Nada é maior que ela. Nenhum amor, nenhum desejo, nenhum plano, nenhuma sessão de meditação, acupuntura ou psicanálise. A natureza é soberana. Pobre da mente, das boas intenções e do resto todo que acha que manda alguma coisa. É ela quem me comanda. Você tem escolhido corretamente? Chega já me chamando do nome inteiro, ignorando que assim não gosto. Tem ou não? Não desconversa! E então eu sento com ela. Explico. Olha, querida, como é que eu vou saber, percebe? Eu não tenho bola de cristal. Ele parece gostar de mim. Tem saudades e tal. Atura aí boa parte das minhas angústias. Tem tesão e tudo. É doce na medida do que ele pode sem perder o charme. Me dá força quando bato o pé ou assino uns contratos errados. Tá tudo certo. Posso ir tranquilamente ao cinema? Posso gostar dele? Não desconverse. Você tem ou não escolhido corretamente?
Durante muito tempo achei que essa era a voz da minha mãe. A pessoa que no ultimo ano sempre esteve a espreita pra classificar todo e qualquer homem que se aproximasse de mim de “não serve não”. Me distanciei dela. Parei de contar da minha vida amorosa. Deixei claro que não queria dizer nem onde eu estava e muito menos o que eu estava fazendo. E o que aconteceu? A voz só aumentou. Em quantidade e volume. Você tem escolhido corretamente? Tem? Parece sim a voz de uma mãe, mas foi então que comecei a desconfiar que talvez se tratasse da mãe natureza. Ou o que chamamos de instinto. Vai saber.
Tentei então a psicanálise. Todas as quintas, às 9 e 45 da manhã, me dedico a implorar. Bertile, tira essa porra de voz da minha cabeça? É tipo assassino do John Lennon. Mate, mate, mate! É a tropa de elite do bebê. Serve pra pai dos filhos? Não sabe? Então mate do seu coração agora mesmo! E eu brigo comigo. Como é que se adivinha o futuro? Como? Como é que se chega pra alguém que está na sua vida há pouco tempo e se pergunta: “fulano, eu sei que você me ama com esse sorriso largo e meu cheiro bom de creme de chocolate, mas, assim, supondo que, um dia, vai saber, eu fique de mal humor, indiferente, enlouquecido,e sem animo algum para me arrumar por um acaso, você continuaria me amando”?
E a caceta da voz diz que não é de se perguntar. É de se sentir. Sozinho, no silêncio, no escuro, antes de dormir. Pergunte a mim. Pergunte ao seu instinto ou vozinha de psicopata do John Lennon. E me escute. Eu sei de tudo. Eu sou a natureza. A maior e mais soberana coisa do mundo. Eu sou Deus ecoando a verdade universal das suas vísceras até os seus tímpanos teimosos. Vamos. Pergunte. Pergunte que eu respondo: “meu amigo, esse cara não atura nem programa chato de televisão, vai aturar um outro cara?”. Você quer ou não quer ouvir? Não, eu não quero. Eu não confio em você. Ah não confia não? Quem foi então que te disse pra você largar toda aquela dor e começar a viver? Quem foi que disse pra você sair correndo daquela festa minutos antes de entrarem os ladrões? Quem foi que disse pra você se aproximar daquelas pessoas que são grandes e bons amigos até hoje?
Mas isso, natureza, isso é um absurdo. Porque pra qualquer homem, tenha 12 ou 56 anos, que você pergunte algo do tipo “tamo junto nessa vida ou não?”. Pra qualquer homem, natureza. Aliás, pra qualquer ser humano. Se alguém perguntasse isso pra mim. Eu sairia correndo. Porque não há nada mais chato do que pressão. Nada mais chato do que contrato, do que certeza. Isso mata o amor, o presente, o sexo, o mistério, o medo, o não saber. Os corajosos apostam. Percebe? Os corajosos apostam. Os corajosos não cobram. Eles vivem. E vão conquistando coisas. Um dia conhece um amigo. Um dia conhece uma irmã. Outro dia conhece o pai. Um dia, ops, ele esqueceu do limite do amor e dormiu na sua casa. Outro dia, ops, ele foi parar com você numa festa chata com gente que ele não tem nada a ver. E um dia, mil vezes ops, não é que vocês estão felizes há anos e resolveram passar uma semana ininterrupta juntos? E milhões de vezes ops. Nada foi dito, apenas aconteceu. É assim natureza. O natural é assim. Não? Fale alguma coisa. Natureza?
