. Quer elogio maior do que prestar atenção na pessoa a ponto de rir dela? Não é não. É sim. Não é não. É. Você acha certo aqueles 67 mil textos tirando sarro do seu penúltimo último homem do mundo por quem você sofreria? Alguém no mundo já amou alguém no mundo mais do que eu amei ele? Você não amava ele. Amava. Não amava. Amava. Não.
E o cara da banda gritando no microfone ininterruptamente. Com violência. Com vida. E eu só pensava na força que saia de dentro dele.
Aí outra garota, ao lado da garota que dormia transando (e eu tomando remédio justamente pra conseguir dormir sem pensar nisso) disse que estava lendo o melhor livro da vida dela “A vida continua 2”. Vejam bem: sendo assim, era certo que existia o primeiro “A vida continua”. E ela, a vida, tinha continuado tanto que agora tinha o 2. Isso que era dica literária.
Quando tudo ia ficar chato e meus devaneios assassinos iam começar a ser postos fantasiosamente em prática, eis que o vocalista pára e grita o refrão “eu estaria ao seu ladoooooo na fila do supermercadoooooo”. E então foi isso. Não tem lugar no mundo onde eu me sinta mais sozinho, deprimido e com síndrome do pânico. É isso. Pronto. O cara deve fazer o melhor sexo oral do planeta (foram duas horas e meia no microfone, gente!) e ainda ia resolver meu problema de solidão, depressão e pânico. Eu estaria ao seu ladooooooooooo na fila do supermercadooooooooooooooooo.
Isso até eu começar a rir dele, pegar bode de gaita e microfone, ter ciúme da caixa do supermercado ou dormir transando. A vida continua 567.
Não sei exatamente o que estou procurando, mas como parei o remédio do soninho e não durmo mesmo, acabei parando numa festa com uma mesa um tanto peculiar e uma banda com um cara que gritava em um microfone ininterruptamente. Com violência. Com vida. E eu só pensava na força que saia de dentro dele.
A menina ao lado contava que tinha dormido transando. E o namorado só descobriu porque, depois de anos sem ela emitir qualquer som durante o ato, ela tinha roncado. Era tipo um avanço.
O cara da frente dizia “ô Jimmy, tem que parar de rir do amor, amor não é que nem o Felipe ou qualquer idiota, aquele amigo da escola que você tira sarro das tetas, amor é pra elogiar, exaltar”. Mas eu juro que rir é uma forma de amar. Quer elogio maior do que prestar atenção na pessoa a ponto de rir dela? Não é não. É sim. Não é não. É. Você acha certo aqueles 67 mil textos tirando sarro do seu penúltimo último homem do mundo por quem você sofreria? Alguém no mundo já amou alguém no mundo mais do que eu amei ele? Você não amava ele. Amava. Não amava. Amava. Não.
E o cara da banda gritando no microfone ininterruptamente. Com violência. Com vida. E eu só pensava na força que saia de dentro dele.
Aí outra garota, ao lado da garota que dormia transando (e eu tomando remédio justamente pra conseguir dormir sem pensar nisso) disse que estava lendo o melhor livro da vida dela “A vida continua 2”. Vejam bem: sendo assim, era certo que existia o primeiro “A vida continua”. E ela, a vida, tinha continuado tanto que agora tinha o 2. Isso que era dica literária.
Quando tudo ia ficar chato e meus devaneios assassinos iam começar a ser postos fantasiosamente em prática, eis que o vocalista pára e grita o refrão “eu estaria ao seu ladoooooo na fila do supermercadoooooo”. E então foi isso. Não tem lugar no mundo onde eu me sinta mais sozinho, deprimido e com síndrome do pânico. É isso. Pronto. O cara deve fazer o melhor sexo oral do planeta (foram duas horas e meia no microfone, gente!) e ainda ia resolver meu problema de solidão, depressão e pânico. Eu estaria ao seu ladooooooooooo na fila do supermercadooooooooooooooooo.
Isso até eu começar a rir dele, pegar bode de gaita e microfone, ter ciúme da caixa do supermercado ou dormir transando. A vida continua 567.
domingo, 22 de novembro de 2009
Nada inacabado...
´´Coloqei o meu futuro dentro de mim.
Um futuro lindo, branco e sem fim.
Cheio de esperança" Livre! tranquilamente em branca paz.
O futuro é isso. o futuro é o que me interessa. O que passou, passou !
Que saiam todos do meu caminho! Estou indo em direçao ao futuro! ´´
Um futuro lindo, branco e sem fim.
Cheio de esperança" Livre! tranquilamente em branca paz.
O futuro é isso. o futuro é o que me interessa. O que passou, passou !
Que saiam todos do meu caminho! Estou indo em direçao ao futuro! ´´
sábado, 21 de novembro de 2009
Carta para o homem que eu matei,e um pouco de verdade viva!
Eu passo quieto por você, você passa quieto por mim, e eu ainda escuto o barulho que a gente faz.
E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu.
Não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê.
Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim.
Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir seguro. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena.
Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz.
De tanto treinar acostumei.
Eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó.
O homem que vai ser o pai da minha felicidade e não dos meus medos.
O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser homem, transar para sempre. Para dar tempo de eu ser criança, chorar para sempre.
Para dar tempo de eu ser para sempre.
Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você.
Antes que eu morresse de amor. Matei você.
Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não.
E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu.
Não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê.
Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim.
Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir seguro. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena.
Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz.
De tanto treinar acostumei.
Eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó.
O homem que vai ser o pai da minha felicidade e não dos meus medos.
O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser homem, transar para sempre. Para dar tempo de eu ser criança, chorar para sempre.
Para dar tempo de eu ser para sempre.
Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você.
Antes que eu morresse de amor. Matei você.
Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Impecavel.
Impecável é palavra perigosíssima e em mim causa dessas coisas de mania e corretices. Esse raciocínio é sem passar pela frente da testa, ocorre lá pelos limbos das costas de orelhas que nunca viram sol mas hastes de óculos. E por isso mesmo não é muito de se saber históricos, horários e tempos. Então nem sei porque chamo de raciocínio, mas como é quase prático e bastante bobo, também não acho justo chamar de inconsciente porque por esse tenho apreço intelectual temeroso. É só de ser homem e pensar em tantas babaquices e futilidades, e isso não é instinto e nem neurônio, é só insuportável mesmo.
É simples porque já que tenho então a pele mais lisa e o cabelo mais ajeitado, não me custa comprar só mais um par de sapatos e uma camisa nova e calças novas,e novos todos os outros....
Assim, num desses dias de impecável, que é mais bolha que todas as bolhas do mundo, dia de tô de máscara e nave e peles e litros e camadas e tudo, foi que uma menina feia, com pigarro de cachorro velho e sapato imundo com beirinha de calça varrendo ruas pigarreadas, resolveu, porque tava distraída com um pacotinho de bolacha Bono, tossir sem colocar a mão na boca, bem na minha nuca. E eu senti respingar a violência do mundo que não controlamos em mim, um tiro covarde, sem defesa, sem aviso, enquanto eu estava de costas e realmente muito bonito e bem vestido e cheirando tão bem que disfarçava pra me lamber um pouquinho, fingindo coçar a boca com o braço.
Primeiro pensei mesmo em morrer. Não que eu fosse me matar ou desejar uma desgraça. Mas é desses milésimos de segundo que pensamos que era melhor mesmo estar tão longe que nem é mais desse mundo. Depois pensei em estratégias para não encostar em nada meu até que me fosse permitido o contato com a água maravilhosa e salvadora do meu chuveiro. Esfregaria bastante, passaria bons dias deprimido e me resguardando de melhorias. O mínimo de tentativa de ser bonito me fazia entrar no vício sem fim de tentar tudo pra ser perfeito que me fazia entrar na neurose do impecável e, então, era sofrido andar na rua, respirar, tocar. Viver sempre macula o cara de massinha irreal que esculpimos sabe-se lá pra alegria ou vislumbre de quem ou de quê.
Tosse maldita, broca, martelo, furadeira, relaxou meus pés, deixou opaca a minha pele, os pelos sem chances de nascer, me deixou mais magro,alguns, colocaram seus comecinhos, cabecinhas, pra fora, eu suei um pouco na dobrinha do cotovelo, enrolou um pouco meu adorado topete, coçou no meio das minhas costas, ruas com barata, copos com marcas de batom, sola de lixos passando pelo meu tapetinho fofo que leva do banho quente pra caminha.
Eu não era mais impecável e foi nesse segundo que meu coração saiu desse romance frígido comigo, do alto de mim que nem é pele e nem é gente e nem se lembra mais, e voltou a pulsar no meio, bem lá onde tudo e todos se encontram porque também é preciso de errados, perigosos e sujos pra se manter bom, limpo e digno. O batimento no meio do peito, essa coisa que quando pega ritmo me faz esquecer de arrumar tanto a mim e à casa, os intervalos de morte que nos impulsionam pra gastar o sangue arredondando nossos cantinhos.
