quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O louco do jardim

Pra onde vai o amor? De manhã eu preciso buscar um remédio pra minha avó, depois tenho academia e às 11 em ponto preciso estar na agência pra decidir o que vai para um  vídeo para uma apresentação interna que o cliente vai fazer para a área comercial. Pra onde vai o amor? Quero aparecer no seu trabalho, subir as escadas correndo porque essa pergunta precisa ser feita de peito ofegante. Pra onde vai o amor? Você tem a apresentação de uma concorrência. E tem uma equipe, uma mesa, um lixo, um carro alto, um cabelo grande, um sobrenome importante, um quadro caro, um ex namorado modelo, dezenas de garotinhas apaixonadas. Pra onde vai o amor? Porque quando deitamos no chão da sua sala e você me perguntou "quanto tempo você demora pra dizer que ama?". Porque quando você me mandou aquele e-mail falando que dormiu bem quando me conheceu. Porque a gente estava tão nervosos nesse dia. Porque eu tinha uma escova de dentes aí e você tinha uma escova de dentes aqui. Pra onde vai o amor? O que você fez com o seu? Deu descarga? O que eu faço com o meu? Dai eu te ligo, escondido no jardim da agência que eu trabalho. Chorando horrores. E te peço desculpas. "Eu sei que faz só um mês que estamos juntos mas o que você fez com o nosso amor?". Por que você ficou frio e sumiu e esqueceu e secou e matou e deletou e resolveu e foi? E você diz que está trabalhando e eu me sinto idiota. Me sinto esfolado vivo pelo mundo. Me sinto enganado por anjos. Me sinto inteiro uma enganação. Respiro mentiras. Visto desculpas. Ajo disfarces. Porque a gente estava sim se amando mas você correu pra levantar antes a bandeira do "se fudeu trouxa, o amor não existe". Justo você que eu escolhi pra fugir comigo das feiúras do mundo. Porque você me emprestava a mão dormindo e pedia colo vendo tv e queria me fazer batatas fritas e escondia as meias suadas quando eu chegava antes do que você esperava. E você me perguntava o tempo todo se eu percebia como era legal a gente. E então, só pra fazer parte da merda universal de toda a bosta da vida, você se bandeou pro lado do impossível e se foi e me deixou como louco, escondido no jardim da agência, chorando, te perguntando pra onde foi o amor. E você riu e disse "mas eu só estou fazendo minhas coisas". E eu me senti idiota e louco e chato e isso foi muito cruel ainda que seja tão normal. Normal não me serve não encaixa não acalma. E eu achei que a gente podia ter uma bolha nossa pra ser louco e improvável e protegido do lugar comum do mundo mediano adulto das pessoas que riem e fazem suas coisas. E tudo ficou feio, até você que é lindo ficou feio. E eu quis me fazer cortes. Porque viver é difícil demais. E todo mundo me olhando, rindo, fazendo suas coisas. E daqui a pouco eu rindo e fazendo minhas coisas. E no fundo, abafado, dolorido, retraído, medicado, maduro, podre: onde está o amor? Onde ele vai parar? Onde ele deixou de nascer? Onde ele morreu sem ser? Por que eu sigo fazendo de conta que é isso. As pessoas seguem fazendo de conta que é isso. E por dentro, mais em alguns, quase nada em outros, ainda grita a pergunta. O mundo inteiro está embaixo agora do seu lindo e refinado e chique e rico prédio empresarial. Gritando nas janelas, batendo nas portas, tirando você da sua reunião: o que você fez com o amor? Esse dinheiro todo, essa responsabilidade toda, essas pessoas todas que você quer que te achem um homem. E o amor, o que você fez com ele? Enfiou no cu? Colocou na máquina de picar papel? Reaproveitou a folha pra escrever atrás? Reciclou? Remarcou pra daqui dois anos? Cancelou? Reagendou o amor? Demitiu o amor? É o amor que vai fazer você ser isso tudo e não isso tudo que você usa pra dar essas desculpas pro amor. Porque quando eu sentei no cantinho da cama e você leu seu livro de poesias de quando era criança. Porque quando você ficou nervoso porque queria me dizer que naquele minuto não estava me amando porque você acha que amor é isso além do que você pode. Amor é só o que você já estava podendo. O que você fez com esse pouco que virou nada? Com o muito que poderia virar? Eu aleijado, engessado, roxo, estropiado, quebrado, estou na porta, esperando você, por favor, me ensina, o que fazer, vou fazer o mesmo com o meu. Vou mandar junto com o seu. Nosso amor pro inferno, longe, explodido, nada. E a gente almoçando em paz falando sobre o tempo e as pessoas escrotas e o filme da semana. Bela merda isso tudo, bela merda você, bela merda eu, bela merda todos os sobreviventes que riem e fazem suas coisas e almoçam e falam de filmes. E por dentro o buraco gigante preenchido por antidepressivos, ansiolíticos, calmantes, cervejas, maconhas, viagens e mais reuniões. Pra onde foi o amor? De pé seguimos pra nunca saber, pra nunca responder, pra nunca entender. Pra onde? Você lendo o texto mais lindo da minha vida sobre o último dia morando com seus pais, você achando as moedinhas que o seu pai escondia no jardim quando você era criança, você me contando isso tudo baixinho e eu sentindo tantas milhares de coisas lindas, você falando da merda boiando e a dor dos seus fins de amor, você dormindo com seus cachinhos virados para o meu nariz, você fazendo a piada dos ombrinhos mais altos e mais baixos pra tirar sarro dos homens artistas e burocráticos, você por um mês e tanto amor. Todos os cheiros de todos os seus cantos. E agora eu louco porque não se pode sentir, porque senti sozinho, porque não se pode sentir em tão pouco tempo. Que tempo é esse quando o amor se apresenta tão mais forte e sábio que as regras de proteção? Quem quer pensar em acento flutuante quando se está voando? Quem quer pensar em pouso de emergência quando se está chegando em outro mundo melhor? E agora nada e você nada e tudo nada. O amor no planeta das canetas Bic que somem. O amor mais um como se pudesse ser mais um. O amor da vida de um mês. Você com medo de ser mais um e você único e tanto amor e tão pouco tempo. O que você fez com ele para eu nunca fazer igual? Eu prefiro ser quem te espera na porta pra entender. Eu prefiro ser quem te espera na outra linha pra entender. Eu prefiro ser o louco do jardim enquanto o mundo ri e faz suas coisas. Do que ser quem se tranca nessas salas infinitas suas pra nunca entender ou fazer que não sente ou não poder sentir ou ser sem tempo de sentir ou ser esquecido e finalmente não ser

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A história completa de J

J fingiu a vida inteira mas nunca deixou de procurar a verdade. Sempre uma tosse de angústia na boca do peito. Sempre um motorzinho acelerado enjoado lá pro meio de algo que fica dentro. O olho ardia. A língua travava de vontade de mudar todo o discurso pronto e dizer apenas a verdade. Mas qual era a verdade? Então seguia fingindo. A vida inteira. Estudou um monte de coisa que se embaralhava na sua frente, mas fingia acreditar que aquilo o levaria para algum lugar. Um lugar com novos amigos e novos amores, talvez. Talvez essa fosse a verdade que purificaria tanta coisa sem sentido. Mas também não era isso porque, com esses amigos e amores, J seguia fingindo. De fingir estudar passou em tudo que fingiu se importar. De fingir curtir as festas e os amigos e aquilo tudo, J vivia em álbuns felizes e acabava feliz. De fingir amar, acabou chorando e doendo e escrevendo tantas coisas bonitas. J seguia fingindo o tempo todo. Às vezes, com medo de morrer soterrado por tanto teatro, J segurava firme no fundo dos olhos de alguém e dizia: a verdade é que, a verdade é que. E a pessoa, caso fosse assim como J, uma pessoa especial (porque quem procura essa verdade sempre é) só dizia: eu sei, eu sei. E era isso. Um momento especial, de verdade, sem a bola de pêlo presa na goela. Sem a tosse de angústia, tentando soltar algo pro ar entrar. Mas que algo? Mas que tosse? Então J ia ao psiquiatra e dizia não entender todas essas coisas como nuvens e casamentos e rodas fedorentas de caminhões bafando quente e infernal e abajures e cartões fidelidade e apostilas e tudo isso que acaba acontecendo porque acontece com todo mundo. Mas pra quem? Por quê? Qual é a verdade? Todos caminhando, todos com horários, todos de volta, cansados, o cérebro já bem gasto, agora podemos dormir, ufa, podemos dormir, pra quê? Pra amanhã mais e mais. E J ia. Como na hora do rush do metrô. Empurrado pela multidão sem verdade pra dentro de algo que leva pra algo. Pra onde? Eles precisam pagar as contas, eles precisam pagar o plano de saúde, diria sua mãe. Tá, e daí? Ter um problema sério nos ocupa de não ter o problema real. O problema real é que não dá pra calar a cabeça procurando a verdade. Que verdade? Quem inventou as nuvens? Porque as rodas de caminhões soltando fumaças quentes lembram tanto o inferno? E quem disse que a roda solta alguma coisa? Onde está a saída daqui? O tempo todo essa pergunta: onde está a saída daqui? Qual o caminho mais rápido para a minha cama, o silêncio, o escuro. J abraça as pernas, como criança, e se diz baixinho: não dá pra saber a verdade, não dá pra parar a cabeça, nada parece realmente o que é, hoje eu não disse o que realmente queria, aquelas pessoas não sentem aquilo que demonstram, eu pouco me importo com 70% dos preenchimentos do meu dia, mas é preciso chegar até amanhã. É preciso chegar. J se formou, trabalhou, namorou, viajou, escolheu sapatos, escolheu tatuagens, escolheu amigos, escolheu lugares, escolheu travesseiros, escolheu cafeteiras, escolheu o nome do neto, escolheu fazer a cirurgia, escolheu músicas, escolheu ver o filme ao invés da novela escolheu dormir até mais tarde no dia que a empregada chegava mais cedo. Sem saber a verdade, J escolheu viver. No último segundo, até porque prometi que essa era a história completa de J, J descobriu algo que nunca mais poderá contar a ninguém. Só o que sabemos é que, em sua última sugestão do que seria a verdade, ele sorriu como sorrimos para um bebê quando ele se levanta bem compenetrado depois de desabar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Esperando