Ela me abandona por uns dias. Sou tão sonhador que ela cansa. Me deixa brincar de ser normal e calmo e feliz e amado. Mas quando volta, está coberta de armas e balas e granadas. Tudo bem, você quer esse homem? Tudo bem, eu deixo você ficar com ele. Mas não existe carteirinha de clube sem exame de frieira. Não existe emprego sem entrevista. Não existe pular de pára-quedas sem pára-quedas. Qualquer aventureiro que gosta de pular no nada, gosta de vento na cara, de altura, gosta também de saber que na hora H pode contar com a cordinha. Todo mundo precisa saber que pode puxar a cordinha. Fico com medo, o que essa doida vai fazer agora?
Tomo meu banho demorado. Assovio de alegria.E agora estamos juntos . Ele é bonito e inteligente e gosta de mim. Vou ver meu amor. Coloco uma roupa legal. Estou feliz. Vou ver meu amor.Vou até o restaurante fazendo planos para a nossa tarde deliciosa. Estou feliz. Minha voz de psicopata do John Lennon está calada e tudo indica que terei uma tarde sem problemas.
De repente, ao chegar ao restaurante, vejo o que mais temia. Na esquina, ele me espera. Wagner Moura com sua roupa preta e a caveira no ombro. Vai começar tudo de novo. Ele me diz “vai ficar quietinho aí, não vai subir ninguém!”. É ele quem entra no restaurante. Já chega chutando o balde. Apaga essa merda de cigarro, 01! Além de ter rinite eu quero alguem que dure até 900 anos. Apaga essa merda, 01! Não vai apagar? Então pede pra sair, 01! Pede pra sair! Mas pede alto pro mundo todo ver que você desistiu! Não, Wagner, não! Eu gosto dele! Não mate, não mate, não mate! Mas Wagner é osso duro de roer, mata um, mata geral, e também vai matar você. E ele continua. Faz o pobre marchar de madrugada na chuva, as botas apertadas, cantando “inseguranças,defeitos na pele, angústias e carências, eu sou homem e aturo todas essas coisas com decência”. Bate na cara dele, cospe, empurra. Você quer mesmo ficar, 01? Você agüenta, 01? Não, Wagner! Não! Eu sei que ele não vai agüentar! Não faça isso! Eu sei que ele não vai agüentar! Mas Wagner precisa preparar homens para a guerra. Viver é uma guerra. Estar ao lado de um homem é uma guerra. Estar ao meu lado é uma super guerra. Me deixa! É pro seu bem. Eu viro o rosto. Aperto os olhos. A maior dor do mundo. Escuto o tiro. Wagner, minhas células e minha mãe comemoram. Eu continuo sem saber que maravilha a vida poderia me reservar se eu não me protegesse tanto. Eu continuo sem ter a menor ideia de como se ama ou se é amado. Eu continuo acordando sozinho pra caralho.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
Traíra
Venha, não tenha medo. É só o mar. Não, eu não sei nadar. Eu te ajudo, vem. Confia, vem. Estica a perna assim, abre o braço assim. Respira assim. Vem. Mas eu não sei. Mas eu tô aqui. Olhe meus olhos tão arregalados, como posso guardar mentira aqui? Eu posso cantar pra você, eu posso te segurar, eu posso ficar aqui até você conseguir. Eu não sei. Tá perto. Vai. Solta da borda. Eu sei, você já foi parar no fundo. Mas agora é diferente. Tá mais raso. E eu tô aqui. Eu vim do outro lado do oceano. Eu vim só por sua causa. Vem, larga da borda. Pode vir. Eu vi você como você é e é por isso que estou aqui. Confia. Não sei. Pode vir. Não tem mais ninguém. A borda é para os peixes pequenos. Solta, isso, relaxa a cabeça no meu peito. Não tem fundo mas eu te ajudo a flutuar. Você pode. Calma. Afoga um pouco no começo, cansa, desespera. Mas você quer como eu quero? Quero. Então eu te ajudo. Vem. Isso. Segura em mim. Paz. Azul. Agora, você está quase conseguindo. Falta só metade. Você está quase chegando, mas eu vou decepar a sua cabeça pra usar de bóia. Eu também não sei nadar.
Para quem sabe do amor.