É simples porque já que tenho então a pele mais lisa e o cabelo mais ajeitado, não me custa comprar só mais um par de sapatos e uma camisa nova e calças novas,e novos todos os outros....
Assim, num desses dias de impecável, que é mais bolha que todas as bolhas do mundo, dia de tô de máscara e nave e peles e litros e camadas e tudo, foi que uma menina feia, com pigarro de cachorro velho e sapato imundo com beirinha de calça varrendo ruas pigarreadas, resolveu, porque tava distraída com um pacotinho de bolacha Bono, tossir sem colocar a mão na boca, bem na minha nuca. E eu senti respingar a violência do mundo que não controlamos em mim, um tiro covarde, sem defesa, sem aviso, enquanto eu estava de costas e realmente muito bonito e bem vestido e cheirando tão bem que disfarçava pra me lamber um pouquinho, fingindo coçar a boca com o braço.
Primeiro pensei mesmo em morrer. Não que eu fosse me matar ou desejar uma desgraça. Mas é desses milésimos de segundo que pensamos que era melhor mesmo estar tão longe que nem é mais desse mundo. Depois pensei em estratégias para não encostar em nada meu até que me fosse permitido o contato com a água maravilhosa e salvadora do meu chuveiro. Esfregaria bastante, passaria bons dias deprimido e me resguardando de melhorias. O mínimo de tentativa de ser bonito me fazia entrar no vício sem fim de tentar tudo pra ser perfeito que me fazia entrar na neurose do impecável e, então, era sofrido andar na rua, respirar, tocar. Viver sempre macula o cara de massinha irreal que esculpimos sabe-se lá pra alegria ou vislumbre de quem ou de quê.
Tosse maldita, broca, martelo, furadeira, relaxou meus pés, deixou opaca a minha pele, os pelos sem chances de nascer, me deixou mais magro,alguns, colocaram seus comecinhos, cabecinhas, pra fora, eu suei um pouco na dobrinha do cotovelo, enrolou um pouco meu adorado topete, coçou no meio das minhas costas, ruas com barata, copos com marcas de batom, sola de lixos passando pelo meu tapetinho fofo que leva do banho quente pra caminha.
Eu não era mais impecável e foi nesse segundo que meu coração saiu desse romance frígido comigo, do alto de mim que nem é pele e nem é gente e nem se lembra mais, e voltou a pulsar no meio, bem lá onde tudo e todos se encontram porque também é preciso de errados, perigosos e sujos pra se manter bom, limpo e digno. O batimento no meio do peito, essa coisa que quando pega ritmo me faz esquecer de arrumar tanto a mim e à casa, os intervalos de morte que nos impulsionam pra gastar o sangue arredondando nossos cantinhos.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Adimirado?
Como sempre se chacoalhando além do normal no sofá de couro atrás de mim (e fazendo um barulho que sempre me soa como raiva, apesar de ser um dos poucos e raros momentos em que eu não mereço a raiva de ninguém- justamente porque não apenas causo distraído mas fico ali pra sentir junto), minha analista exclamou alto, abismada como senhoras rotineiras em frente a um novo preço da banana: crueldade?
É! Crueldade! A pessoa ficar sentada na sua frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, sentada, na sua frente, sorrindo, que mais poderia ser isso?
Então ela suspirou profundo, um misto de "cansaços" de mim e ao mesmo tempo um apreço pelos bichinhos mais difíceis e ignorantes do mundo, e disse: admiração? Não pode ser admiração?
Já fui em cardiologista pra saber se é do sopro. Em gastro pra saber se é do fígado (eu continuo insistindo que não é meu estômago que dói), em psiquiatra pra saber se é falta de alguma química, vitamina, deslocamento de massa. Já fui em benzedeira. Oftalmo pra acertar o mundo. Dentista pra encaixar meu desequilíbrio em devorar e relaxar e falar e deixar. Já fui em tantos médicos. Procurar enganar o tempo e talvez seja só isso.
Mas naquele segundo, quando ela disse “admiração” não consegui enganar nada e senti, com talvez um peito mais velho e mais duro (porque a dor dessa hora permitiu que eu fosse emancipado e uma vez, pra sempre) que talvez tanta coisa ruim fosse só porque era boa. E eu, querendo tanto dar conta do mundo, fui incapaz de algumas horas fáceis e bonitas. Pior: talvez minhas por um merecimento que nem tinha mais pra onde ir.
Mas depois, porque sempre volto pra casa atrás de respostas pra tudo, pensei o seguinte. Que é crueldade sim, senhora. Você gostar de alguém e só. Você se sentar na frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, na frente, e gostar. Como se dissesse: eu, daqui de onde não preciso de nada além de ser alegrado e dar a mim mesmo esses momentos de ternura e arrepios e capacidades. Gosto de você. Vá, continue se descabelando, olhe pra baixo não dando conta dessas lantejoulas todas que tenho para abrilhantar seus estados. Vá, marionete do que planejei pra essa tarde. Eu gosto de você. Eu posso sentir isso. Então, por favor, não estrague e capriche e dê valor. Porque não é sempre e quase nunca. Então, por favor, olha só, eu g.o.s.t.o de você. Tem noção do tamanho dessa plateia para cada sua pequenice? Vamos. Seja.
Estava zapeando o mundo, preguiçoso, desistente e triste. Quando...você! Vá, me alegre, vá, passe as mãos pelo cabelo.
E agradecem, eles sempre agradecem, porque sabem a arrogância que é se servir de mundo sem ter nada pra dar a não ser suas falsas capacidades de gostar. E sabem que jajá partem e, então, não custa ter essa pena benevolente e esse sorriso já menos certeza mas ainda admirando ao longe.
Apesar de soar isso sim egoísmo, não deixo de me ouvir dizendo que quem gosta sente é o desespero pra agradar e ser gostado. A urgência de mostrar ao invés de assistir. A pressa em dar ao invés dessa receptividade toda tão corajosa em acomodar.
Ao invés de sorrir tanto, não são os que choram escondidos os que mais gostam? O resto não são experimentadores de mundo, enganando a gente com espaços que não se emprestam e nem se dão e nem se são desocupados?
Olhando como se fossemos aquelas crianças no farol tentando de tudo. Num dia de não mesmice apesar da obviedade.
Então, então, as bolinhas quase caem, os olhos dele que gosta tanto de mim,só olha e se cala, caem junto,e é só memoria. E o farol abre e vai cada desgraçado prum canto.
Portanto, agora, quando eles sorriem pra mim, sentados de frente, quietos, eu apenas pergunto, já me tirando do lugar de ser gostado: e o que você tem pra mim, afinal? E eu sei futuramente que a resposta é avassaladora, passa por coisas alheias do tipo “nada” e por coisas lindas do tipo “e nada é a boa resposta, garoto”. Mas por enquanto, ainda acho tudo assim mesmo. Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieto e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo
É! Crueldade! A pessoa ficar sentada na sua frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, sentada, na sua frente, sorrindo, que mais poderia ser isso?
Então ela suspirou profundo, um misto de "cansaços" de mim e ao mesmo tempo um apreço pelos bichinhos mais difíceis e ignorantes do mundo, e disse: admiração? Não pode ser admiração?
Já fui em cardiologista pra saber se é do sopro. Em gastro pra saber se é do fígado (eu continuo insistindo que não é meu estômago que dói), em psiquiatra pra saber se é falta de alguma química, vitamina, deslocamento de massa. Já fui em benzedeira. Oftalmo pra acertar o mundo. Dentista pra encaixar meu desequilíbrio em devorar e relaxar e falar e deixar. Já fui em tantos médicos. Procurar enganar o tempo e talvez seja só isso.
Mas naquele segundo, quando ela disse “admiração” não consegui enganar nada e senti, com talvez um peito mais velho e mais duro (porque a dor dessa hora permitiu que eu fosse emancipado e uma vez, pra sempre) que talvez tanta coisa ruim fosse só porque era boa. E eu, querendo tanto dar conta do mundo, fui incapaz de algumas horas fáceis e bonitas. Pior: talvez minhas por um merecimento que nem tinha mais pra onde ir.
Mas depois, porque sempre volto pra casa atrás de respostas pra tudo, pensei o seguinte. Que é crueldade sim, senhora. Você gostar de alguém e só. Você se sentar na frente, sorrindo, sem dizer nada, sorrindo, na frente, e gostar. Como se dissesse: eu, daqui de onde não preciso de nada além de ser alegrado e dar a mim mesmo esses momentos de ternura e arrepios e capacidades. Gosto de você. Vá, continue se descabelando, olhe pra baixo não dando conta dessas lantejoulas todas que tenho para abrilhantar seus estados. Vá, marionete do que planejei pra essa tarde. Eu gosto de você. Eu posso sentir isso. Então, por favor, não estrague e capriche e dê valor. Porque não é sempre e quase nunca. Então, por favor, olha só, eu g.o.s.t.o de você. Tem noção do tamanho dessa plateia para cada sua pequenice? Vamos. Seja.