Atrás da pista tem um bar e atrás do bar tem um sofá. Estou sentado nesse sofá. Aguardo ansioso por algo, olho as horas no celular, checo o e-mail pelo Iphone, reclamo com minha amiga "tá demorando". Ela me pergunta se é o show, se é a menina passar com a comida. O que é? Não sei. Mas tá demorando. Em cima do bar, no teto, tem um daqueles globos que sempre tem. Olho pro globo e penso que estou uma eternidade sentado naquele sofá. Mais de 19 anos? Descanso os cotovelos nos joelhos e me arrependo, enquanto todos querem ver e ser vistos, eu fico nessa posição feia de vaso sanitário. Minha amiga vai fumar. Eu me animo "já tenho pra onde ir". Eu não fumo mais(desde ontem), eu odeio cigarro, eu odeio atravessar a festa inteira pra chegar até lá fora, eu odeio a amizade instantânea das rodinhas de fumantes que não se conhecem, eu odeio festas em geral, eu odeio papos de festa, eu odeio conhecer gente que não tem nada a ver comigo, e sorrir para os papos mais furados do mundo. Mas eu já tenho pra onde ir. E vou. E ao chegar lá fora, continuo achando que está demorando. Sinto falta do sofá agora. Mas quando minha amiga acabar o cigarro, eu já terei novamente pra onde ir. E assim uma festa chata me lembra muito a vida. A eterna oscilação entre ir lá fora ver e voltar pro sofá, sempre só pra ter pra onde ir. Chegou agora um ex amor. Ele entra com aquela pessoa. Ele me abraça enquanto ela segue em frente sem olhar pra trás. Faz aí uns 3 ou 4 anos que não damos um abraço. A gente sempre fugia das festas pra fazer sacanagem no carro dele. Não sinto saudade. Passou, faz tempo, não sinto nada. Nada. Talvez só sinta mais claro o que eu já sentia antes. Antes de sair de casa. Antes de ficar indo do fumódromo pro sofá e vice-versa. Eu só sinto agora, com esse abraço que não me fez sentir nada, com mais clareza, o que eu já sentia antes e muito antes de antes. Eu sinto que está demorando. Eu olho de novo no celular. Eu posso ir ao banheiro e isso já é um lugar para ir. Me animo. Não, não me animo. Tudo me deprime. Eu ficar chupando a barriga pra dentro pra esconder que tenho um pouquinho de pança, eu ficar me equilibrando, eu ficar fazendo minha cara de "não encosta em mim". Tudo me deprime. As pessoas falando de trabalho, as pessoas forçando falar qualquer absurdo só porque o óbvio seria falar de trabalho. E principalmente: o grupinho de moças muito altas e muito loiras que não trabalham mas estão lá porque estar nesses lugares é o trabalho delas. Tudo é tão chato mas eu estou muito bem vestido e com sapatos elegantes. Antes da meia noite não dá pra ir embora. Preciso me gastar um pouco pra não dormir tão antes de tudo dar errado. Eu sei, eu deveria beber. Mas pra quê? Pra achar essas pessoas legais? Pra suportar o insuportável? Sou cínico demais pra dar esse gostinho ao mundo. E eis que adentra à festa o rapaz que, não faz nem uma semana, me pedia que eu não fosse ainda, só mais um pouquinho, espera amanhecer, porque, depois, você sabe, dá tanto sono. De mãos dadas com o rapaz que vive dando entrevista dizendo que eles se comem mesmo, o tempo todo. E isso não me dói em nada. Foi só um moço muito bonito que durou uma semana. Mas ele também reforça meu pé inquieto batendo ritmadamente: será que demora? Não sei. Não, não demora mais. Olho pra porta e ele acabou de chegar. Eu fui na festa por causa dele. Então era isso, eu tava esperando o tal do moço que me convidou pra festa. E então ele fala comigo e encosta um pouco em mim e eu penso em ser muito honesto. Olha, fulano, eu acho tudo isso um saco, sabe? Eu odeio a cordialidade dos bichos. Todo mundo se elogia, fala de trabalho, conhece gente, faz piadinha ruim. Mas tá todo mundo pensando o que vai ter pra comer e também pra comer. Eu vim aqui porque, sei lá, desde que te vi na reunião e eram oito da noite e você estava muito cansado mas, mesmo assim, você estava muito cheiroso e falou coisas muito inteligentes, eu fiquei a fim de te beijar na boca. Então, dá pra pedir pra esse bando de amigo chato, que fica puxando seu saco, desaparecer do mapa? A menina com a perna gorda pode, por favor, nos deixar em paz? Você pode, por favor, parar de mexer no cabelo da minha amiga e parar de dar risadinha no ouvido dela e sumir daqui comigo? Não, ele não pode. Ele não é a resposta. Ah, Jimmy. Você deveria saber. Eles nunca são a resposta. Nunca foram. Que é que você quer? Por que você olha tanto pro celular? Existe alguém no mundo, nesse momento, que poderia te ligar agora e te deixar feliz? Não. Ninguém é a resposta. Nem o sofá, nem a festa, nem ficar em casa, nem a água com gás, nem olhar com nojo para o grupo de piranhas vips que não prestam pra nada a não ser frequentar festas para sair em revistas e angariar empresários. Finalmente já tenho o que esperar: o carro. Finalmente já tenho o que fazer: ir embora. Na verdade a única coisa que estou sempre esperando e querendo é ir embora. De todos os lugares, de todas as pessoas. Eu não estou esperando nada a não ser o tempo todo sair de onde eu estou.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O eterno personagem

Andar em boa parte do meu tempo sem ser, por isso, um louco, o costume de escrever até tarde ouvindo Beck ou Antony and the Johnsons, os mocinhos que aparecem, com intervalos de dez ou vinte dias, e me abastecem de um gostar possível e descartável, algum bar chato que serve pra me tirar de casa e até mesmo rir de um ou outro ser humano mais parecido com o que eu acho que deveria ser um ser humano. Nada disso me soa banal e aprendi mesmo a chamar de minha vida. Agora serão dias achando tudo idiota e até mesmo medíocre. A academia, os almoços em família, os bares, tudo uma tortura. Ainda assim, mesmo sabendo que depois é cheia de dor que carrego minhas horas, ainda assim eu cortei o cabelo um dia antes e comprei uma jaquetinha preta. Ainda que sentir de verdade pareça uma outra vida, às vezes cansa viver dentro das coisas que invento. Com você, mesmo eu inventando tudo também, dá pra ter essa sensação de desordem, atropelamento, vida dizendo e não minha cabeça falastrona. Mesmo sendo ofensivo pra minha existência que pessoas como você existam. Mesmo que sua tristeza e preguiça e desistência mostrem pra minha frescura de sentidos como tudo pode ser amargo e pior: mostre que tudo sempre foi e eu é que, vai ver, sou forte ou abençoado demais pra não sucumbir. Mesmo que sua alegria nunca seja por mim. E que sua alegria torne, quando por mim, minha vida intolerável. Sua existência é um absurdo e isso é a maior verdade que me vem à mente quando penso em você ou estou ao seu lado. 
Passamos a tarde juntos. Foi leve e eu estava quieto, coisa que nunca aconteceu nenhuma das vezes que saímos. Eu estava sempre histérico e hoje eu estava muito quieto, até demais. Talvez seja porque eu não tenho mais a euforia louca de ser amado. Eu piro quando alguém me ama e ao ver em você a calmaria dos vencedores corriqueiros, larguei o corpo. Acabou sendo bom, a sensação de tarde ordinária, encontro ordinário. Eu pude habitar o papel de amigo caminhando ao lado, uma forma de ouvir por perto sua respiração pigarrenta que amo como se fosse o único sopro saudável do mundo. Eu permaneci e isso foi diferente, triste, insuportável, mas possível. Como os mortos que ficam em qualquer lugar, até mesmo embaixo da terra. Morto não deseja e por isso mesmo permanece. Acho que seu desejo morreu e talvez o meu também, já que boa parte desse amor enorme que eu sentia e sinto por você, vinha e venha da minha alegria desmesurada em me sentir amado pelos meus próprios sonhos. Você encerrava em mim eu mesmo e era uma loucura tudo, como eu sentia, como eu queria me vomitar e ensanguentar e explodir e rodopiar em mim até furar o chão como uma broca desgovernada e depois sair derrubando o mundo como o único pião que sabe a verdade e precisa chacoalhar seu entorno pra não enlouquecer sozinho. Era uma loucura tudo. Mas a morte, o fim, nós, andando calmos, ao lado um do outro, isso me permitiu estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e para isso me retirando o tempo todo. E isso pode ser viver mas viver é terrível. E antes, quando eu não sabia viver e me sentia amado, era ainda mais terrível. Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes pois em nada dá pra ser com você. E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu sinta um amor absurdo por você. 
Me peguei uma hora, olhando você, andar, tão feinho, seu ombro encolheu um pouco, cada dia que passa mais e mais é uma concha o que você se torna. Dessas que é mentira a pérola e o som do mar, mas eu os vejo, o tempo todo. Você andando desse seu jeito meio de louco, que chacoalha a cabeça. E se veste mal quando pouco se importa, eu sei, eu entendi. E a manga suja de café. A roupa bege da cor de tudo que é você. Você é tão errado e cheio de estragos. E me peguei olhando pra tudo isso e amando tanto, tanto, tanto. Como se nada mais no mundo fosse tão bonito ou correto ou mesmo perfeito porque perfeito é o que não tem mesmo cabimento. O resto nem existe porque vemos ou explicamos. 
Na sua varanda sem céu, certa vez, você se sentou naquela cadeira sem fundo. Me chamou e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. E me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu tinha subido todos os seus andares. Eu entendi que você era o homem da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum tipo de chave que se autodestruiria em poucos segundos. E eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo. A vertigem que era o nosso amor. Minhas olheiras, meu cansaço, meus cinquenta e oito quilos. Eu poderia morrer porque você tinha uma carninha mais mole atrás da sua orelha direita e isso me impossibilitava, dia após dia, que eu vivesse sem sentir você o tempo todo. Mas quem é mesmo que morre dessas coisas? Não, não podemos, com tanta coisa pra fazer, os meninos de dez a vinte dias, os bares, e almoços,os eventos,as criações , os empregos, escrever, tudo isso que é minha vida antes e depois de você. Tudo isso que daqui a pouco, quando a sensação desgraçada de absurdo e solidão passar, tudo isso volta, se acomoda, a agenda mágica, o gostosinho no peito, esquecer você todo dia um pouco pra vida e todo dia muito pro dia. Mas agora, hoje, guarda isso, eu amo demais você. Por que escrevo? Porque é a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos os dias mostrando pra gente que nada vale de nada. Toma esse texto, o único lugar seguro e eterno pra gente.