Não sei se escrevo. Fico nesse dilema de transformar todo o meu sentimento em palavras, porque se começar a digitar, a possibilidade de não conseguir parar, é grande. E agora tudo descoberto, porque eu quis, e achei mais correto, como já disse em outros dias, quem sabe você venha a ler. E eu posso me arrepender do que falo. Assim como, posso me orgulhar. Face de dois gumes, o que faço de melhor nessa vida, é passar o que sinto pro papel
terça-feira, 25 de maio de 2010
A coisa mais triste que aconteceu em minha vida.
O mundo vê um passinho pra trás. Mas em algum lugar do cosmos, ouve-se um caminhão da Granero frear. Um barulho imenso, desengonçado, batem atrás, cercas arrancadas, quase cai no fim do mundo, móveis baratos despedaçados pela cidade.
O tempo todo me dizendo menos. Menos. Pra aguentar, por favor. Pra ter alguma coisa, qualquer coisa. Duas semanas. Um mês. Menos. Menos dor, menos amor, menos ódio, menos vontade de fazer cortar. De sangrar pra fora pra poder ser menos. Por favor.
Sorria como o cara da mesa ao lado, alongue um pouco o pescoço. Seu olhar está perdido porque pra poder estar naquela mesa ele foi matando pouco a pouco sua ferocidade. Mas ele toma chá e sorri. E você? Você mais uma vez vai voltar cheio de razão e sozinho. Cheio de tudo que não esquenta o pé. Cheio das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando “ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance”.
O tempo todo maquiando o caminhão, para que pareça uma minivan ou qualquer coisa tão desengonçada e apressada quanto, mas mais cabível. Que possa estar na estrada que todo mundo está parado, o eterno trânsito de chegar nesse lugar que a gente acha que é o único porque estão todos lá.
E no meu ouvido, o tempo todo soprando. Esqueça isso, você não cabe, você não combina, a estrada não é feita pra você, você só pesa nela, só atrapalha, só é feio e odiado. É isso, não se desvira caminhão. Se é e pronto. Solitário demais, terrível demais. Mas pro outro lado, está vazio. Tem espaço pra você. A dor de virar um carro família, um carro esporte, um carro compacto. Não aguento mais, não aguento mais querer me refilar, não aguento mais querer mudar a química do meu cérebro, não aguento mais pedir perdão. Não, caminhão, tantos anos tentando, não, você não pode, não consegue, é assim. Do outro lado, uma estrada imensa. O caminho claro, bonito e sem buracos, dos que desistem.
Isso, mais uma vez, mas dessa sem voltar. Você não sabe amar, caminhão. Não pode. Não é feito pra você. Dê meia volta, por favor, sem atropelar, sem matar, sem cair, sem levar ninguém. Na tristeza dura de quem tem tanto tamanho mas não tem força pra suportar. De quem tem tanto tamanho e não consegue por medo em ninguém. De quem precisa tanto de abraço mas é grande demais pra sentir os braços em volta. De quem poderia estraçalhar os carros família mas só sente o peso insuportável de ser minúsculo perto deles.
Claustrofobia, pânico, insuportável. E então, o som, mais uma vez, puxar o freio, largar a mão, dar meia volta. Tchau, meu amor. Olhe quantos carros pequenos. Não queira mais saber dessa grossura destrambelhada que só leva mudanças porque ir embora parece um lugar com mais ar. Se você não pode ver meu coração de carruagem, ou sei lá que carro poético poderíamos imaginar agora, eu também não quero mais ser nenhuma outra coisa.
De todo mundo que eu vi de costas, partindo, foi a vez que mais doeu. Talvez porque um pouco antes, quando eu ainda amava sua nuca e sua eterna mochila nas costas como amei poucas coisas na vida, você se virou, apontou o dedo pra mim, e gritou, com pouco ou nenhum carinho: você é um caminhão! Caminhão! Caminhão!
E eu sei, e eu tentei mais do que nunca, e eu quis mais do que nunca. E eu achei que os caminhões também pudessem ter donos e direções e medalinhas. Você também me usou pra levar sua mudança e voltar vazia das suas coisas é a coisa mais triste que já aconteceu na minha vida.
O tempo todo me dizendo menos. Menos. Pra aguentar, por favor. Pra ter alguma coisa, qualquer coisa. Duas semanas. Um mês. Menos. Menos dor, menos amor, menos ódio, menos vontade de fazer cortar. De sangrar pra fora pra poder ser menos. Por favor.