Estava zapeando o mundo, preguiçoso, desistente e triste. Quando...você! Vá, me alegre, vá, passe as mãos pelo cabelo.
E agradecem, eles sempre agradecem, porque sabem a arrogância que é se servir de mundo sem ter nada pra dar a não ser suas falsas capacidades de gostar. E sabem que jajá partem e, então, não custa ter essa pena benevolente e esse sorriso já menos certeza mas ainda admirando ao longe.
Apesar de soar isso sim egoísmo, não deixo de me ouvir dizendo que quem gosta sente é o desespero pra agradar e ser gostado. A urgência de mostrar ao invés de assistir. A pressa em dar ao invés dessa receptividade toda tão corajosa em acomodar.
Ao invés de sorrir tanto, não são os que choram escondidos os que mais gostam? O resto não são experimentadores de mundo, enganando a gente com espaços que não se emprestam e nem se dão e nem se são desocupados?
Olhando como se fossemos aquelas crianças no farol tentando de tudo. Num dia de não mesmice apesar da obviedade.
Então, então, as bolinhas quase caem, os olhos dele que gosta tanto de mim,só olha e se cala, caem junto,e é só memoria. E o farol abre e vai cada desgraçado prum canto.
Portanto, agora, quando eles sorriem pra mim, sentados de frente, quietos, eu apenas pergunto, já me tirando do lugar de ser gostado: e o que você tem pra mim, afinal? E eu sei futuramente que a resposta é avassaladora, passa por coisas alheias do tipo “nada” e por coisas lindas do tipo “e nada é a boa resposta, garoto”. Mas por enquanto, ainda acho tudo assim mesmo. Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieto e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Uma diferença
Fico congelado olhando, ele lamber os dedos da fruta que trouxe na bolsa. Mãos da rua e nem lava. Lambe os dedos das mãos secas. Fico congelado olhando e sinto o golpe de ar que entra pela rachadura do meu peito. De um lado o nojo, o renegar, o virar o rosto. De outro, uma vontade imensa de pertencer ou ao menos ser querido ao diferente. O diferente, o diferente, o diferente. Eu metralhando a vida mesmo sabendo que não existe defesa pra isso. Ele transforma meu peito de arrogância lisinha num chão árido e nem imagina que faço metáfora com seu mijo. Nem imagina que pego suas sobras, suas coisas descartadas, e passo o resto da semana bebendo nessa fonte. O que você não quer, me dá que eu levo pra casa e fico horas tentando entender. Por outro lado, tente ser meu um pouquinho?
De dentro do carro no banco de carona ,descubro que o caminho mais rápido para a minha casa passa sempre em frente ao boteco. Boteco? Boteco. E me contorço inteiro de não querer, mas espio lá pra dentro de uma curiosidade tão torta que as rodas do carro com ar condicionado entortam também meus caminhos. Alguém buzina sem paciência. E eu quero gritar “e eu lá quero essa vida toda que não é a minha?”. E as rodas tortas e todo meu retesar não enganam mais nada. Eu quero um pouco. Eu quero que eles me queiram um pouco. E tudo isso me assusta e incomoda muito. De leve, caindo gotinhas a cada segundo, uma coceira pequena mas inchadinha. Eu olho sim do buraquinho da minha bolha. Ô menino, pega minha bola? Brinca comigo um pouco? Meus pais não me deixam brincar na rua, mas minha bola é bonita e cara, você não quer entrar? Minha bola é melhor do que a sua. Mais limpa. Menos usada. O menino ri e corre pra longe. Vai viver de verdade na vida enquanto eu faço o mesmo só dentro de mim. Eu fico triste, mas o coração disparou tanto que quase não parece tristeza. As coisas que sinto quase nunca parecem as que temos oficializadas em dicionários. E então me pergunto como escrevo.
Eu fico congelado olhando. As janelas todas dos prédios todos de todas as vidas por aí. Fico congelado quando não são meus grupinhos e plateias e tudo que tem cheiro de mãe ainda que nem mãe tenha esse cheiro. As pessoas diferentes e como se viram pra conseguir o mesmo que eu. Que é ver algum sentido, dormir bem, falar que alguma coisa é boa demais, meter o pau no resto todo, gozar antes de começar a pensar na quarta-feira e não decepcionar tanto assim alguém que a gente tem certeza que conhece melhor do que ninguém.
Quando não riem de mim, não entendem, não se doem com minha dor, não congelam por mim, não existe aquele minuto em que sinto “olha lá, estão virando meus, vão virar, vão virar, opa, sim, são meus”. Vou murchando, murchando. Ratinho pequeno. Noz. Formiga. Sumi. Nunca existi. Que dor. Que dor. Soco o teto pra voltar pro chão. Só ser plateia. Ser amigo de gente com seus egos e histórias próprias. E o pior de tudo: prestar a maior atenção neles e nem conseguir falar nada. Mudo a voz, meu jeito de sentar, não lembro de sequer um motivo pra ser amado ou desejado. Tenho a idade insuportável de novo. E as crianças no recreio não querem brincar com minha bola. Tudo o que construí esses anos todos me abandona. Quando vou ver, estou lá de novo, magrelo, sozinho, estranho e criando vinganças puras no peito estriado. Sonhando com tudo o que eu faria pra me transformar exatamente no que me transformei. Voltar pra merda dói mas é passado. Agora eu olho pra eles de dentro do carro geladinho, de dentro de poses, mais de não sei quantas lojas vendendo criações minhas, mais pessoas que posso calcular usando o MEU, Uma grana alta nessa sala que eu li que era chique, Minha futura empresa,transbordando egoismo,mais de mil garotos, garotas,amigos, notas, abraços. Não sou ele! Eu sou eu! Ouviram? Ouviram? Mas eles estão preocupados demais em provar o mesmo. Vai ver não somos tão diferentes assim.
De dentro do carro no banco de carona ,descubro que o caminho mais rápido para a minha casa passa sempre em frente ao boteco. Boteco? Boteco. E me contorço inteiro de não querer, mas espio lá pra dentro de uma curiosidade tão torta que as rodas do carro com ar condicionado entortam também meus caminhos. Alguém buzina sem paciência. E eu quero gritar “e eu lá quero essa vida toda que não é a minha?”. E as rodas tortas e todo meu retesar não enganam mais nada. Eu quero um pouco. Eu quero que eles me queiram um pouco. E tudo isso me assusta e incomoda muito. De leve, caindo gotinhas a cada segundo, uma coceira pequena mas inchadinha. Eu olho sim do buraquinho da minha bolha. Ô menino, pega minha bola? Brinca comigo um pouco? Meus pais não me deixam brincar na rua, mas minha bola é bonita e cara, você não quer entrar? Minha bola é melhor do que a sua. Mais limpa. Menos usada. O menino ri e corre pra longe. Vai viver de verdade na vida enquanto eu faço o mesmo só dentro de mim. Eu fico triste, mas o coração disparou tanto que quase não parece tristeza. As coisas que sinto quase nunca parecem as que temos oficializadas em dicionários. E então me pergunto como escrevo.
Eu fico congelado olhando. As janelas todas dos prédios todos de todas as vidas por aí. Fico congelado quando não são meus grupinhos e plateias e tudo que tem cheiro de mãe ainda que nem mãe tenha esse cheiro. As pessoas diferentes e como se viram pra conseguir o mesmo que eu. Que é ver algum sentido, dormir bem, falar que alguma coisa é boa demais, meter o pau no resto todo, gozar antes de começar a pensar na quarta-feira e não decepcionar tanto assim alguém que a gente tem certeza que conhece melhor do que ninguém.
Quando não riem de mim, não entendem, não se doem com minha dor, não congelam por mim, não existe aquele minuto em que sinto “olha lá, estão virando meus, vão virar, vão virar, opa, sim, são meus”. Vou murchando, murchando. Ratinho pequeno. Noz. Formiga. Sumi. Nunca existi. Que dor. Que dor. Soco o teto pra voltar pro chão. Só ser plateia. Ser amigo de gente com seus egos e histórias próprias. E o pior de tudo: prestar a maior atenção neles e nem conseguir falar nada. Mudo a voz, meu jeito de sentar, não lembro de sequer um motivo pra ser amado ou desejado. Tenho a idade insuportável de novo. E as crianças no recreio não querem brincar com minha bola. Tudo o que construí esses anos todos me abandona. Quando vou ver, estou lá de novo, magrelo, sozinho, estranho e criando vinganças puras no peito estriado. Sonhando com tudo o que eu faria pra me transformar exatamente no que me transformei. Voltar pra merda dói mas é passado. Agora eu olho pra eles de dentro do carro geladinho, de dentro de poses, mais de não sei quantas lojas vendendo criações minhas, mais pessoas que posso calcular usando o MEU, Uma grana alta nessa sala que eu li que era chique, Minha futura empresa,transbordando egoismo,mais de mil garotos, garotas,amigos, notas, abraços. Não sou ele! Eu sou eu! Ouviram? Ouviram? Mas eles estão preocupados demais em provar o mesmo. Vai ver não somos tão diferentes assim.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Ironico e Tanto.