domingo, 3 de outubro de 2010

Adoração e vício

Ele pediu para eu esperar há vinte minutos e ele não desce. Ligo e ele não atende. Ele sabe que estou aqui, eu disse que estava saindo. Ele então aparece, colocando o cinto na calça. Vejo um pedaço da barriga. Entramos no  carro e ele aperta meu braço. Eu vejo um pedaço do calcanhar. Eu vejo um pedaço da nuca e ela está vermelha, coisa de quem se enxugou rápido porque ficou enrolando pra tomar banho. Eu tenho um impulso de enfiar minha cara inteira dentro da camisa dele pra cheirar o centro do seu peito. Onde mistura o cheiro do amaciante, dos pelos e do desodorante que parece ter o cheiro das testosteronas dos deuses. Quando se está com um homem assim, eu lembro "meu deus, como eu gosto disso". Eu não gosto de trabalhar, eu não gosto de mais da metade de tudo que eu como, eu não gosto de falar ao telefone, eu não gosto de ser paquerado, eu não gosto de festa de família, eu não gosto de acordar, eu não gosto de pagar conta, eu não gosto das minhas roupas, eu não gosto de 80% dos papos que as pessoas querem começar comigo,eu não gosto da minha vizinha que está sempre berrando com alguém ao telefone, eu não gosto da louça, do pessoal que me pergunta como faz pra trabalhar num sei onde, de listas de presentes. Mas eu gosto disso, eu vivo pra isso, eu acordo pra isso, eu trabalho pra isso, eu tomo banho pra isso. Isso é: esse momento em que eu coloco minha cabeça numa caixinha e sou inteiro um animal predador que pode matar pra ter o que comer ao final. O cabelo dele é muito cabelo. Ele tem uma covinha na expressão da boca. Não é onde as pessoas graciosas tem. É na expressão do sorriso. Ele parece desenhado por alguém minuciosamente grosseiro. Ele então começa seu festival de me adores. Ele é ator. E começa então com seu festival de me adores. Ele quer ser adorado. Ele tem pessoas mais bonitas e o que tenho de melhor ele nem tem muita capacidade mental pra valorizar. Mas ele sabe que tenho algo diferente e que é legal ser adorado por um garoto que tem algo de diferente. E eu o adoro. Ele fala sobre o horário da madrugada que acordamos com um frio no estômago. É um texto que recebeu e tem que decorar para uma leitura. Ele não consegue explicar nada sobre o texto. Ele me pergunta porque almoçar é com ç e almocei não. E isso, dito por um deus grego, me parece um tratado profundo sobre a humanidade. Não importa, amor. Basta saber que seu gigantesco ombro ultrapassa os limites do banco do carona e vai o caminho inteiro roçando em mim. Ele se demora no cardápio. Ele adora as refeições semanais nas quais um garoto com olhos enormes pra cima dele, presta atenção quase que religiosa a tanta baboseira. Ele conta em detalhes sobre a peça e a outra peça e a novela e o filme e as famosas todas que ligam pra ele o tempo todo e os produtores e esse papo que nunca quer dizer nada a não ser sobre ele próprio enquanto ator. Eu escuto nononononononononono. Não, não é isso. Eu escuto música clássica. E torço para que o tormento acabe logo. Vamos logo pra casa. Me conte tudo isso pelado, que tal? Eu juro que escuto tudo, dou minha opinião e de repente até te escrevo uma peça inteira na qual você, nu…Eu só penso nele pelado. Ele é uma linda moça chata e eu um macho encantado pelo filme mais lindo do cinema mudo. Enquanto ele tenta concluir frases, eu me pego pensando "se ele não quiser ir pra minha casa, não vou pagar a droga da conta. Se ele não quiser ir pra minha casa, eu vou tentar no carro e eu…eu vou ficar louco se ele não quiser ir pra minha casa". A ereção do homem é forte porque não tem fim. É no centro da existência. Ele pede o décimo café e quer falar mais e contar mais. E encosta em mim, gosta de sentar colado, e fala ao meu ouvido, e mexe no meu cabelo. Me adore, eu sou ator, me adore. Sim, querido, muito, muito. Em casa, ele deita no sofá, sou sempre eu que tenho que começar tudo. Eu que faço a massagem, o carinho, eu que mordo, assopro, lambo e mais esse monte de coisa. Quase tenho saudade da entrega perfeccionista que só os feios e os pobres têm como qualidade. Mas passa rápido. Ele pede, reclama, dorme, acorda, pede mais. Sim, querido. Deixa tudo comigo, apenas exista. Pessoas como você apenas precisam existir e nada mais, pessoas como você podem tudo, até escrever almocei com ç. Aliás, você tem razão, almoçei é a coisa mais linda que já vi na minha vida.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Olheiras, ossos e escárnio

Já que você me viu dormir, acordar, tomar banho, gozar e ter medo de requeijão vencido, acho que posso te dizer mais algumas coisas. Até porque não preciso ter medo de espantar o que já está tão longe de mim. 
Eu vou embora porque tenho pavor de você querer que eu vá embora. Não ser mais desejado por você é como ser convidado pelo super homem para sobrevoar minhas dores e, de repente, só porque o super homem não existe e eu deveria saber disso, ser lançado lá de cima, de encontro aos meus mundinhos antes tão grandes, depois tão pequenos. Agora enormes. Se aproximando. Se aproximando. E cair de cara em mim mesmo. E me quebrar e quebrar tudo de novo. Eu não faço questão que ninguém goste de mim, mas fico completamente louco quando alguém gosta. Porque descubro que cada segundo da minha vida foi pra sentir isso. E o que será dos próximos segundos? Não me tire da minha merda pra depois me lembrar que tudo é uma merda. Sem fim, sem fim. 
Eu só queria voltar a ter aquele cabelo horrivel e ter o braço inchado de puxar ferro. E comer que nem um boi enquanto seduzo idiotas em almoços idiotas. 
E comer os idiotas enquanto seduzo eu mesmo. Eu era feliz. Na verdade eu não era nem um pouco feliz, mas pelo menos eu sabia o motivo. 
Eu quero aquelas ligações superficiais e descartáveis no meio da tarde, que me enchem de irresponsabilidade e morte. Depois a despedida doída, mais uma vez servir ao amor sem saber amar nem um pouquinho, mas pelo menos, nesse caso, ser exatamente o esperado, o correto, o forte, o jeito de se viver como tantos vivem. E me sentir desesperado por estar levando uma vida normal e ter a opção a qualquer momento para enlouquecer e chutar tudo. Mas quando se está louco e chutando tudo e ainda assim se sente desespero, o que resta? 
Com você e todo esse amor, eu consigo apenas me largar pelos cantos assustado. Isso é vida? Eu não quero andar duas quadras no sol com você. Porque te amar assim, me dá medo de enfartar ou da minha pressão cair. Não sei. Eu quero deitar e esperar passar tudo. Eu quero te olhar deitado enquanto seguro um copo com água de coco geladinha. Porque você não sabe, mas tenho corrido maratonas e vencido monstros gigantescos para conseguir sentir tudo isso sem arrancar minha cabeça fora. E quando você, ao invés de me esperar no pódio de chegada com pomadas e isotônicos, me olha desconfiado ou entediado de tudo, eu quase desejo que dessa vez eu morra no meio da corrida. Porque é ridículo achar que você faz tudo valer a pena, mas, no fundo, acabo achando que você faz tudo valer a pena. Isso é vida? 
Eu queria cutucar as pessoas na rua e perguntar como elas fazem pra ter pernas grossas. Eu não faço a menor idéia de como se vive, se cresce, se multiplica. Eu só me como por dentro, me corrôo de ciúmes, fico tentando segurar tudo com medo que eu comece a despedaçar no meio da rua. Eu me arrumo pouco, como pouco, transo, digo e amo pelas beiradas. Tudo pra eu me arrepender menos na hora de limpar a sujeira. Tudo pra, arrogantemente, não sentir a vida como bicho. Quando tudo o que eu queria era andar de quatro pela casa e mijar nos cantos. E olho pra você, meu amor, como eu amo você, e tenho vontade de enfiar o garfo no seu braço branquelo. E não me pergunte como é que nascem pessoas assim, como eu, que amam com tanta necessidade de machucar. Como é que tem gente, como eu, que acha que sentir amor é uma gripe forte, uma célula mutante, um motivo pra chorar muito como se a vida fosse demais pra gente simplesmente viver sem prestar atenção nela. 
Não me pergunte de quem é a culpa e não me pergunte se tenho consciência disso e não me pergunte nada. Eu sei de tudo, eu sei muito de absolutamente tudo. E por isso mesmo é que fico catatônico vendo minha incapacidade de amar ou ter braços fortes. 
Como é que se vive? Eu queria cutucar as pessoas. E se você não suportar mais? Como é que faz? Como eu faço pra disfarçar a solidão profunda que sinto no meio de reuniões, no meio de papos leves, fins de sexo e começos de relacionamento? Como eu faço pra ficar perfeito o tempo todo ou virar um bicho estranho e não precisar mais de ninguém? Eu jamais serei o que eu quero e jamais serei o que eu sou sem precisar disfarçar que quase sou o que eu quero. E cada hora eu quero uma coisa. E no fundo eu não quero porra nenhuma. Talvez só encher um pouco o saco, provocar, ser expulso do peito de todo mundo porque não agüento morar nesses lugares obscuros que são os outros e suas más intenções disfarçadas. Tudo é uma jaula, até minha fuga. Principalmente minha fuga. E eu estou cansado demais. É só olhar pra mim. Olheiras, ossos e escárnio. 
Gosto das pessoas fortes e burras. Gosto porque jamais vou odiar o que não amo. Como é bom foder o mundo e andar ereto. Basta amar alguma coisa para eu enfiar o rabo entre as pernas. Para eu arquear os ombros pra frente. Porque quero proteger tanto você dentro do meu peito. Cada vez que eu quero falar ou comer ou gritar ou viver. Vem o medo de que você me saia pelos buracos da cara. Medo de vomitar você. 
Como é que se vive? Como é que se ama em meio aos fedores e sujeiras e desistências da sua casa? Como é que se espera alguém voltar do seu mundo particular se eu acabo, por conta de um medo absurdo, indo para o meu para não ter que ver você longe? Esperar o quê? A vida secar tudo, murchar tudo. Não quero viver a porra do momento como dizem. Me sinto o tempo todo um inocente me debatendo nas paredes de uma piada de mau gosto. Só queria achar a saída e rir por último. Como se eu tivesse tamanho ou força pra peitar assim as coisas como elas são. Ser humano é constatar nosso tamanho ridículo perto das coisas como elas são. Ser humano é a coisa mais linda e sábia a se fazer. Mas ser humano dói em mim de uma maneira tão especial e absurda e assustadora que, em meio a toda essa auto-estima de merda, ganho certa arrogância. Não tenho mais músculos, nem sorrisos, nem amigos, nem viagens, nem línguas, nem nada do que os outros..mas tenho meu jeito de bloquear a vida fora e mergulhar aqui nessa coisa horrorosa. Nessa lista VIP da pior festa do ano só tem o meu nome. E lá vou eu voltar pra mim e esperar algum saudosismo escondido atrás da minha porta, com a arma na mão. A porta com todos os trinquinhos. O olho mágico vendo o escuro eterno das pessoas que desistem porque até eu mesmo sempre desisto. 
Aos poucos os olhos se preenchem. Os braços engrossam. Minha voz volta a parecer a voz de um garoto que merece ser amado. Compro uma roupa bonita. Mudo de analista. Escolho uma comédia ou um bom livro. E então estou pronto de novo. Sou uma armadilha pra ratos. Sem queijo. O que me faz pensar que só atraio quem merece. 