Sorria como o cara da mesa ao lado, alongue um pouco o pescoço. Seu olhar está perdido porque pra poder estar naquela mesa ele foi matando pouco a pouco sua ferocidade. Mas ele toma chá e sorri. E você? Você mais uma vez vai voltar cheio de razão e sozinho. Cheio de tudo que não esquenta o pé. Cheio das facas enfincadas em volta do coração. Mas pensando “ainda falta o centro, ainda posso dar mais uma chance”.
O tempo todo maquiando o caminhão, para que pareça uma minivan ou qualquer coisa tão desengonçada e apressada quanto, mas mais cabível. Que possa estar na estrada que todo mundo está parado, o eterno trânsito de chegar nesse lugar que a gente acha que é o único porque estão todos lá.
E no meu ouvido, o tempo todo soprando. Esqueça isso, você não cabe, você não combina, a estrada não é feita pra você, você só pesa nela, só atrapalha, só é feio e odiado. É isso, não se desvira caminhão. Se é e pronto. Solitário demais, terrível demais. Mas pro outro lado, está vazio. Tem espaço pra você. A dor de virar um carro família, um carro esporte, um carro compacto. Não aguento mais, não aguento mais querer me refilar, não aguento mais querer mudar a química do meu cérebro, não aguento mais pedir perdão. Não, caminhão, tantos anos tentando, não, você não pode, não consegue, é assim. Do outro lado, uma estrada imensa. O caminho claro, bonito e sem buracos, dos que desistem.
Isso, mais uma vez, mas dessa sem voltar. Você não sabe amar, caminhão. Não pode. Não é feito pra você. Dê meia volta, por favor, sem atropelar, sem matar, sem cair, sem levar ninguém. Na tristeza dura de quem tem tanto tamanho mas não tem força pra suportar. De quem tem tanto tamanho e não consegue por medo em ninguém. De quem precisa tanto de abraço mas é grande demais pra sentir os braços em volta. De quem poderia estraçalhar os carros família mas só sente o peso insuportável de ser minúsculo perto deles.
Claustrofobia, pânico, insuportável. E então, o som, mais uma vez, puxar o freio, largar a mão, dar meia volta. Tchau, meu amor. Olhe quantos carros pequenos. Não queira mais saber dessa grossura destrambelhada que só leva mudanças porque ir embora parece um lugar com mais ar. Se você não pode ver meu coração de carruagem, ou sei lá que carro poético poderíamos imaginar agora, eu também não quero mais ser nenhuma outra coisa.
De todo mundo que eu vi de costas, partindo, foi a vez que mais doeu. Talvez porque um pouco antes, quando eu ainda amava sua nuca e sua eterna mochila nas costas como amei poucas coisas na vida, você se virou, apontou o dedo pra mim, e gritou, com pouco ou nenhum carinho: você é um caminhão! Caminhão! Caminhão!
E eu sei, e eu tentei mais do que nunca, e eu quis mais do que nunca. E eu achei que os caminhões também pudessem ter donos e direções e medalinhas. Você também me usou pra levar sua mudança e voltar vazia das suas coisas é a coisa mais triste que já aconteceu na minha vida.
sábado, 22 de maio de 2010
E se eu precisar ir embora,onde é?
Quando eu era criança, no meio da noite, às vezes eu escutava um sopro bem dentro da minha cabeça. Vai me dar a bobeira, eu pensava. E a bobeira dava. E eu ficava sem saber se a bobeira já tinha dado (e por isso eu pensava nela) ou se eu pensava na bobeira e ela dava. Eu mandava na bobeira ou ela mandava em mim? Se eu mandava nela, como obedecia?