Tanta gente nesse mundo é enganação, pare pra pensar, de verdade: quem é que é alguma porra realmente? O mundo é dividido entre os que fazem encenação, que dá aí uns bons oitenta e cinco por cento (procure por aí, as pessoas em festa como se cada movimento fosse um clique de foto, o jeito de sentar milimetricamente calculado para nada querer dizer, procure, tantas poses com a bebida na mão e o cigarro na outra, procure por aí os olhares misteriosos, se dando uma importância transcendental com o charme de não aparentar nenhuma, os saltos, os jogos de tortura mental, ligo na terça pra dar tempo dela sentir falta na segunda, sair por cima é a única saída, procure, são tantos os tipos, eruditos preenchidos do sentir externo, felizes de morrer, tristes de matar, artistas papagaios, piadistas sem humor próprio, “autênticos” em série, tudo fruto de ensaio, tudo fruto de frase pronta ou sensação copiada) e os que simplesmente desistiram da vida toda (os que vagam semi mortos, não se importam mais com machucados, cartas, barulhos de chuva e músculos, não se preocupam com o que vão dizer ou pensar ou causar ou carregar, foda-se, que venha a morte mas antes se der pra gozar só mais uma vez, só mais uma vez, de barrigada ou caridade, é o princípio dos alcoólicos anônimos só que pra parar de morrer: só mais um dia vivendo. Os que não vivem quase enganam que são de verdade, com seus panos e movimentos e bens igualmente abandonados, mas ser de verdade sem “estar” não vale muito, pense bem.).
O mundo é dividido entre os que sentem os que gostariam (e não o que sentem) e os que não sentem mais e ufa, melhor assim. E no meio dessa merda toda, de vez em quando, aparece alguém de verdade. E apareceu, o cara dos desenhos, o cara dos desenhos. O cara dos uivos e pulos e rabiscos e jeito de olhar que dá vontade de uivar e pular e rabiscar. E eu senti bater no fundo, um murro, um tapa na cara no estômago. Esse cara tá aqui. Temos aí um ser humano em plena atividade de estar vivo e ser ele próprio. Essa espécie em extinção chamada pessoa, ou gente, ou cara. O cara dos desenhos. ..E eu definitivamente sem estar livre para isto,ironico e tanto.
Escolhi a tela do demônio do bem. Se o mundo fosse trilogia francesa ou pornochanchada brasileira, ele viria entregar o quadro de jardineira jeans e faríamos amor até essa minha cama vagabunda expulsar os gaveteiros que mamãe desenhou pensando na praticidade de uma casa pequena. Mas como a vida é chata, vou me contentar em dormir abraçado com o seu demônio do bem, sonhando com o dia que você vai olhar de novo tão profundamente pra mim que até ter pele me soou um desacato.
O mundo é dividido entre os que sentem os que gostariam (e não o que sentem) e os que não sentem mais e ufa, melhor assim. E no meio dessa merda toda, de vez em quando, aparece alguém de verdade. E apareceu, o cara dos desenhos, o cara dos desenhos. O cara dos uivos e pulos e rabiscos e jeito de olhar que dá vontade de uivar e pular e rabiscar. E eu senti bater no fundo, um murro, um tapa na cara no estômago. Esse cara tá aqui. Temos aí um ser humano em plena atividade de estar vivo e ser ele próprio. Essa espécie em extinção chamada pessoa, ou gente, ou cara. O cara dos desenhos. ..E eu definitivamente sem estar livre para isto,ironico e tanto.
Escolhi a tela do demônio do bem. Se o mundo fosse trilogia francesa ou pornochanchada brasileira, ele viria entregar o quadro de jardineira jeans e faríamos amor até essa minha cama vagabunda expulsar os gaveteiros que mamãe desenhou pensando na praticidade de uma casa pequena. Mas como a vida é chata, vou me contentar em dormir abraçado com o seu demônio do bem, sonhando com o dia que você vai olhar de novo tão profundamente pra mim que até ter pele me soou um desacato.
Ferias
Férias antes dos doze anos era coisa de criança, poderia ser incrível ou um fiasco, a depender da programação dos pais, do tempo, das brincadeiras propostas, dos velhos amigos do prédio ou dos novos da praia, fazenda ou o que fosse.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar vivo.
Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”.
Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecido até não poder mais por ter sido chamado a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velho e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinho assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo.
Eu só perderia a virgindade dois anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca um ano depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez meio ano depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu bagunçei meu cabelo e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronto e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinho. Seguido por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como um louco que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas.
E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar vivo.
Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”.
Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecido até não poder mais por ter sido chamado a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velho e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinho assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo.
Eu só perderia a virgindade dois anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca um ano depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez meio ano depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu bagunçei meu cabelo e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronto e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinho. Seguido por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como um louco que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas.
E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Da arte de ser mais um!
Acontece de repente, quando acaba o pão de queijo no café com revistas ao lado do prédio que tem cheiro de umidade. Um dia que não prometia absolutamente nada, talvez chuva, mas nem isso se cumpriu. Não é dia de trânsito nem de acidente. Não é véspera de nada e tudo vai tão calmo que você poderia até esquecer o celular em algum lugar e só se dar conta no dia seguinte, na hora do despertador. Naquele segundo, lá no café sem pão de queijo, você topa o pão de batata mesmo, se esquece um segundo pra ver uma chamada do Caderno 2 e sabe que foi aceito. Simples assim. Você está há meses indo de topete e oculos escuros e nada. Você levou todos os seus livros e algumas mentiras que saíram falando de você, e nada. Você tentou ser inteligente, ágil, prestativo, misterioso, difícil, fazer piadas sexuais, nada. Até que numa tarde, de repente, porque já acostumaram com a sua cara ou só porque enfim sua natureza legal venceu a sua vontade de ser legal, você se torna mais um. Você consegue, finalmente, ficar em silêncio ao lado das pessoas, e as pessoas conseguem, finalmente, gostar de você mesmo, ou principalmente, porque você, finalmente, ficou em silêncio. E então você é mais um. E tanta dor de barriga e medo, tudo aquilo que faz você se sentir tão especial. Você esquece que é especial e se torna mais um. Só mais um a comer um pão de batata velho desejando o pão de queijo recém saído do forno. Só mais um. E no meio de tanta gente querendo provar coisas, você dá o desconto e só as escuta. E de repente, estão fazendo silêncio para escutar você. E, de repente, pela primeira vez, porque dessa vez sim é a sua vez, você diz algo e todos riem de modo a te mostrar que você conseguiu. E você não tem mais dor de barriga e nem ódio e muito menos ânsia de vômito. Você não tem nada, você tem é uma massa que se mistura e sente tanto com todos que se anula. Se anular, você vai descobrir, era só o que você precisava pra ser feliz. Ser mais um, você é vai descobrir, o que faz a gente passar meses exaltando o que somos. O fim de toda a arrogância e genialidade é uma simples frase do tipo “ah, você já vai?”. Fazer falta é simples, popular, sem nenhuma dramaticidade e quase não dá bons textos. Ser sozinho rende o mundo, mas me parece tão pequeno perto dos meus passinhos de dança, depois, ao chegar em casa.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
100 sentidos!
Às vezes cansa e entristece tanto, o mundo com os mutilados todos. Enxergar os pedaços, pegar um cinema com um tronco, tomar um café com meio rosto, apertar as mãos de uma canela, sentir o abraço idiota de um joelho com aquele cheiro de pele lixada pela continuidade.
Frustração com o ser humano,isto nos faz mesquinhos e solitarios,nos faz pessoas chicara de café e música baixa no fim da tarde, de vista para o cinza,para a rua,para seilá oque eu olho agora!
Não é arrogância, se fosse, eu a usaria pra me sentir menos assustado e sozinho. É só mesmo a busca de me formar pelos outros ou me ver neles, nunca sei o peso da troca, e nem se é justa. Mas é tão de verdade que não se pode dizer arrogância ou loucura.