domingo, 19 de setembro de 2010

Meu namorado o doctor House

Eu decidi que tô namorando o doutor Greg House, aquele com cara de “adoro sexo mas sou arrogante demais pra fazê-lo” que passa todo dia as oito da noite no canal 43. Menos as sextas. E sábados. E domingos. Como todo péssimo namorado, ele tem mais o que fazer da vida nesses dias. 
Já que a vida inteira namorei rapazes que não me namoravam e fui namorado de rapazes que jamais namorei, resolvi namorar o House e fim de papo. Comprei um estoque de Vicodim. pensando nele. 
O House pode tudo. Ele pode me dizer que meu cabelo era infinitamente melhor sem o meu corte grease. Ele pode me dizer que eu fico infinitamente mais bonito com uns cinco quilos a mais. Ele pode reclamar que eu cortei a malhação por falta de paciência. Ele pode reclamar da minha mania de viver caindo. Ele pode rir da minha vontade de escrever novela ou qualquer outra coisa popular que me encha de dinheiro para eu poder escrever livros quieto ouvindo tori amos, da minha mania de cantar smashing pumpkings e do fato de eu escrever tudo em primeira pessoa porque, de verdade, acho um saco qualquer outra coisa do planeta que não passe aqui por dentro. E o House super passa, em meus sonhos. 
Quando vai dando sete e meia da noite (ahhh, a falta do que fazer, já tem uma semana que não aparece um bom freela ou um bom sei lá o quê) tomo meu banho. Passo meus cremes. Me tranco no quarto, no escuro. Vou passar os próximos sessenta minutos vendo vômitos, sangue, paradas cardíacas, berebas purulentas e a famosa “lombar punction”. Mas meu coração não entende nada como desgraça, a não ser a óbvia desgraça do amor. 
Todos os dias eu acho que vou morrer. E todos os dias ele descobre mil coisas pra não deixar. Porque quase nunca se morre nas mãos dele. E todos os dias ele me magoa terrivelmente com sua amargura e inteligência. E eu deixo porque não tem nada mais sexy do que gente que te odeia. Namorar quem tá cagando pra você, então, é o auge do sexy. Por isso eu namoro o House. 
Nós nunca vamos casar, ele nunca vai conhecer meus pais e nem eu os dele e eu sei que divido o seu amor com as garotas pagas. Não tem ilusão, não tem meiguices, não tem a melhor roupa. É preto no branco. É sofrimento puro. É o pior namoro do mundo. Mas como diria minha mãe “quando esse menino decide uma coisa...”. 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ningem

Olhos brilhando, e tranqüilidade. Esquentou e seus ombros tensos agradecem. Que cara bonita é essa? Já logo no elevador. Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonito hoje. Uma fala, outra concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é? Que segredo ele guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? lá fora perguntam: voltou com alguém? No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo “nossa, você tá muito... é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir”. Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis purple ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho. Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, faculdade,massagem, dormir, bobeiras, comer, rir, filmes, festas,comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que o ocupa de ser ele e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Leve, ele segue. Leve e feliz como nunca. O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinho, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ele pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que o espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Música

As pessoas seguram uma risada quase de pena. Mas se ele nem morava aqui, mas se ele não ficou mais do que um tempo com você, mas se já faz tempo que ele se foi, sem nunca ter sido. 
Então o quê? Nem eu sei. Mas sei da minha enxaqueca que já dura uma semana. Latejando sem parar. O coração que subiu nos meus ouvidos. Gritando que sente falta e pronto. 
Eu sinto falta de ligar o celular, antes de chegar em casa, e ter uma mensagem sua dizendo que vai dar tudo certo. E sorrir mesmo estando numa fila gigantesca para o táxi, embaixo daqueles 78 graus do centro. Não tem poesia nem palavra difícil e nem construção sofisticada. O amor é simples como sorrir numa droga de fila. E não se sentir mais sozinho e nem esperando e nem desesperado e nem morrendo e nem com tanto medo. 
Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, só pra conhecer gente estranha e te contar depois. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Porque eu acho que estava gostando mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me irritar. E eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa. 
Quando alguém não entende o meu amor, eu lembro daquele dia que você não queria tocar violão pra mim. Até que cantarolou reclamando que não era o seu violão. Daí tentou uma música conhecida. Tentou uma menos conhecida. Daí tocou uma sua, com a voz baixinha e olhando pro nada. E então me encarou e cantou com a voz alta. E então largou o violão, me encarou e cantou bem alto a sua dor, de pé, na minha frente, e eu achei que meu peito ia explodir. E ri achando que você ia sair correndo e dar um show na padaria da frente. E naquele momento eu pensei que poderíamos ser infinitos se fossemos música. E isso explica tudo, mas ninguém entende. Você entende. Mas cadê você? 
Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo. 
E daí se vai pra onde? 

terça-feira, 27 de julho de 2010

O amor

Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal. E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, ele disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. Já tivemos nossos tempos de transar e passar nervoso e aquela coisa toda de quem ama prematuramente. Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta dos caras, e eu também. Eu acho engraçado quando ele fala “ah, enjoei, ele era meio sem assunto” e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo “ah, ele não entendeu nada” e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase cinco anos. Somos pra sempre. Ele conta da música que tá fazendo, eu de tudo que sei. Os mesmos há mil anos. Contar é sem pressa de acabar. Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. É um exibicionismo orgânico, como se meu silêncio pudesse continuar me vendendo como uma boa pessoa. São cinco anos. É isso. Ele me viu quando eu era pirralho. Eu lembro dele gordinho e mais baixo. Ele sempre me dava aulas de música, e as músicas eram sempre sobre nós dois. Eu já fui bem bonito numa festa só porque ele queria me fazer de namorado pra provocar o ex namorado. Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados "alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor" e mais uma vez rimos da piada que inventamos, do pai que chega pro filho e fala: sua mãe não é sua mãe, eu transei com outra". E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Viver é bom demais

Quando ele colou meus livros na boca eu entendi que era uma maneira de encostar em mim sem encostar em mim. Ele tava de ressaca de pinga e eu de tudo. Não era pra gente se beijar. Apesar de eu estar fazendo bico sem parar, uma mistura de vontade de chegar mais perto com vontade de me proteger. 
Ele se desculpava pelo cheiro e pela cara feia. E eu não desculpava nada. Era tudo tão bom. O cheiro e a cara feia. Tudo tão bom e nada feio. Seu nariz ganhou o prêmio de melhor coisa do ano. Eu disse e ele riu. E já que ele não trouxe a gaita, que pelo menos fizesse a dancinha pra mim. E ele quase fez mas foi mexer nos meus livros e eu tive a idéia de emprestar meu amado Martin Page só pra depois ter desculpa de pegar de volta. E ele topou. É um livro sobre como tudo é insuportável e a gente quer morrer mas de repente tudo fica incrível e a gente quer viver. E ele entendeu. E então ele tomou minha água de coco e foi ficando melhor. E eu fui ficando melhor. Ressaca passa. É isso, simples. Você pensa que vai morrer, mas passa. 
As pessoas não me aguentam porque sou muito desligado. Ele disse. As pessoas não me aguentam porque sou ligado demais. Coisas soltas ditas enquanto ele me contava que tinha o pôster do “Homem que amava as mulheres” igual ao meu e gostava de House. Você vai na minha casa um dia? Claro. Você vem na minha de novo? Claro. A gente vai se ver o ano que vem? Claro. Adoro coisas claras. Mas já? 
E então ele pediu para eu anotar meu telefone e eu comecei a chupar a caneta. E ele continuava encostando meu livro na boca. Até que a gente percebeu e deu risada. Essa coisa é mesmo absurda. Mas já? Tô achando minha dor duvidosa, porque agora, por exemplo, não tenho dor nenhuma. E ele riu e disse que também não tinha dor nenhuma naquele momento. E quando ele riu, eu percebi. Eu percebi que eu estava na merda. Porque adoro esses caras que dão risada com a cara inteira mas continuam com os olhos um pouco tristes e parados. E adoro que a ressaca dele não permitia muita emoção e por isso ele fechava um pouco os olhos e ficava quietinho. É impressionante como eu não gosto de ninguém mas, de vez em quando, escapa um momento, um gesto, uma pessoa perdida e linda e única. E eu fico nessa felicidade de ser uma pessoa boa e capaz dessas coisas boas. 
E então eu contei pra ele que não fumava mais e ele que já tinha tomado drogas pesadas com aquele cantor fodão que faz as mulheres ajoelharem. E dos amigos que morreram e tudo muito rock and roll e achei divertido se é que se pode achar isso. Eu nunca namorei garotos como você. E eu que nunca namorei.Brincadeira. E então falamos do melhor café da cidade, do melhor livro do Philip Roth e ele confundiu Quarto do Filho com filho do quarto e quase falou mal do John Fante e de repente tudo ficou tão bem, tão bem. Mas já? 
Todo mundo é um pouco triste e um pouco louco e já estava muito tarde. E na televisão tava passando um filme brasileiro idiota. E ele imitou viado pra mim, porque achei o fim do mundo ele ser um comunista rock and roll que fala francês e gosta de coelhinhos. E tudo era legal, tudo, qualquer coisa nele é tão legal. Vai da camisa até o nariz. E do jeito dele falar até o tempo todo que ele fica quieto. É tudo tão legal. E a força que saia de dentro dele aquele dia e agora ele sem forças. E tudo forte e ao mesmo tempo eu quase com sono e a calma. E de como ele fala de coisas terríveis quase sorrindo. E de como ele diz que me liga em meses e liga no dia seguinte. E de como ele chegou até aqui completamente bêbado e completamente bom moço. E de como ele disse, da maneira mais sensual do mundo, que queria, um dia, fazer sacanagens meigas comigo. E eu perguntei se eram bregas, as coisas que eu digo. E ele disse que eram no limite, porque ninguém diz verdades sem ser. E nada disso me descontrolou porque a voz dele é quase uma meditação. E ele disse que precisava me contar uma coisa que ia me deixar triste. E eu disse vai com tudo. E ele disse que não tinha nenhuma música falando “na fila do supermercado”. Eu tinha imaginado tudo. Era outra frase, era outra coisa, eu tinha imaginado tudo. É isso que eu faço, baby. E ele me achou inteligente e eu adoro isso porque é um tipo de sexo que se faz que não enlouquece e nunca sacia. E ele ficou melhor e foi embora. E eu fiquei melhor e voltei. Não quero mais morrer, eu só quero meu livro de volta. Viver é bom demais. 