Ter a bobeira era a pior coisa do mundo, mas era também uma honra. Eu lembro direitinho de olhar as outras crianças -e eu sempre lembro delas descalças e comendo cachorros quentes e dormindo suadas- e pensar: elas não têm medo da bobeira porque são bobas. Não entendem como é louco isso tudo aqui. Caramba, pense bem. É bem louco, não é? E pronto. Eu começava a tremer e queria vomitar e tinha certeza que não saberia viver. Eu nunca saberia viver. Nunca. Crianças só precisam pedir pros pais, não é? Como se vive, mãe? Tá, agora já posso ir brincar? Mas eu não, eu realmente pensava 24 horas por dia nisso. Em não saber viver. Se criança eu não conseguia, imagine adulto. Adulto ainda precisa cuidar dos outros. Mas como? Eu nunca vou conseguir. Mas passava, tinha prova, tinha cansaço, tinha filme. E isso era viver e saber, mas eu não me dava conta. Nem hoje, se bobear. Dali a pouco, voltava. Eu passei mais de 60% dos segundos da minha vida assustado. Muito assustado. Mas rindo, mas fazendo todo mundo rir. E por dentro, um poodlezinho com medo da tosa. Fofo e fresco. E afiando dentes na madrugada caso me tirassem os pêlos bem no inverno. Você precisa ser menos agressivo, poodle. Ah é? E quem me garante então que não vão me arrancar os pêlos bem no inverno?
Eu posso explicar melhor agora que sou adulto. Apesar de continuar com o mesmo medo e com o mesmo respeito pela bobeira. Não, o mesmo medo não. Eu já sei que sei viver. Com ela. Não com medo dela chegar ou com medo dela ficar pra sempre. Mas com ela, sendo ela, sendo a bobeira, sendo o tremor, sendo o enjoo, sendo minha vontade de sempre ir embora. Mesmo ficando porque a gente ficou, pense bem. Não tamo aqui? Eu posso explicar melhor. Se depois do orgasmo você precisa de uns minutos abraçado, pro mundo não virar a coisa mais absurda do mundo e você ser engolido pelo buraco negro no asfalto (eu sempre sonho isso). Depois da bobeira você precisa é de um útero. Porque ela é o orgasmo do mal. É o prazer que não se pode ter porque não te coloca no mundo, te tira. Não te aproxima de aconchego alheio, mas do inferno próprio. E o que é isso? Tentei algumas vezes. Para psiquiatras, analistas, neurologistas. É tipo assim ó: de repente, eu preciso ir embora, entende? Rápido, correndo. Por que o quê? Como assim? Porque eu morro, sei lá. O supermercado é terrível. Se você pensar bem, a obrigação das duas horas de um filme, pode ser terrível. E sentar retinho na cadeira do restaurante pra fazer alguém gostar de você? E o nariz, a gente tem nariz, entende? Cara, somos meio alaranjados e temos nariz. Nariz é estranho de doer, não é? E você beija uma pessoa, dai você lambe uma pessoa, dai essa pessoa dorme com você e, dali uns meses, o quê? Não sei, sumiu. Sumi. E segue-se.
Mas aí começou a piorar muito. Tipo todo mundo se divertindo na sala, e eu pensando: duas quadras, três quadras, casa. Eu aguento. Eu posso aguentar. Duas quadras, três quadras, casa. Tem mato, tem árvore, tem passarinho, tem filme 3D, tem passagem pro mundo inteiro, tem elevador com dezenas de pessoas que conseguiram tomar café da manhã, tem suco de laranja, tem nariz, somos alaranjados. Duas quadras, casa. Eu aguento. Eu só preciso colocar isso aqui embaixo da língua. E mais um porque tá demorando. Talvez mais meio, porque tô cansando. E pronto. Só daqui 12 horas abrir os olhos e pensar como tudo fora do quadrado da minha cama me dá pavor.
Daí comecei mesmo a piorar. Tipo: padaria você consegue, vai! A bobeira, que muitos chamam de síndrome do pânico, é como sofrer um acidente e perder os movimentos da perna. Seu cérebro está aleijado. Não adianta correr meia maratona. Não adianta pegar um avião pra Nova Iorque. É padaria mesmo. Aos poucos. Ir à padaria é como fazer fisioterapia pra perna acidentada. Um dia a padaria do bairro, outro a padaria do outro bairro. E pronto. Você consegue ficar na sala com as pessoas sem pensar: duas quadras, três quadras, casa.