Na pressa de juntar tudo pra ver de uma vez só e me enojar menos, na pressa de juntar tudo pra ser de uma vez só e sentir menor o silêncio de ser uma parte que nem em si tem companhia, o mundo é como os desenhinhos que fazemos no cantinho de um bloco. Corra, corra, e todos terão tudo, todos se movimentarão tanto, o mundo rola, role com ele, basta o dedão percorrer rápido os cantinhos e a vida vai.
Dar certo é questão de segundos, sentir é questão de segundos, sempre a um passo de ser melhor e sentir pra valer. E a sensação deliciosa de dormir só e em silêncio mas junto com o mundo inteiro. Ser sem gente pra encher o saco, mas ser junto com todo mundo que é. Se isso ocorrer, esse segundo antes de dormir, isso sim é dormir. O resto é desculpa pra continuar mais tarde, varrendo o chão do inferno, o chuá, chuá do cérebro que brinca de lixeiro mas é só o chuá, chuá da repetição. A poeira fica, só nos enganamos chutando o que somos cada hora para um lado.
Como assusta o instante em que qualquer enrolação não é suportável e vemos, da janela, do carro, da mesa, da porta, de nós, as pernas correndo sem cabeça, as cabeças se dando sem mãos, os pés chutando sem estômago, as tripas acariciando sem pulso.
Quando cansa e entristece, os amigos dedos com anel, os amigos cintura com cinto, os amigos orelha com cabelo liso atrás, os amigos calça antes de encostar no calcanhar. O que me mantém em pé apesar da falta de corpo é a saudade de algo encaixável e inteiriço, é a curiosidade e a fé em algo encaixável e inteiriço. O que me mantém em pé é perseguir um corpo, pra ser igual ou pra que seja. O que me mantém em pé é, justamente, o quase tudo isso, o quase que sempre foi e o quase de daqui a pouco. É o gosto da lembrança e da iminência. A promessa sempre atual do há ou daqui a. Mas nunca, nunca, nunca, foi. Será?
Onde estão os amigos? Devagar, com paradas, com amor, são restos de algo, são quase, tudo é quase, tudo é resto, tudo é ainda não, mas quase. Nunca sei se serão ou se sobraram. Então, o desespero, o desespero é justamente não existir um corpo inteiro que se abrace. O desespero é, principalmente, não se ser um corpo inteiro para abraçar. É nunca aprender porque não ensinamos. É nunca copiar porque não estamos. A queda que ninguém segura e nem a gente mesmo. O desespero é, sobretudo, não desistir, não acabar, sequer ser queda. Sequer ser desespero. Desespero é nem isso. Ainda não ser, ainda não ter, ainda não não.
Frustração com o ser humano,isto nos faz mesquinhos e solitarios,nos faz pessoas chicara de café e música baixa no fim da tarde, de vista para o cinza,para a rua,para seilá oque eu olho agora!
Não é arrogância, se fosse, eu a usaria pra me sentir menos assustado e sozinho. É só mesmo a busca de me formar pelos outros ou me ver neles, nunca sei o peso da troca, e nem se é justa. Mas é tão de verdade que não se pode dizer arrogância ou loucura.
Na pressa de juntar tudo pra ver de uma vez só e me enojar menos, na pressa de juntar tudo pra ser de uma vez só e sentir menor o silêncio de ser uma parte que nem em si tem companhia, o mundo é como os desenhinhos que fazemos no cantinho de um bloco. Corra, corra, e todos terão tudo, todos se movimentarão tanto, o mundo rola, role com ele, basta o dedão percorrer rápido os cantinhos e a vida vai.
Dar certo é questão de segundos, sentir é questão de segundos, sempre a um passo de ser melhor e sentir pra valer. E a sensação deliciosa de dormir só e em silêncio mas junto com o mundo inteiro. Ser sem gente pra encher o saco, mas ser junto com todo mundo que é. Se isso ocorrer, esse segundo antes de dormir, isso sim é dormir. O resto é desculpa pra continuar mais tarde, varrendo o chão do inferno, o chuá, chuá do cérebro que brinca de lixeiro mas é só o chuá, chuá da repetição. A poeira fica, só nos enganamos chutando o que somos cada hora para um lado.
Como assusta o instante em que qualquer enrolação não é suportável e vemos, da janela, do carro, da mesa, da porta, de nós, as pernas correndo sem cabeça, as cabeças se dando sem mãos, os pés chutando sem estômago, as tripas acariciando sem pulso.
Quando cansa e entristece, os amigos dedos com anel, os amigos cintura com cinto, os amigos orelha com cabelo liso atrás, os amigos calça antes de encostar no calcanhar. O que me mantém em pé apesar da falta de corpo é a saudade de algo encaixável e inteiriço, é a curiosidade e a fé em algo encaixável e inteiriço. O que me mantém em pé é perseguir um corpo, pra ser igual ou pra que seja. O que me mantém em pé é, justamente, o quase tudo isso, o quase que sempre foi e o quase de daqui a pouco. É o gosto da lembrança e da iminência. A promessa sempre atual do há ou daqui a. Mas nunca, nunca, nunca, foi. Será?
Onde estão os amigos? Devagar, com paradas, com amor, são restos de algo, são quase, tudo é quase, tudo é resto, tudo é ainda não, mas quase. Nunca sei se serão ou se sobraram. Então, o desespero, o desespero é justamente não existir um corpo inteiro que se abrace. O desespero é, principalmente, não se ser um corpo inteiro para abraçar. É nunca aprender porque não ensinamos. É nunca copiar porque não estamos. A queda que ninguém segura e nem a gente mesmo. O desespero é, sobretudo, não desistir, não acabar, sequer ser queda. Sequer ser desespero. Desespero é nem isso. Ainda não ser, ainda não ter, ainda não não.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Loucuras antes de partir
Este texto não tem pretensão literária, é apenas uma cartinha de despedida simples e meio jogada, uma ruptura breve e necessária entre nós. Eu só queria dizer, antes de guardar minhas cuecas preferidas na mala, antes do frio gostoso na barriga, antes do avião me projetar pra trás avisando que a hora tão esperada chegou, que eu continuo o mesmo, ainda que completamente diferente.
Eu continuo deixando tudo pra última hora, eu continuo preconceituoso demais e mal-humorado além da conta, eu continuo com medo de tudo e de todos ainda que isso, por alguma razão louca, me faça amar ainda mais tudo e todos.
Mas eu também descobri coisas deliciosas a meu respeito como, por exemplo, que eu assusto todo mundo com o meu espelho de esquezitice. Uma pessoa superficial e de mentira jamais agüentaria ficar perto de mim, quer coisa melhor que isso? Afasto as sombras ainda que muitas vezes me sobre a solidão, afinal, são poucas as pessoas realmente vivas.
Descobri, depois de muito meditar, ler, estudar mitologia, fazer terapia e tomar passe, que o que realmente faz um homem feliz e pleno é cerveja e liberdade. Meus dias estão lindo, minhas compras me libertam de um peso enorme do dia-a-dia. Sim, eu também posso ser apenas fútil e isso é libertador.
Eu ainda choro do nada mas sabe o que eu descobri? Que porque viver é um drama, essa vida dramática é muito engraçada. Ontem eu e alguns amigos rimos a noite inteira e celebramos o fato de sermos únicos, de sermos sozinhos, de sermos tão parecidos e de sermos ums dos outros. Eu descobri que a melhor coisa do mundo são os amigos e por isso queria dizer: Eu amo vocês pra cacete.
Queria dizer pra vocês que eu enchi quatro sacos de coisas velhas e mortas e joguei no lixo. Queria dizer que eu não acho mais que fulana passou do peso, que fulana passou da conta de imbecilidades e que fulano se esqueceu de ser real. Eu apenas queria dizer que eu tô bem em forma, sou bem bacana e, graças a Deus, tenho plena certeza do que vim fazer nesse planeta.
Queria aproveitar para fazer um elogio a mim, sim, chega de me detonar. Queria te dizer, seu escrotinho que dorme comigo todas as noites, que nenhuma das vezes em que eu cheguei perto da janela e fiquei na ponta dos pés, eu estava sendo sincero. Queria te dizer que, apesar de você se sentir imensamente sozinho de vez em quando, eu sou milhares, e todos esses milhares te acham o melhor homem do mundo. Queria bater palmas pra todas as vezes em que você sacrificou o que você mais amava em nome de seguir a diante com o teu fígado e todas as vezes em que você ficou pequenininho para que ficar grande fosse ainda maior. Obrigado por nunca ter fugido de mim, obrigado por ter me encontrado, obrigado por estar aqui. Confie que agora, de dentro de mim, conquistar o mundo vai ser ridículo. Ah, e tem mais: Você é o melhor!
Hoje eu acordei nervoso e irritado com a minha viagem, aí parei e pensei: chega de se boicotar cara tá na hora de você ser muito feliz.