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Encrenca

Conheço ele na casa de um amigo. São ao todo oito homens solteiros, felizes e solícitos. Mas ele, estranho, reservado e tentando há horas estabelecer uma conversa com o gato da casa, me chama a atenção. Aquele alí é…? Xiii, Jimmy, encrenca. Mesmo? Tem certeza? Absoluta. Encrenca das grandes. Não me dou por satisfeito. Preciso saber mais. Descubro que ele já saiu com o irmão de um grande amigo. Na segunda ligo pra ele. E sua irmã? Casou. Mesmo? Foi. Mas e o…? Xiiii, encrenca. Mesmo? Nossa, bota encrenca nisso. Das grandes. Certeza? Posso confiar? Pode. Sei bem o que tô te falando. Mas se você estiver com dúvida, sabe a Ana? Então, o primo dela já saiu com ele. Jura? Juro. Na terça ligo pra Ana. E sua prima? Ah, menina, toda feliz, morando em Londres. Mas ela já saiu com o…., não saiu? Xiiiii, nossa, nem fala esse nome pra ela, nossa, EN-CREN-CA. Das bravas. Das grandes. Mesmo? Olha, tô pra ver encrenca maior. Mas se você tiver com alguma dúvida, o Beto, sabe o Beto? Foi chefe dele. Na quarta ligo pro Beto. E, aí, cara? Tudo certo? Certíssimo. Tô grávido do segundo moleque. Que beleza. Mas me fala, você já foi chefe do…?Cara, nem me lembra disso. Uma puta encrenca, viu. Olha, prefiro nem tocar nesse assunto. Mesmo? Sério. Mas olha, quem pode te falar melhor é o Dr. Ricardo. Tratou ele ano passado. Mesmo? Ele foi no Dr. Ricardo? Pra você ver o tamanho da encrenca. Na quinta ligo pro Dr. Ricardo. Sei como são essas coisas de discrição médica. Mas…e o…? não vou te falar nada, é antiético, você entende, né? Mas como você é meu amigo, vou te falar só uma coisa: o cara é a maior encrenca da cidade. Talvez do país. Mesmo? Mesmo. Mas se você tiver com alguma dúvida, minha irmã mais velha, a Fabi, fez faculdade com ele. Na sexta ligo pra Fabi. E aí, gata? quanto tempo! Faz mesmo. E você? Algum paquera novo? Sim, tô noiva! Jura! Juro! Mas e o…ouvi dizer que vocês estudaram juntos já. Ah não! Esse assunto não! Pô, mó vibe.Olha, esse cara redefiniu pra mim o conceito de encrenca. Manja “A” encrenca. Então. Mas se você tiver alguma dúvida…não, não tenho mais dúvida nenhuma. Chega. Já ouvi tudo o que eu precisava. No sábado ligo pra ele, coração disparado, não é sempre que encontramos alguém tão bem recomendado.Um mês juntos e adivinha? A ENCRENCA.

sábado, 26 de junho de 2010

Vazio

Fui em um prédio hoje. Tem um andar inteiro vazio. Parece comigo. Eu tenho um andar inteiro vazio. Os meus cinqüenta e oito andares estão vazios. Está tudo vazio. 
Eu queria avisar as pessoas que eu era a melhor instalação do centro. Veio ver o vazio? Olhe pra mim. Não tenho nada dentro de mim. Nada. Não tenho vontade nenhuma de lutar por você, mas também não tenho vontade nenhuma de não lutar. Não espero nada, mas também não espero outra coisa nenhuma. Eu não tenho nada. Eu perambulo por aí, atendendo meus 78 mil amigos e odiando ver o nome de cada um deles no visor do meu celular. Todos divertidos, leves, incríveis, amigos. E eu cagando um mundo pra toda essa merda. 
Aí no prédio fiquei sabendo que uma professora enlouqueceu e jogou umas fotografias lá pra baixo. Ninguém entendeu nada. Mas eu acho que entendi. O vazio dá desespero, cara. Dá um desespero filho da puta. 
O vazio dá um desespero silencioso. É como se o tempo jogado no lixo batesse sutil, num relógio esquecido em algum canto do quarto, que você só descobre quando está muito de madrugada e ao longe você escuta aquele tic,tac,tic,tac. Um batida que quase não existe. Você não sabe se é o tempo sendo contado pra você ou o seu coração contando você pro tempo. Um desespero sem cara de desespero. Mas que é desespero puro. A pior espécie dele. 
Aquele tobogã do prédio...que porra é aquela? Sofrer anda tão sem graça que mergulhar no vazio tem fila e casal de mãos dadas. 
Tem três seguranças no andar vazio do prédio. A vida anda tão sem graça que até o nada corre risco de ser roubado. Até porra nenhuma precisa de vigília. E eles com aquela cara brava, fechada. Uma cara familiar pra mim. Da pessoa que protege o nada como se fosse a única coisa que ainda restou. Um egoísmo em dividir o nada e ver ele virando alguma coisa. 
Ai que dor. Que dor. Que merda. Que lixo. O andar vazio do prédio tem cestos de lixos espalhados. A vida anda tão chata que nem o nada pode sujar. Eu queria ter gritado. Eu queria ter essa cara de pau. E ter berrado no meio do andar vazio do prédio. Um grito de nada. Pior é que eu berrei. Berrei com o pior tipo de desespero do mundo. Meu silêncio, meu conformismo, minha aceitação, minha quase maturidade. 
Eu tenho a impressão que a hora que eu chorar, vai ser das coisas mais tristes do mundo. Mais triste que aquelas crianças carentes correndo pelo vazio dos prédios. Mais triste que o sol frio entrando pelo vazio do prédio. Mais triste que a mulher tirando foto do marido descendo no tobogã do prédio. E aquela bandinha que fica embaixo do pão de queijo. E o velhinho com uma ave azul no ombro. Mais triste que os gringos tirando fotos com as crianças carentes correndo ao fundo do andar vazio do prédio. No vazio cabe um monte de coisa, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. A hora que eu chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. 

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um dia eu chego lá!