Agora tomo um remédio de manhã. Que engulo como se fosse uma vitamina meiga que a natureza fez brotar pra mim de uma frondosa árvore outonal. Nem sei o que tô escrevendo, mas sei que não me parece química, de verdade. As pessoas falam pra mim “larga essa merda”. Segurando seus copos de bebida, seus cigarrinhos de mato, seus vícios todos, suas manias, suas madrugadas fritas, seus dias fazendo de conta que não é assim, seus Ipods, phones, pads. Quem é que larga essa merda? Que merda? A vida. A bobeira? Não largamos, nunca. Vamos como der. Algumas vezes de muletas, algumas vezes mutilados, algumas vezes sem nem poder tocar direito o chão. Mas vamos. Mais perto. Primeiro até a padaria. Mas falta pouco, muito pouco, para padarias na China, pois estou melhor. Mesmo. Ainda procuro sentar perto das saídas. Ainda suo um pouco frio pra viajar sozinho. Ainda pergunto, sempre, aliás: e se eu precisar ir embora, onde é? Mas melhor, bem melhor. Já até como na padaria.
Eu senti meu cérebro romper. E toda vez que penso nisso, eu choro um pouco. Porque, cara, eu sempre achei que a bobeira mandasse em mim. Que minha mente, essa filha da puta, mandasse em mim. A soberana. Mas no dia que eu senti, de verdade, formigar pra todo lado. E algo que não era o poodle afiado disfarçado. Não era ninguém além disso. Eu fui lá e falei, olha, cara, eu quero um remédio aí pra ansiedade porque, na boa, eu preciso de ajuda. De verdade. Nesse dia eu vi que a mente é como a perna. O joelho estraga se você fizer os exercícios errados. E fritar é foder o joelho do cérebro. E se o cérebro é só um joelho, então o quê?
Nada. É isso. Um dia, você descobre e está salvo. Nada. Viver é só esse mistério mesmo. Não tente respirar mais rápido que o mistério pra tentar chegar antes dele. Respire passos pra trás da vida e isso é só o que dá pra fazer. Ela ganha e ponto final. Ela ganha, mas a gente se diverte pacas com isso. É tipo estar numa festa linda, você conhece alguém pra amar, você pula meio de pileque na piscina, você nunca se esquece. Mas a festa era de outra pessoa que, gentilmente, te convidou. Não tente roubar sua casa, sua comemoração grandiosa. Apenas bata palmas na hora do parabéns e aceite o convite da vida.
Não dá pra entender nada. Mas é isso. Temos um nariz, somos alaranjados. Com calma, que agora consigo ter (por causa do remédio, sim, mas também porque precisei ter medo de supermercado pra não ter medo de super qualquer coisa). Com calma, você repara. E não é ruim. Com calma, não se vê lá fora o assustador borrado da velocidade. Se vê como é. E não é tão feio. E até o feio, tem seu valor. É só isso. A vida. Com calma. Mil quadras,e três mil quadras de casa. Só a vida. Uma linda e magnífica bobeira.
Ter a bobeira era a pior coisa do mundo, mas era também uma honra. Eu lembro direitinho de olhar as outras crianças -e eu sempre lembro delas descalças e comendo cachorros quentes e dormindo suadas- e pensar: elas não têm medo da bobeira porque são bobas. Não entendem como é louco isso tudo aqui. Caramba, pense bem. É bem louco, não é? E pronto. Eu começava a tremer e queria vomitar e tinha certeza que não saberia viver. Eu nunca saberia viver. Nunca. Crianças só precisam pedir pros pais, não é? Como se vive, mãe? Tá, agora já posso ir brincar? Mas eu não, eu realmente pensava 24 horas por dia nisso. Em não saber viver. Se criança eu não conseguia, imagine adulto. Adulto ainda precisa cuidar dos outros. Mas como? Eu nunca vou conseguir. Mas passava, tinha prova, tinha cansaço, tinha filme. E isso era viver e saber, mas eu não me dava conta. Nem hoje, se bobear. Dali a pouco, voltava. Eu passei mais de 60% dos segundos da minha vida assustado. Muito assustado. Mas rindo, mas fazendo todo mundo rir. E por dentro, um poodlezinho com medo da tosa. Fofo e fresco. E afiando dentes na madrugada caso me tirassem os pêlos bem no inverno. Você precisa ser menos agressivo, poodle. Ah é? E quem me garante então que não vão me arrancar os pêlos bem no inverno?