Gente, tá na hora da gente ser muito feliz. Primeiro porque somos de verdade, depois porque somos filhos de Deus e, pra terminar, porque existe sapatos lindos para serem comprados!
Enquanto eu não volto, deixo vocês com o filme “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” vale a pena mesmo empobrecido. Deixo vocês com um fim de tarde na rua juilo klein, o lugar onde sempre sou feliz porque sempre dá pra ser feliz. Deixo vocês com os quadros da Frida Carlo, com a voz Shirley manson e da VV, com a frase maravilhosa de Vinícius, “a vida só se dá pra quem se deu”, e com uma deliciosa pizza.
Meu peito está cheio de curiosidade e alegria. É possível sim amar a vida, ainda que qualquer amor tenha seus dias de crise. E eu só queria deixar todos vocês, enquanto eu não volto, com um pedaço de mim. Pode pegar sem cerimônia, alma quanto mais a gente dá, mais a gente tem.
Muito obrigado por todos os e-mails maravilhosos que eu recebo todos os dias, por todas as palavras de incentivo e carinho. Obrigado a todos vocês caras que me emprestam seus ouvidos,olhos,ombros,peitos... Vocês me dão a certeza de que eu estou exatamente onde eu deveria estar. Vocês fazem valer a pena todo o sacrifício, muitas vezes solitário, de ser uma pessoa sem medo de sentir de verdade a vida de dentro e a de fora.
Todo mundo precisa, pra viver, morrer de vez em quando. Até a volta.
Eu continuo deixando tudo pra última hora, eu continuo preconceituoso demais e mal-humorado além da conta, eu continuo com medo de tudo e de todos ainda que isso, por alguma razão louca, me faça amar ainda mais tudo e todos.
Mas eu também descobri coisas deliciosas a meu respeito como, por exemplo, que eu assusto todo mundo com o meu espelho de esquezitice. Uma pessoa superficial e de mentira jamais agüentaria ficar perto de mim, quer coisa melhor que isso? Afasto as sombras ainda que muitas vezes me sobre a solidão, afinal, são poucas as pessoas realmente vivas.
Descobri, depois de muito meditar, ler, estudar mitologia, fazer terapia e tomar passe, que o que realmente faz um homem feliz e pleno é cerveja e liberdade. Meus dias estão lindo, minhas compras me libertam de um peso enorme do dia-a-dia. Sim, eu também posso ser apenas fútil e isso é libertador.
Eu ainda choro do nada mas sabe o que eu descobri? Que porque viver é um drama, essa vida dramática é muito engraçada. Ontem eu e alguns amigos rimos a noite inteira e celebramos o fato de sermos únicos, de sermos sozinhos, de sermos tão parecidos e de sermos ums dos outros. Eu descobri que a melhor coisa do mundo são os amigos e por isso queria dizer: Eu amo vocês pra cacete.
Queria dizer pra vocês que eu enchi quatro sacos de coisas velhas e mortas e joguei no lixo. Queria dizer que eu não acho mais que fulana passou do peso, que fulana passou da conta de imbecilidades e que fulano se esqueceu de ser real. Eu apenas queria dizer que eu tô bem em forma, sou bem bacana e, graças a Deus, tenho plena certeza do que vim fazer nesse planeta.
Queria aproveitar para fazer um elogio a mim, sim, chega de me detonar. Queria te dizer, seu escrotinho que dorme comigo todas as noites, que nenhuma das vezes em que eu cheguei perto da janela e fiquei na ponta dos pés, eu estava sendo sincero. Queria te dizer que, apesar de você se sentir imensamente sozinho de vez em quando, eu sou milhares, e todos esses milhares te acham o melhor homem do mundo. Queria bater palmas pra todas as vezes em que você sacrificou o que você mais amava em nome de seguir a diante com o teu fígado e todas as vezes em que você ficou pequenininho para que ficar grande fosse ainda maior. Obrigado por nunca ter fugido de mim, obrigado por ter me encontrado, obrigado por estar aqui. Confie que agora, de dentro de mim, conquistar o mundo vai ser ridículo. Ah, e tem mais: Você é o melhor!
Hoje eu acordei nervoso e irritado com a minha viagem, aí parei e pensei: chega de se boicotar cara tá na hora de você ser muito feliz.
Gente, tá na hora da gente ser muito feliz. Primeiro porque somos de verdade, depois porque somos filhos de Deus e, pra terminar, porque existe sapatos lindos para serem comprados!
Enquanto eu não volto, deixo vocês com o filme “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” vale a pena mesmo empobrecido. Deixo vocês com um fim de tarde na rua juilo klein, o lugar onde sempre sou feliz porque sempre dá pra ser feliz. Deixo vocês com os quadros da Frida Carlo, com a voz Shirley manson e da VV, com a frase maravilhosa de Vinícius, “a vida só se dá pra quem se deu”, e com uma deliciosa pizza.
Meu peito está cheio de curiosidade e alegria. É possível sim amar a vida, ainda que qualquer amor tenha seus dias de crise. E eu só queria deixar todos vocês, enquanto eu não volto, com um pedaço de mim. Pode pegar sem cerimônia, alma quanto mais a gente dá, mais a gente tem.
Muito obrigado por todos os e-mails maravilhosos que eu recebo todos os dias, por todas as palavras de incentivo e carinho. Obrigado a todos vocês caras que me emprestam seus ouvidos,olhos,ombros,peitos... Vocês me dão a certeza de que eu estou exatamente onde eu deveria estar. Vocês fazem valer a pena todo o sacrifício, muitas vezes solitário, de ser uma pessoa sem medo de sentir de verdade a vida de dentro e a de fora.
Todo mundo precisa, pra viver, morrer de vez em quando. Até a volta.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Todas as partes felizes
Semana passada quando liguei para o táxi percebi que era uma daquelas chances.A voz sai divertida e mesmo que eu diga apenas o nome e o número de uma rua. meio rouco e meio calmo.
É tão agradável que gosto como se eu fosse um amigo novo e simples, desses que a gente tem vontade de viajar pra praia e falar besteira enquanto cutuca cascões no pé. Eu era um desses garotos sempre sorridentes que a gente, quando encontra, abraça como se tomasse o Coca-resto da Cola no gargalo. É pessoal e ao mesmo tempo ninguém aguenta não fazer. Dá vergonha e tem seu charme. Um desses garotos que nitidamente foi feliz na infância porque o pai conversava no fresquinho da noite sobre como a vida não precisa ser assustadora. Desses meninos que quando alguém quer explicar, começa falando de si mesmo.
Quando o táxi chegou na festa e eu, num ímpeto que nem sei o nome, beijei e abracei todos da entrada gostando de gente como nunca gosto, percebi que era uma daquelas chances. De tudo o que posso ser, esse é a que me vem com menos frequência. O garoto corado, O garotinho beija e abraça e gosta e ouve todo mundo. Olha a fulana. Olha o cara. Pessoas. E quando ele vem fico nessa certeza, até um pouco doída, de que não existe nenhum outro mais verdadeiro. E que todo o resto, todo o enorme resto, é só para guardá-lo intacto em algum lugar onde as ajanelas são anti tudos quando alguma coisa esquece a porta aberta e a noite é quente demais para deixarmos as crianças medrosas, ele escapa. E é lindo. Quando os carrascos de fora e de dentro dormem, quando é feriado no planeta do afasta e repele e rebate. Ele sai. E é lindo. Porque a maldade do mundo inteiro entende que não se brinca com as exceções da vida. E nada de mais acontece.
É tão agradável que gosto como se eu fosse um amigo novo e simples, desses que a gente tem vontade de viajar pra praia e falar besteira enquanto cutuca cascões no pé. Eu era um desses garotos sempre sorridentes que a gente, quando encontra, abraça como se tomasse o Coca-resto da Cola no gargalo. É pessoal e ao mesmo tempo ninguém aguenta não fazer. Dá vergonha e tem seu charme. Um desses garotos que nitidamente foi feliz na infância porque o pai conversava no fresquinho da noite sobre como a vida não precisa ser assustadora. Desses meninos que quando alguém quer explicar, começa falando de si mesmo.
Quando o táxi chegou na festa e eu, num ímpeto que nem sei o nome, beijei e abracei todos da entrada gostando de gente como nunca gosto, percebi que era uma daquelas chances. De tudo o que posso ser, esse é a que me vem com menos frequência. O garoto corado, O garotinho beija e abraça e gosta e ouve todo mundo. Olha a fulana. Olha o cara. Pessoas. E quando ele vem fico nessa certeza, até um pouco doída, de que não existe nenhum outro mais verdadeiro. E que todo o resto, todo o enorme resto, é só para guardá-lo intacto em algum lugar onde as ajanelas são anti tudos quando alguma coisa esquece a porta aberta e a noite é quente demais para deixarmos as crianças medrosas, ele escapa. E é lindo. Quando os carrascos de fora e de dentro dormem, quando é feriado no planeta do afasta e repele e rebate. Ele sai. E é lindo. Porque a maldade do mundo inteiro entende que não se brinca com as exceções da vida. E nada de mais acontece.