Tomo um remédio chamado Exodus. Um antidepressivo pra quem tem problema de pânico. Eu tenho problema de pânico. Por pânico entendo momentos em que tive a plena certeza de que iria desintegrar em praça pública, nú, e pessoas enviadas do inferno tirariam a minha pele com giletes podres para vender numa feira macabra. E eu estava apenas comprando pão na padaria ao lado de duas senhorinhas e uma criança. 
Sim, eu tenho esse problema. Não tenho orgulho, mas também não tenho vergonha. Só acho, confesso, que susto pela vida não dá em gente besta. E eu sou bem esquisito mas definitivamente não sou besta. E apesar de viver dizendo que não, gosto pacas de mim quando consigo. 
Não é sempre que a coisa dá, mas é como se fosse: o pânico é um eterno medo do primeiro pânico. Você passa inexplicavelmente mal (ou muito explicavelmente se quiser entender) uma vez e depois apenas convive com a certeza de que pode, uma vez que já pode, quase não morrer novamente. E de fato a coisa volta. E volta. E volta. E quando não volta, simplesmente está. Quem tem a coisa estranha, tem a coisa estranha sempre, a diferença é que quando estamos ou queremos estar bem, viver distrai. E pra mim, aprendi recentemente, viver é exatamente isso: se distrair do medo que dá pensar em viver.
Enfim, durante muito tempo não sai de casa sem minha cartelinha de Rivotril sublingual. Pra ir do quarto até a cozinha de casa eu levava uma no bolso. Mas as coisas melhoraram e eu simplesmente não tenho mais cartelinhas de Rivotril. Fiquei apenas com o Exodus, uma vez ao dia, 10 mg, depois do café da manhã. Há meses sem brigar com a mãe, sem brigar no trabalho, sem querer esfaquear mocinhos (a não ser quando eles realmente merecem), sem ter medo de velhinhas esquartejadoras na padaria da esquina. Não posso negar que o tal do Exodus me faz bem. Até a manhã de hoje, em que o danado do remédio simplesmente acabou sem o meu planejamento. 
Tudo bem, algo aparentemente fácil de resolver. Era só ligar pra psiquiatra e pedir uma receita. Ligo, ela atende, celular falhando: “não estou no Brasil”. Tudo bem, fácil de resolver, era só ligar pra minha amiga pediatra. Ligo, ela atende “eu tenho uma receita médica com dois peixinhos dando um beijo, tudo bem?” Acho que não. Melhor não, né? Sei lá, tomar um remédio com nome de disco do Bob Marley já é humilhação suficiente, não preciso de uma receita com peixinhos apaixonados. Nem aceitariam, acho. Tudo bem, fácil de resolver, eu tinha que ter tomado o remédio às duas da tarde e já são  nove e quinze da noite, mas o que não me falta é amigo doido. Ligo pro V. Você vai ao psiquiatra hoje? Ele fica puto “por quê? Você acha que eu deveria?”. Não, esse tá pior que eu. Tento o K. Você tem algum amigo médico? Ele fica puto “pôi, já te falei que se você quer um cara rico, mercado financeiro é muito melhor que hospital”. Não, eu quero uma receita, mas deixa pra lá. Tento um  ex namorado de mais de 3 anos atrás que trabalha num prédio com 45 psiquiatras, mas quando escuto a voz dele, começo logo a fazer piada nervosa e não me explico direito. Algo sobre uma receita, sobre um remédio, sobre o Bob Marley, sobre meu pau. Perai, me perdi um pouco. Ele não entende, mas ri, e eu preciso mais do que nunca do Exodus acalmando meu sangue. E agora? E agora? Tento minha mãe, mas o que minha mãe tem a ver com isso? Nada. Mas por via das dúvidas eu sempre tento a minha mãe. Tento minha analista. Ela não atende. O mal de não ser louco de verdade é que meu tratamento nunca é VIP. Eu sou só um esquisitinho mimado que esqueceu de pedir a receita do remédio. Mas nada disso importa, eu preciso do remédio e pronto. Pra sentir a falta da química enjoando meu sangue e dando vazio no centro da minha cabeça ainda demoram três dias, mas psicologicamente falando, já estou tonto e com o coração disparado. Se eu pagar mil reais, será que o farmacêutico me vende? 
Lembro de um conhecido neurologista, que me fala umas obscenidades de vez em quando. Me arruma uma receita, Fulano? Arrumo, mas você tem que vir pegar em casa, umas onze da noite. O Exodus tá valendo a prostituição? Não. Não tá. Então o quê? O quê? 
Às sete da noite, depois de tentar todas as ideias possíveis (inclusive, comprar uma caixa deixando minha carteira de identidade na farmácia até conseguir a receita com a minha psiquiatra na próxima terça-feira) já estou engolindo cinco litros de água por minuto e tremendo mais que dependente de drogas (ops!). Ligo então para uma clínica ortopédica que fica perto ao meu trabalho. Preciso ir aí agora, entende? Agora? Você fraturou alguma coisa? Sim, o cérebro. Preciso ir agora. O doutor Alê me recebe. Eu tenho vontade de abraçar o doutor Alê. Vou direto ao assunto: eu tenho lordose, escoliose, cifose e o dedão do meu pé pode ser seu mestrado em ossatura extraterrestre, mas eu vim mesmo porque preciso de uma receita de antidepressivo. É feio fazer isso, eu sei, mas muito mais feio é ter medo de gente na padaria, entende? Doutor Alê faz a receita pra mim, Exodus, 10 mg, duas caixas, me olha, sorri,e diz mentindo, amigo: “sabia que pra homem esse remédio funciona pra ejaculação precoce?” , doutor Alê, ansiedade é um gozo tão prematuro de felicidade que parece tristeza. Mas eu chego lá.

Tudo errado.

A primeira parte da primeira vez que fomos jantar foi um completo fracasso. Eu escolhi o restaurante, eu peguei ele em casa, eu paguei a maior parte da conta porque “você que inventou de pedir o vinho” e ele estava muito mal vestido e não tinha tomado banho depois de um dia inteiro de trabalho. Erro, erro, erro.Me vi andando na chuva até ele, que me aguardava dentro do carro tranquilamente embaixo de um toldo, tive a certeza: esse não serve nem pra amigo que você cumprimenta quando cruza na rua uma vez a cada quinze anos. 
Mas eu estava uns bons dias sem transar, sem o menor saco de conhecer gente nova, sem a menor cara de pau para ligar para um monte de gente e ele havia sido recomendado por amigas limpinhas “vai que é bom” e, por total falta de opção numa terça fria, deixei ele vir aqui em casa.
Na manhã seguinte, já éramos melhores amigos. Cantamos todas as músicas do Radiohead tão alto que a vizinha do lado resmungava pra eu ouvir. Fizemos campeonato de quem imitava melhor a dança epilética do Ian Curtis, falamos mal das meninas que usavam saltos muito altos nos domingos ensolarados, pulamos de alegria quando descobrimos que estávamos lendo o mesmo livro do Philiph Roth e ele instalou todos os aparatos eletroeletrônicos que, assim como eu, aguardavam alguém inteligente dentro de uma caixinha semi aberta. 
Ele foi embora se despedindo de mim com um beijo amigo e pela primeira vez na vida achei essa ideia ótima “ele está indo embora sem promessas de amor eterno e eu não estou sofrendo nem um pouco com isso”. 
Sem mensagenzinhas de carinho ou e-mails fofos, seis dias depois nos encontramos de novo para mais uma maratona de sexo sem amor, e assim ficamos por uma vida. Com intervalos para quando ele arrumava um namorado ou eu achava que arrumava um namorado. Era leve, divertido, gostoso e uma experiência incrível para a minha pessoa ciumenta: eu ajudava ele a paquerar em baladas e me divertia quando ele ligava na manhã seguinte “o mala do cara apaixonou, e agora?” E agora vamos no cinema mais tarde. E pronto. 
Esse mês ainda não havíamos nos encontrado. Ele porque arrumou um cara bem ao seu estilo (que escolhe restaurante que aceita Visa Vale, usa chinelos crocs e super se preocupa mesmo com aquelas passeatas dentro do prédio de sociais da UFMG) e eu porque estava tão apaixonado por outra pessoa que preferia deitar na cama sozinho, só com a voz dele do outro lado da linha, a milhões de quilômetros de mim. 
Ontem nos encontramos numa festa de um amigo em comum. Ele estressado, com o menino ciumento ligando no seu celular de meia em meia hora; e eu pelos cantos, suspirando por mais um amor perdido pelo excesso. 
Ficamos abraçados por horas. Meu coração não disparou e nem o dele. E só por isso o abraço durou tanto. 

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pede pra sair

Nada é maior que ela. Nenhum amor, nenhum desejo, nenhum plano, nenhuma sessão de meditação, acupuntura ou psicanálise. A natureza é soberana. Pobre da mente, das boas intenções e do resto todo que acha que manda alguma coisa. É ela quem me comanda. Você tem escolhido corretamente? Chega já me chamando do nome inteiro, ignorando que assim não gosto. Tem ou não? Não desconversa! E então eu sento com ela. Explico. Olha, querida, como é que eu vou saber, percebe? Eu não tenho bola de cristal. Ele parece gostar de mim. Tem saudades e tal. Atura aí boa parte das minhas angústias. Tem tesão e tudo. É doce na medida do que ele pode sem perder o charme. Me dá força quando bato o pé ou assino uns contratos errados. Tá tudo certo. Posso ir tranquilamente ao cinema? Posso gostar dele? Não desconverse. Você tem ou não escolhido corretamente? 
Durante muito tempo achei que essa era a voz da minha mãe. A pessoa que no ultimo ano sempre esteve a espreita pra classificar todo e qualquer homem que se aproximasse de mim de “não serve não”. Me distanciei dela. Parei de contar da minha vida amorosa. Deixei claro que não queria dizer nem onde eu estava e muito menos o que eu estava fazendo. E o que aconteceu? A voz só aumentou. Em quantidade e volume. Você tem escolhido corretamente? Tem? Parece sim a voz de uma mãe, mas foi então que comecei a desconfiar que talvez se tratasse da mãe natureza. Ou o que chamamos de instinto. Vai saber. 
Tentei então a psicanálise. Todas as quintas, às 9 e 45 da manhã, me dedico a implorar. Bertile, tira essa porra de voz da minha cabeça? É tipo assassino do John Lennon. Mate, mate, mate! É a tropa de elite do bebê. Serve pra pai dos filhos? Não sabe? Então mate do seu coração agora mesmo! E eu brigo comigo. Como é que se adivinha o futuro? Como? Como é que se chega pra alguém que está na sua vida há pouco tempo e se pergunta: “fulano, eu sei que você me ama com esse sorriso largo e meu cheiro bom de creme de chocolate, mas, assim, supondo que, um dia, vai saber, eu fique de mal humor, indiferente, enlouquecido,e sem animo algum para me arrumar por um acaso, você continuaria me amando”? 
E a caceta da voz diz que não é de se perguntar. É de se sentir. Sozinho, no silêncio, no escuro, antes de dormir. Pergunte a mim. Pergunte ao seu instinto ou vozinha de psicopata do John Lennon. E me escute. Eu sei de tudo. Eu sou a natureza. A maior e mais soberana coisa do mundo. Eu sou Deus ecoando a verdade universal das suas vísceras até os seus tímpanos teimosos. Vamos. Pergunte. Pergunte que eu respondo: “meu amigo, esse cara não atura nem programa chato de televisão, vai aturar um outro cara?”. Você quer ou não quer ouvir? Não, eu não quero. Eu não confio em você. Ah não confia não? Quem foi então que te disse pra você largar toda aquela dor e começar a viver? Quem foi que disse pra você sair correndo daquela festa minutos antes de entrarem os ladrões? Quem foi que disse pra você se aproximar daquelas pessoas que são grandes e bons amigos até hoje? 
Mas isso, natureza, isso é um absurdo. Porque pra qualquer homem, tenha 12 ou 56 anos, que você pergunte algo do tipo “tamo junto nessa vida ou não?”. Pra qualquer homem, natureza. Aliás, pra qualquer ser humano. Se alguém perguntasse isso pra mim. Eu sairia correndo. Porque não há nada mais chato do que pressão. Nada mais chato do que contrato, do que certeza. Isso mata o amor, o presente, o sexo, o mistério, o medo, o não saber. Os corajosos apostam. Percebe? Os corajosos apostam. Os corajosos não cobram. Eles vivem. E vão conquistando coisas. Um dia conhece um amigo. Um dia conhece uma irmã. Outro dia conhece o pai. Um dia, ops, ele esqueceu do limite do amor e dormiu na sua casa. Outro dia, ops, ele foi parar com você numa festa chata com gente que ele não tem nada a ver. E um dia, mil vezes ops, não é que vocês estão felizes há anos e resolveram passar uma semana ininterrupta juntos? E milhões de vezes ops. Nada foi dito, apenas aconteceu. É assim natureza. O natural é assim. Não? Fale alguma coisa. Natureza? 
Ela me abandona por uns dias. Sou tão sonhador que ela cansa. Me deixa brincar de ser normal e calmo e feliz e amado. Mas quando volta, está coberta de armas e balas e granadas. Tudo bem, você quer esse homem? Tudo bem, eu deixo você ficar com ele. Mas não existe carteirinha de clube sem exame de frieira. Não existe emprego sem entrevista. Não existe pular de pára-quedas sem pára-quedas. Qualquer aventureiro que gosta de pular no nada, gosta de vento na cara, de altura, gosta também de saber que na hora H pode contar com a cordinha. Todo mundo precisa saber que pode puxar a cordinha. Fico com medo, o que essa doida vai fazer agora? 
Tomo meu banho demorado. Assovio de alegria.E agora estamos juntos . Ele é bonito e inteligente e gosta de mim. Vou ver meu amor. Coloco uma roupa legal. Estou feliz. Vou ver meu amor.Vou até o restaurante fazendo planos para a nossa tarde deliciosa. Estou feliz. Minha voz de psicopata do John Lennon está calada e tudo indica que terei uma tarde sem problemas. 
De repente, ao chegar ao restaurante, vejo o que mais temia. Na esquina, ele me espera. Wagner Moura com sua roupa preta e a caveira no ombro. Vai começar tudo de novo. Ele me diz “vai ficar quietinho aí, não vai subir ninguém!”. É ele quem entra no restaurante. Já chega chutando o balde. Apaga essa merda de cigarro, 01! Além de ter rinite eu quero alguem que dure até 900 anos. Apaga essa merda, 01! Não vai apagar? Então pede pra sair, 01! Pede pra sair! Mas pede alto pro mundo todo ver que você desistiu! Não, Wagner, não! Eu gosto dele! Não mate, não mate, não mate! Mas Wagner é osso duro de roer, mata um, mata geral, e também vai matar você. E ele continua. Faz o pobre marchar de madrugada na chuva, as botas apertadas, cantando “inseguranças,defeitos na pele, angústias e carências, eu sou homem e aturo todas essas coisas com decência”. Bate na cara dele, cospe, empurra. Você quer mesmo ficar, 01? Você agüenta, 01? Não, Wagner! Não! Eu sei que ele não vai agüentar! Não faça isso! Eu sei que ele não vai agüentar! Mas Wagner precisa preparar homens para a guerra. Viver é uma guerra. Estar ao lado de um homem é uma guerra. Estar ao meu lado é uma super guerra. Me deixa! É pro seu bem. Eu viro o rosto. Aperto os olhos. A maior dor do mundo. Escuto o tiro. Wagner, minhas células e minha mãe comemoram. Eu continuo sem saber que maravilha a vida poderia me reservar se eu não me protegesse tanto. Eu continuo sem ter a menor ideia de como se ama ou se é amado. Eu continuo acordando sozinho pra caralho. 