Idealizando a porcaria!
Vai dizer que não adora essa vida. Ninguém no coração e eu aguento até três pedaços de pizza às duas da manhã. Como até a de chocolate com banana. É você também, não dá pra negar. Um pouco descompensado, mas é. Até tentei mas foi só olhar o cara dando som meio que trepando com o som. E tudo começou de novo. Agora é toda semana, toda hora. É isso mesmo? É. E quando acaba. Quando acabar a graça. Façamos um trato então, mocinho, a hora que acabar a graça, será simples como isso mesmo. Uma graça que acaba. Não pode ter nojo, não pode ter ressaca, vontade de morrer, medo de canais podres irrigando infertilidades absurdas pelas entranhas. Medo desse deus do amor dizendo que só mocinhas pra dentro podem ser amadas. O cruel deus do amor que fala de amor como um merecimento pra quem aguenta não sucumbir pelos buracos sendo que já nascemos furados. O deus falso como um sacerdote em busca de casas pra almoçar de graça e ouvidos pra fazer necessidades fisiológicas. Protetor de doenças e padroeiro de festas de gente que ri corada e faz listas de casamento. Diabo, entenda, estou pra fora num grau absurdo, vomitando minha virilidade, entende? Eu sou uma enorme almofada esfaqueada inundando o mundo com minhas espumas fáceis. Combinado? Porque, veja bem. Não é isso que me tira do rumo do amor, do caminho do amor. É só porque amor demora mesmo, pra acontecer de novo. Mas são tantas coisas lindas pelo caminho, não são? O mocinho trepando com o som é provavelmente o milésimo dos últimos mil anos que estão sendo esses dias. Ele não diz absolutamente nada do que eu quero ouvir, tem os olhos descolados de seu fundo, tem aquele riso de quem se lixa para as outras coisas todas que voam entre a nossa vontade de se devorar. Ainda assim, nesse segundo, nesse segundo que antecede meu pulo na jugular, a força da minha mão que espreme intenções até que só sobre o dia seguinte. São tantos charmes e ombros e cheiros e jeitos de fazer tudo. E estou feliz assim, sim, às vezes as olheiras me avisam que daqui a pouco vem alguém da auditoria, o homem de voz grossa que mora dentro da minha vozinha e que me avisa, de tempos em tempos, que é preciso parar de gastar alma por aí. Porque, mesmo que me pareça não ser muito uma coisa da alma, não se faz nada disso sem amar do avesso. O que dá sempre tudo na mesma e infinita merda que é: viver cansa mas depois que a gente caga dá fome de novo.
É só isso, me perdoa, daqui a pouco passa, mas é tão lindo ter fome de novo. Pensar em massas. Eu esfolando, alisando, esticando a fome. Fazendo nhoque de desejo. E passando o resto do pão no resto do molho. Quase comendo os cacos do prato como aperitivo. É assim que gosto também, também sou eu. Eu e minha sombra preta nova. Que deixa meus olhos como de uma águia faminta. Dando rasante sempre que aperta meu estômago, que a essas alturas, já mora no meu peito. Daqui a pouco o coração estraga tudo, troca de lugar com o cu, e eu vou novamente ter o apetite anoréxico de quem não suporta a vida. Eu vou novamente sentir a vertigem de estar tão vivo que não cabe engolir terra pra parar em pé. Estar abaixo do amor é como ter a proteção da terra. Amar, que deveria aproximar de Deus, jamais dá essa sensação boa de ter um pai que cuida de tudo. Mas agora, agora, vivo do tamanho de quem se enche sem medo de acabar. De quem sente o gosto mesmo empanturrado. E descobre espacinhos dentro de si pra mais um pouco.Minha imagem é de uma criança de bochecha gorda batendo com os talheres. Venham! Venham! Venham!
É só isso, me perdoa, daqui a pouco passa, mas é tão lindo ter fome de novo. Pensar em massas. Eu esfolando, alisando, esticando a fome. Fazendo nhoque de desejo. E passando o resto do pão no resto do molho. Quase comendo os cacos do prato como aperitivo. É assim que gosto também, também sou eu. Eu e minha sombra preta nova. Que deixa meus olhos como de uma águia faminta. Dando rasante sempre que aperta meu estômago, que a essas alturas, já mora no meu peito. Daqui a pouco o coração estraga tudo, troca de lugar com o cu, e eu vou novamente ter o apetite anoréxico de quem não suporta a vida. Eu vou novamente sentir a vertigem de estar tão vivo que não cabe engolir terra pra parar em pé. Estar abaixo do amor é como ter a proteção da terra. Amar, que deveria aproximar de Deus, jamais dá essa sensação boa de ter um pai que cuida de tudo. Mas agora, agora, vivo do tamanho de quem se enche sem medo de acabar. De quem sente o gosto mesmo empanturrado. E descobre espacinhos dentro de si pra mais um pouco.Minha imagem é de uma criança de bochecha gorda batendo com os talheres. Venham! Venham! Venham!
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Amanhã!
A bordinha do pão, até pouco menos de dois centímetros pra dentro, não esquenta e dá pra pegar da torradeira com a mão mesmo. Daqui a pouco começam os ônibus e britadeiras e infinitos passos. Sempre logo que eu acordo eu penso que nunca mais vou acordar. Nunca mais. Mas a bordinha do pão, os ônibus, as britadeiras, os passinhos. Isso é só o começo, daqui a pouco também tem os passarinhos. Tem também um lance do teto começar a pesar em mim, como se até o estado de não ter estado nenhum fosse insuportável. Estômago não é lugar de se guardar vida, meu estômago explica pra mim já doendo de uma dor sempre nova, como se todo dia eu tomasse um pouquinho de susto por nascer. Eu fico sem saber qual seria a outra saída então. Ou entrada. É tudo a mesma coisa e sempre. E lá vem a anorexia de guardar qualquer que seja a sensação, até a de não ser nenhuma. Pulo logo e me chacoalho, uma tentativa de esvair de mim esse sebo de coisas que me incomodam e grudam em mim e cada vez mais e vou me derrubando pelo dia pra poder, mais tarde, sossegar de novo.
Meu quadrado de ar e silêncio. Pra fora desse quadradinho ainda escuro tem tudo aquilo que já vi ontem e ontem e ontem e ontem e não cheguei a conclusão nenhuma. Eu não vou acordar nunca mais. Vou ficar aqui, onde a pressão não cai, os sinais de procura não gemem, as pessoas não me convidam pra falar em cidades longe daqui, gente não inventa de gostar ou não de mim. Deitado não tem intenção, queda, dor no pescoço, conta bancária, gente que me olha como se eu já tivesse comido o cú de algum bêbado numa festa e guardasse esse meu segredo. É contra esse tipo de olhar de corujas escrotas que eu nunca faria nenhuma das coisas acima. Mas por alguma razão, é justamente por levar esses olhares a sério demais que sinto que perco parte do que poderia ser uma história filmada por anjos metidos a documentaristas de meninos quaisquer. Ninguém tem segredo nenhum a respeito de mim mas eu tenho tantos que acabei com tendinite de tanto por pra fora. Meu calo de vômito é no punho. Vomitar pelos dedos. O único jeito de não ter tanta vergonha de ser como sou, ainda que me perguntem “você não tem vergonha de escrever essas coisas?”´´Vergonha de amar?´´ Vergonha eu teria de andar de quatro cagado no meio da Afonso Pena. Vergonha eu teria de ser contado por alguém que jamais me contaria tão bem e com tanta verdade. É isso ou isso.
Vai. A bordinha do pão pra pegar com os dedos sem queimar. Depois tomar chá gelado no gargalo da garrafa sem saber se está certo fazer ou dizer assim. Depois os e-mails todos. Vai lá. O jornal. Saber um pouco de política só pra não fazer feio em jantares e ir a jantares só pra não fazer feio com amigos e ter amigos só pra não fazer feio com a vida. Mas no fundo, uma vontade imensa de não fazer porra nenhuma dessas. Mas vai, dura tão pouco e quando acabar, não gosto nem de imaginar a saudade que vou ter de mim. Porque no fundo, no fundo, isso que pode soar como tristeza é só uma constatação corajosa de que dói sentir tudo e inclusive (ou principalmente) a nós mesmos.
Logo cedo, ainda que seja meu horário estranho, vem ainda mais seco e cortante.
Daqui a pouco, nem bem o sol foi da planta à direita do meu sofá para a planta à esquerda, já estou vivinho até demais. As maldades e ironias e desconfianças e ódios tomaram seu lugar. Chegou o sargento que mora na minha pele, analisando com cara de cabeleireiro gay qualquer ser ou alimento que me seja oferecido. Comer é o símbolo de qualquer coisa que queira entrar dentro de mim e tenho horror a todas mas a maior ironia da vida é que morremos se não nos cedemos à boca aberta. Pra proteger o que somos precisamos não proteger o que somos. Agora diz se não tem alguém rindo da nossa cara? Mãe, traz uma sonda e enfia na minha jugular, não quero mais que esses dias sejam culpa minha.
O Sol já está quase na minha porta. Estou sentindo falta de alguem que eu realmente goste,e não tenha vontade de vomitar a cia,alguem para apertar a mão no cinema com real vontade,alguem pra dizer´´Amor você está lindo hoje,como nos outros dias!´´Falta desses amores de peito quente,falta de amor em gramas verdes.
Já endureci o suficiente pra dizer que tenho horror aos escravos de palavras bonitas e ideias chatas. Aquele povo que não sabe o que falar do próprio nariz e diz apenas algo cabeçudo tipo “ele é adunco”. Tá, já sei que você decorou o dicionário, agora me explica o que você acha da porra do seu nariz?
Já estou armado dos pés à cabeça e já posso sair às ruas com minha metralhadora e feiúra. Me arrumar bonito ou com roupas qualquer sem nenhuma intuição de estar bem vestido,também acontece, mas só eu sei depois a bronca que levo. Ser feio e enjaulado nos meus ferros me possibilita não ganhar nada com isso, até porque o que se ganha é pura tiração de onda com a nossa cara. Ah, a vida sorriu pra você? Ele te ama? Espere um pouquinho, querida. Tão te enganando. Até estar aqui, até ser você, tudo uma ilusão. Até desistir. Tudo ilusão. Os anjos documentaristas escreveram isso no seu roteiro mas daqui a pouco vem a merda toda porque filme sem dar tudo errado nem a Disney faz. Nem a Globo. Ainda que eles enganem a gente no final. Agora vai saber, se no nosso final, não acaba alguma coisa mesmo dando certo, tipo brinde do cosmos. Mas daí é o fim e você já está tão cansado que só uma cama já pode ser um final feliz. A morte é o final feliz.
Só dançar é de verdade, nem sei direito, mas sinto assim. Então me escondo em algum momento do dia e danço um pouco. Pra falar a verdade eu danço muito. Daí já é quase fim de tarde. Falta pouco. Eu nunca sei exatamente para o quê, mas me acalmo com a sensação. As sensações sempre sabem mais do que a gente pode saber. Talvez por isso elas sejam terríveis. Talvez por isso doam tanto meu estômago que se renega a acolher o impossível de digerir e classificar. Talvez por isso eu escreva. Talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Até que eu descubro, quando o teto pesa e tudo aquilo, que o hoje só passa porque acordamos e assim se vai. Amanhã, amanhã. Pão e tudo. E passinhos e ônibus e passarinhos. Armaduras e belezas. E pensar que se você lê, meu amor, eu escrevo. E se você lê, meu amor, eu como. E se você lê, meu amor, eu continuo vivo. É triste, mas se a gente pensar com carinho, é bem bonito.
Meu quadrado de ar e silêncio. Pra fora desse quadradinho ainda escuro tem tudo aquilo que já vi ontem e ontem e ontem e ontem e não cheguei a conclusão nenhuma. Eu não vou acordar nunca mais. Vou ficar aqui, onde a pressão não cai, os sinais de procura não gemem, as pessoas não me convidam pra falar em cidades longe daqui, gente não inventa de gostar ou não de mim. Deitado não tem intenção, queda, dor no pescoço, conta bancária, gente que me olha como se eu já tivesse comido o cú de algum bêbado numa festa e guardasse esse meu segredo. É contra esse tipo de olhar de corujas escrotas que eu nunca faria nenhuma das coisas acima. Mas por alguma razão, é justamente por levar esses olhares a sério demais que sinto que perco parte do que poderia ser uma história filmada por anjos metidos a documentaristas de meninos quaisquer. Ninguém tem segredo nenhum a respeito de mim mas eu tenho tantos que acabei com tendinite de tanto por pra fora. Meu calo de vômito é no punho. Vomitar pelos dedos. O único jeito de não ter tanta vergonha de ser como sou, ainda que me perguntem “você não tem vergonha de escrever essas coisas?”´´Vergonha de amar?´´ Vergonha eu teria de andar de quatro cagado no meio da Afonso Pena. Vergonha eu teria de ser contado por alguém que jamais me contaria tão bem e com tanta verdade. É isso ou isso.
Vai. A bordinha do pão pra pegar com os dedos sem queimar. Depois tomar chá gelado no gargalo da garrafa sem saber se está certo fazer ou dizer assim. Depois os e-mails todos. Vai lá. O jornal. Saber um pouco de política só pra não fazer feio em jantares e ir a jantares só pra não fazer feio com amigos e ter amigos só pra não fazer feio com a vida. Mas no fundo, uma vontade imensa de não fazer porra nenhuma dessas. Mas vai, dura tão pouco e quando acabar, não gosto nem de imaginar a saudade que vou ter de mim. Porque no fundo, no fundo, isso que pode soar como tristeza é só uma constatação corajosa de que dói sentir tudo e inclusive (ou principalmente) a nós mesmos.
Logo cedo, ainda que seja meu horário estranho, vem ainda mais seco e cortante.
Daqui a pouco, nem bem o sol foi da planta à direita do meu sofá para a planta à esquerda, já estou vivinho até demais. As maldades e ironias e desconfianças e ódios tomaram seu lugar. Chegou o sargento que mora na minha pele, analisando com cara de cabeleireiro gay qualquer ser ou alimento que me seja oferecido. Comer é o símbolo de qualquer coisa que queira entrar dentro de mim e tenho horror a todas mas a maior ironia da vida é que morremos se não nos cedemos à boca aberta. Pra proteger o que somos precisamos não proteger o que somos. Agora diz se não tem alguém rindo da nossa cara? Mãe, traz uma sonda e enfia na minha jugular, não quero mais que esses dias sejam culpa minha.
O Sol já está quase na minha porta. Estou sentindo falta de alguem que eu realmente goste,e não tenha vontade de vomitar a cia,alguem para apertar a mão no cinema com real vontade,alguem pra dizer´´Amor você está lindo hoje,como nos outros dias!´´Falta desses amores de peito quente,falta de amor em gramas verdes.
Já endureci o suficiente pra dizer que tenho horror aos escravos de palavras bonitas e ideias chatas. Aquele povo que não sabe o que falar do próprio nariz e diz apenas algo cabeçudo tipo “ele é adunco”. Tá, já sei que você decorou o dicionário, agora me explica o que você acha da porra do seu nariz?
Já estou armado dos pés à cabeça e já posso sair às ruas com minha metralhadora e feiúra. Me arrumar bonito ou com roupas qualquer sem nenhuma intuição de estar bem vestido,também acontece, mas só eu sei depois a bronca que levo. Ser feio e enjaulado nos meus ferros me possibilita não ganhar nada com isso, até porque o que se ganha é pura tiração de onda com a nossa cara. Ah, a vida sorriu pra você? Ele te ama? Espere um pouquinho, querida. Tão te enganando. Até estar aqui, até ser você, tudo uma ilusão. Até desistir. Tudo ilusão. Os anjos documentaristas escreveram isso no seu roteiro mas daqui a pouco vem a merda toda porque filme sem dar tudo errado nem a Disney faz. Nem a Globo. Ainda que eles enganem a gente no final. Agora vai saber, se no nosso final, não acaba alguma coisa mesmo dando certo, tipo brinde do cosmos. Mas daí é o fim e você já está tão cansado que só uma cama já pode ser um final feliz. A morte é o final feliz.
Só dançar é de verdade, nem sei direito, mas sinto assim. Então me escondo em algum momento do dia e danço um pouco. Pra falar a verdade eu danço muito. Daí já é quase fim de tarde. Falta pouco. Eu nunca sei exatamente para o quê, mas me acalmo com a sensação. As sensações sempre sabem mais do que a gente pode saber. Talvez por isso elas sejam terríveis. Talvez por isso doam tanto meu estômago que se renega a acolher o impossível de digerir e classificar. Talvez por isso eu escreva. Talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Até que eu descubro, quando o teto pesa e tudo aquilo, que o hoje só passa porque acordamos e assim se vai. Amanhã, amanhã. Pão e tudo. E passinhos e ônibus e passarinhos. Armaduras e belezas. E pensar que se você lê, meu amor, eu escrevo. E se você lê, meu amor, eu como. E se você lê, meu amor, eu continuo vivo. É triste, mas se a gente pensar com carinho, é bem bonito.
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