sábado, 29 de maio de 2010

Traíra

Venha, não tenha medo. É só o mar. Não, eu não sei nadar. Eu te ajudo, vem. Confia, vem. Estica a perna assim, abre o braço assim. Respira assim. Vem. Mas eu não sei. Mas eu tô aqui. Olhe meus olhos tão arregalados, como posso guardar mentira aqui? Eu posso cantar pra você, eu posso te segurar, eu posso ficar aqui até você conseguir. Eu não sei. Tá perto. Vai. Solta da borda. Eu sei, você já foi parar no fundo. Mas agora é diferente. Tá mais raso. E eu tô aqui. Eu vim do outro lado do oceano. Eu vim só por sua causa. Vem, larga da borda. Pode vir. Eu vi você como você é e é por isso que estou aqui. Confia. Não sei. Pode vir. Não tem mais ninguém. A borda é para os peixes pequenos. Solta, isso, relaxa a cabeça no meu peito. Não tem fundo mas eu te ajudo a flutuar. Você pode. Calma. Afoga um pouco no começo, cansa, desespera. Mas você quer como eu quero? Quero. Então eu te ajudo. Vem. Isso. Segura em mim. Paz. Azul. Agora, você está quase conseguindo. Falta só metade. Você está quase chegando, mas eu vou decepar a sua cabeça pra usar de bóia. Eu também não sei nadar. 

Para quem sabe do amor.


Não sei se escrevo. Fico nesse dilema de transformar todo o meu sentimento em palavras, porque se começar a digitar, a possibilidade de não conseguir parar, é grande. E agora tudo descoberto, porque eu quis, e achei mais correto, como já disse em outros dias, quem sabe você venha a ler. E eu posso me arrepender do que falo. Assim como, posso me orgulhar. Face de dois gumes, o que faço de melhor nessa vida, é passar o que sinto pro papel computador e disso, não há escapatória. Confirmar uma suspeita do que me era inimaginável doeu. A resposta da pergunta cretina, violentou e bagunçou o que ainda era sentimentos prematuros, em formação. E a cartada final, a seriedade e crédito zero que me eram creditados, desembocou onde deu. Na minha cama, no meu filhote netbook, chorando até desidratar. Que as lágrimas caiam, não são feitas para prestações. Tudo de uma vez lava a alma, e elimina aos poucos o que de ruim quer se instalar, desgrudando o chiclete sem gosto que é mascar uma raiva assim, que não se quer ter. Guardo meus momentos mais bonitos do que foi vivido, as idéias trocadas, os afetos puros que tive. Se teve, não sei. Mas foi intenso enquanto durou. Eterno, só nas lembranças. Que é assim que todos relacionamentos deveriam permanecer...Inclusive, o que causou o nocaute da bandeira que levantávamos. Num balanço final, não vejo vilões ou grandes malfeitores. Alguns. Alguma. Enfim, não me culpo por nada. Minha participação, mesmo que transitória e nebulosa em alguns momentos, sempre foi constantemente alegre e estusiasmada, querendo apenas o bem; pra mim, pra ti. Pro que viria a ser, se algum dia permitisse o bosque escuro que é o teu coração, nós. Eu choro pelo que não foi, pelo que poderia ter sido. E embora não entenda tua atitude, compreendo. O gosto salgado desse líquido que mascara a face antes do meu sono, e me faz acordar com o rosto inchado. Mas é apenas a visão obscura de noites que algum dia poderiam vir, momentos únicos compartilhados, filmes que queria ver, alguns que eu quero ver no cinema, uma janta num japonês e quem sabe pique-nique, tour pelas praias do Brasil. Vai faltar um cobertor de orelha quando o frio aumentar, e o meu corpo quente poderia aquecer o teu. Ou, vice e versa. Podem faltar os teus elogios a minha boca, minhas roupas. E a minha força, a admiração que tinha pela tua garra, teu esforço. Se fará falta, não sei também. E nada disso, não mais. Acho que, nunca. Por falta de consistência, por um sentimento sobrecarregado, e querendo sair pela fórceps, de qualquer jeito. Nasce errado, doente. Não é o que quero. Se nesse tempo não conquistei, é porque não há espaço. Talvez, não haja tido verdade. E isso me deixa triste. Profundamente inconsolado. Querer entender, e não conseguir..Pra mim, coisa difícil de se aceitar. De nada adiantava minha vocação para ser o anjinho do lado esquerdo, quando você insistia no caminho nem tão bom, mais quente e endiabrado? Um cara maravilhoso, pelas suas palavras. Um cara maravilho, que aos poucos, foi perdendo o poder, esquecendo a força em casa, e se decepcionando com o que no começo, parecia ser ideal. Perfeito príncipe encantado, que pelo que dizem, e vou confirmando, confesso: não existe. Mas, parte feita, papel cumprido, saio de cena. Nada resolve remar sozinho, querer fazer acontecer se sonha sem companhia, sem resolução. É sonho perdido. Vontade desfeita. Acostumado, acontece mais uma vez. Vamos adquirindo maturidade, força. E começamos a entender essa ciranda da vida. O destino, não. Nos colocar um diante o outro, e as mudanças ao longo do percurso, as personalidade à mostra; uma pena que a flor formosa inicial não tenha sobrevivido. Lastimável. Reguei, cuidei, e alimentei. Até mesmo, conversar com alguém maior e gnomos, acredite. Porém, quando não é a hora, a vez ainda não chegou, só resta aceitar. Ontem não conseguia suportar, e hoje já vejo um dia novo, inovador. Que aconteça o que tiver que acontecer, daqui pra frente, ainda com fé. Ela não acaba, só aumenta. Te deixo no porto, que dizes ser seguro, e que afirmas gostar, e sigo minha viagem. amuletos na bolsa, palavras na cabeça e pedrinhas na carteira: há males que vem para o bem; eu sei. E que sejas feliz, que se sintas completo, e alcance os seus ideais. Desejo mal nenhum, não. Não és ruim pessoa. Apenas, quando tomares as rédeas da tua vida, e viveres o momento presente, sem pensar no amanhã, quem sabe podemos nos falar, contato, amizade. Quem, sabe..Quem sabe? Ele sabe, ele faz, ele dá. É só a gente acreditar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A coisa mais triste que aconteceu em minha vida.

O mundo vê um passinho pra trás. Mas em algum lugar do cosmos, ouve-se um caminhão da Granero frear. Um barulho imenso, desengonçado, batem atrás, cercas arrancadas, quase cai no fim do mundo, móveis baratos despedaçados pela cidade.
O tempo todo me dizendo menos. Menos. Pra aguentar, por favor. Pra ter alguma coisa, qualquer coisa. Duas semanas. Um mês. Menos. Menos dor, menos amor, menos ódio, menos vontade de fazer cortar. De sangrar pra fora pra poder ser menos. Por favor.
Sorria como o cara da mesa ao lado, alongue um pouco o pescoço. Seu olhar está perdido porque pra poder estar naquela mesa ele foi matando pouco a pouco sua ferocidade. Mas ele toma chá e sorri. E você? Você mais uma vez vai voltar cheio de razão e sozinho. Cheio de tudo que não esquenta o pé. Cheio das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando “ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance”.
O tempo todo maquiando o caminhão, para que pareça uma minivan ou qualquer coisa tão desengonçada e apressada quanto, mas mais cabível. Que possa estar na estrada que todo mundo está parado, o eterno trânsito de chegar nesse lugar que a gente acha que é o único porque estão todos lá.
E no meu ouvido, o tempo todo soprando. Esqueça isso, você não cabe, você não combina, a estrada não é feita pra você, você só pesa nela, só atrapalha, só é feio e odiado. É isso, não se desvira caminhão. Se é e pronto. Solitário demais, terrível demais. Mas pro outro lado, está vazio. Tem espaço pra você. A dor de virar um carro família, um carro esporte, um carro compacto. Não aguento mais, não aguento mais querer me refilar, não aguento mais querer mudar a química do meu cérebro, não aguento mais pedir perdão. Não, caminhão, tantos anos tentando, não, você não pode, não consegue, é assim. Do outro lado, uma estrada imensa. O caminho claro, bonito e sem buracos, dos que desistem.
Isso, mais uma vez, mas dessa sem voltar. Você não sabe amar, caminhão. Não pode. Não é feito pra você. Dê meia volta, por favor, sem atropelar, sem matar, sem cair, sem levar ninguém. Na tristeza dura de quem tem tanto tamanho mas não tem força pra suportar. De quem tem tanto tamanho e não consegue por medo em ninguém. De quem precisa tanto de abraço mas é grande demais pra sentir os braços em volta. De quem poderia estraçalhar os carros família mas só sente o peso insuportável de ser minúsculo perto deles.
Claustrofobia, pânico, insuportável. E então, o som, mais uma vez, puxar o freio, largar a mão, dar meia volta. Tchau, meu amor. Olhe quantos carros pequenos. Não queira mais saber dessa grossura destrambelhada que só leva mudanças porque ir embora parece um lugar com mais ar. Se você não pode ver meu coração de carruagem, ou sei lá que carro poético poderíamos imaginar agora, eu também não quero mais ser nenhuma outra coisa.
De todo mundo que eu vi de costas, partindo, foi a vez que mais doeu. Talvez porque um pouco antes, quando eu ainda amava sua nuca e sua eterna mochila nas costas como amei poucas coisas na vida, você se virou, apontou o dedo pra mim, e gritou, com pouco ou nenhum carinho: você é um caminhão! Caminhão! Caminhão!
E eu sei, e eu tentei mais do que nunca, e eu quis mais do que nunca. E eu achei que os caminhões também pudessem ter donos e direções e medalinhas. Você também me usou pra levar sua mudança e voltar vazia das suas coisas é a coisa mais triste que já aconteceu na minha vida.

sábado, 22 de maio de 2010

E se eu precisar ir embora,onde é?

Quando eu era criança, no meio da noite, às vezes eu escutava um sopro bem dentro da minha cabeça. Vai me dar a bobeira, eu pensava. E a bobeira dava. E eu ficava sem saber se a bobeira já tinha dado (e por isso eu pensava nela) ou se eu pensava na bobeira e ela dava. Eu mandava na bobeira ou ela mandava em mim? Se eu mandava nela, como obedecia?
Ter a bobeira era a pior coisa do mundo, mas era também uma honra. Eu lembro direitinho de olhar as outras crianças -e eu sempre lembro delas descalças e comendo cachorros quentes e dormindo suadas- e pensar: elas não têm medo da bobeira porque são bobas. Não entendem como é louco isso tudo aqui. Caramba, pense bem. É bem louco, não é? E pronto. Eu começava a tremer e queria vomitar e tinha certeza que não saberia viver. Eu nunca saberia viver. Nunca. Crianças só precisam pedir pros pais, não é? Como se vive, mãe? Tá, agora já posso ir brincar? Mas eu não, eu realmente pensava 24 horas por dia nisso. Em não saber viver. Se criança eu não conseguia, imagine adulto. Adulto ainda precisa cuidar dos outros. Mas como? Eu nunca vou conseguir. Mas passava, tinha prova, tinha cansaço, tinha filme. E isso era viver e saber, mas eu não me dava conta. Nem hoje, se bobear. Dali a pouco, voltava. Eu passei mais de 60% dos segundos da minha vida assustado. Muito assustado. Mas rindo, mas fazendo todo mundo rir. E por dentro, um poodlezinho com medo da tosa. Fofo e fresco. E afiando dentes na madrugada caso me tirassem os pêlos bem no inverno. Você precisa ser menos agressivo, poodle. Ah é? E quem me garante então que não vão me arrancar os pêlos bem no inverno?
Eu posso explicar melhor agora que sou adulto. Apesar de continuar com o mesmo medo e com o mesmo respeito pela bobeira. Não, o mesmo medo não. Eu já sei que sei viver. Com ela. Não com medo dela chegar ou com medo dela ficar pra sempre. Mas com ela, sendo ela, sendo a bobeira, sendo o tremor, sendo o enjoo, sendo minha vontade de sempre ir embora. Mesmo ficando porque a gente ficou, pense bem. Não tamo aqui? Eu posso explicar melhor. Se depois do orgasmo você precisa de uns minutos abraçado, pro mundo não virar a coisa mais absurda do mundo e você ser engolido pelo buraco negro no asfalto (eu sempre sonho isso). Depois da bobeira você precisa é de um útero. Porque ela é o orgasmo do mal. É o prazer que não se pode ter porque não te coloca no mundo, te tira. Não te aproxima de aconchego alheio, mas do inferno próprio. E o que é isso? Tentei algumas vezes. Para psiquiatras, analistas, neurologistas. É tipo assim ó: de repente, eu preciso ir embora, entende? Rápido, correndo. Por que o quê? Como assim? Porque eu morro, sei lá. O supermercado é terrível. Se você pensar bem, a obrigação das duas horas de um filme, pode ser terrível. E sentar retinho na cadeira do restaurante pra fazer alguém gostar de você? E o nariz, a gente tem nariz, entende? Cara, somos meio alaranjados e temos nariz. Nariz é estranho de doer, não é? E você beija uma pessoa, dai você lambe uma pessoa, dai essa pessoa dorme com você e, dali uns meses, o quê? Não sei, sumiu. Sumi. E segue-se.
Mas aí começou a piorar muito. Tipo todo mundo se divertindo na sala, e eu pensando: duas quadras, três quadras, casa. Eu aguento. Eu posso aguentar. Duas quadras, três quadras, casa. Tem mato, tem árvore, tem passarinho, tem filme 3D, tem passagem pro mundo inteiro, tem elevador com dezenas de pessoas que conseguiram tomar café da manhã, tem suco de laranja, tem nariz, somos alaranjados. Duas quadras, casa. Eu aguento. Eu só preciso colocar isso aqui embaixo da língua. E mais um porque tá demorando. Talvez mais meio, porque tô cansando. E pronto. Só daqui 12 horas abrir os olhos e pensar como tudo fora do quadrado da minha cama me dá pavor.
Daí comecei mesmo a piorar. Tipo: padaria você consegue, vai! A bobeira, que muitos chamam de síndrome do pânico, é como sofrer um acidente e perder os movimentos da perna. Seu cérebro está aleijado. Não adianta correr meia maratona. Não adianta pegar um avião pra Nova Iorque. É padaria mesmo. Aos poucos. Ir à padaria é como fazer fisioterapia pra perna acidentada. Um dia a padaria do bairro, outro a padaria do outro bairro. E pronto. Você consegue ficar na sala com as pessoas sem pensar: duas quadras, três quadras, casa.
Agora tomo um remédio de manhã. Que engulo como se fosse uma vitamina meiga que a natureza fez brotar pra mim de uma frondosa árvore outonal. Nem sei o que tô escrevendo, mas sei que não me parece química, de verdade. As pessoas falam pra mim “larga essa merda”. Segurando seus copos de bebida, seus cigarrinhos de mato, seus vícios todos, suas manias, suas madrugadas fritas, seus dias fazendo de conta que não é assim, seus Ipods, phones, pads. Quem é que larga essa merda? Que merda? A vida. A bobeira? Não largamos, nunca. Vamos como der. Algumas vezes de muletas, algumas vezes mutilados, algumas vezes sem nem poder tocar direito o chão. Mas vamos. Mais perto. Primeiro até a padaria. Mas falta pouco, muito pouco, para padarias na China, pois estou melhor. Mesmo. Ainda procuro sentar perto das saídas. Ainda suo um pouco frio pra viajar sozinho. Ainda pergunto, sempre, aliás: e se eu precisar ir embora, onde é? Mas melhor, bem melhor. Já até como na padaria.
Eu senti meu cérebro romper. E toda vez que penso nisso, eu choro um pouco. Porque, cara, eu sempre achei que a bobeira mandasse em mim. Que minha mente, essa filha da puta, mandasse em mim. A soberana. Mas no dia que eu senti, de verdade, formigar pra todo lado. E algo que não era o poodle afiado disfarçado. Não era ninguém além disso. Eu fui lá e falei, olha, cara, eu quero um remédio aí pra ansiedade porque, na boa, eu preciso de ajuda. De verdade. Nesse dia eu vi que a mente é como a perna. O joelho estraga se você fizer os exercícios errados. E fritar é foder o joelho do cérebro. E se o cérebro é só um joelho, então o quê?
Nada. É isso. Um dia, você descobre e está salvo. Nada. Viver é só esse mistério mesmo. Não tente respirar mais rápido que o mistério pra tentar chegar antes dele. Respire passos pra trás da vida e isso é só o que dá pra fazer. Ela ganha e ponto final. Ela ganha, mas a gente se diverte pacas com isso. É tipo estar numa festa linda, você conhece alguém pra amar, você pula meio de pileque na piscina, você nunca se esquece. Mas a festa era de outra pessoa que, gentilmente, te convidou. Não tente roubar sua casa, sua comemoração grandiosa. Apenas bata palmas na hora do parabéns e aceite o convite da vida.
Não dá pra entender nada. Mas é isso. Temos um nariz, somos alaranjados. Com calma, que agora consigo ter (por causa do remédio, sim, mas também porque precisei ter medo de supermercado pra não ter medo de super qualquer coisa). Com calma, você repara. E não é ruim. Com calma, não se vê lá fora o assustador borrado da velocidade. Se vê como é. E não é tão feio. E até o feio, tem seu valor. É só isso. A vida. Com calma. Mil quadras,e três mil quadras de casa. Só a vida. Uma linda e magnífica bobeira.