Eu posso explicar melhor agora que sou adulto. Apesar de continuar com o mesmo medo e com o mesmo respeito pela bobeira. Não, o mesmo medo não. Eu já sei que sei viver. Com ela. Não com medo dela chegar ou com medo dela ficar pra sempre. Mas com ela, sendo ela, sendo a bobeira, sendo o tremor, sendo o enjoo, sendo minha vontade de sempre ir embora. Mesmo ficando porque a gente ficou, pense bem. Não tamo aqui? Eu posso explicar melhor. Se depois do orgasmo você precisa de uns minutos abraçado, pro mundo não virar a coisa mais absurda do mundo e você ser engolido pelo buraco negro no asfalto (eu sempre sonho isso). Depois da bobeira você precisa é de um útero. Porque ela é o orgasmo do mal. É o prazer que não se pode ter porque não te coloca no mundo, te tira. Não te aproxima de aconchego alheio, mas do inferno próprio. E o que é isso? Tentei algumas vezes. Para psiquiatras, analistas, neurologistas. É tipo assim ó: de repente, eu preciso ir embora, entende? Rápido, correndo. Por que o quê? Como assim? Porque eu morro, sei lá. O supermercado é terrível. Se você pensar bem, a obrigação das duas horas de um filme, pode ser terrível. E sentar retinho na cadeira do restaurante pra fazer alguém gostar de você? E o nariz, a gente tem nariz, entende? Cara, somos meio alaranjados e temos nariz. Nariz é estranho de doer, não é? E você beija uma pessoa, dai você lambe uma pessoa, dai essa pessoa dorme com você e, dali uns meses, o quê? Não sei, sumiu. Sumi. E segue-se.
Mas aí começou a piorar muito. Tipo todo mundo se divertindo na sala, e eu pensando: duas quadras, três quadras, casa. Eu aguento. Eu posso aguentar. Duas quadras, três quadras, casa. Tem mato, tem árvore, tem passarinho, tem filme 3D, tem passagem pro mundo inteiro, tem elevador com dezenas de pessoas que conseguiram tomar café da manhã, tem suco de laranja, tem nariz, somos alaranjados. Duas quadras, casa. Eu aguento. Eu só preciso colocar isso aqui embaixo da língua. E mais um porque tá demorando. Talvez mais meio, porque tô cansando. E pronto. Só daqui 12 horas abrir os olhos e pensar como tudo fora do quadrado da minha cama me dá pavor.
Daí comecei mesmo a piorar. Tipo: padaria você consegue, vai! A bobeira, que muitos chamam de síndrome do pânico, é como sofrer um acidente e perder os movimentos da perna. Seu cérebro está aleijado. Não adianta correr meia maratona. Não adianta pegar um avião pra Nova Iorque. É padaria mesmo. Aos poucos. Ir à padaria é como fazer fisioterapia pra perna acidentada. Um dia a padaria do bairro, outro a padaria do outro bairro. E pronto. Você consegue ficar na sala com as pessoas sem pensar: duas quadras, três quadras, casa.
Agora tomo um remédio de manhã. Que engulo como se fosse uma vitamina meiga que a natureza fez brotar pra mim de uma frondosa árvore outonal. Nem sei o que tô escrevendo, mas sei que não me parece química, de verdade. As pessoas falam pra mim “larga essa merda”. Segurando seus copos de bebida, seus cigarrinhos de mato, seus vícios todos, suas manias, suas madrugadas fritas, seus dias fazendo de conta que não é assim, seus Ipods, phones, pads. Quem é que larga essa merda? Que merda? A vida. A bobeira? Não largamos, nunca. Vamos como der. Algumas vezes de muletas, algumas vezes mutilados, algumas vezes sem nem poder tocar direito o chão. Mas vamos. Mais perto. Primeiro até a padaria. Mas falta pouco, muito pouco, para padarias na China, pois estou melhor. Mesmo. Ainda procuro sentar perto das saídas. Ainda suo um pouco frio pra viajar sozinho. Ainda pergunto, sempre, aliás: e se eu precisar ir embora, onde é? Mas melhor, bem melhor. Já até como na padaria.
Eu senti meu cérebro romper. E toda vez que penso nisso, eu choro um pouco. Porque, cara, eu sempre achei que a bobeira mandasse em mim. Que minha mente, essa filha da puta, mandasse em mim. A soberana. Mas no dia que eu senti, de verdade, formigar pra todo lado. E algo que não era o poodle afiado disfarçado. Não era ninguém além disso. Eu fui lá e falei, olha, cara, eu quero um remédio aí pra ansiedade porque, na boa, eu preciso de ajuda. De verdade. Nesse dia eu vi que a mente é como a perna. O joelho estraga se você fizer os exercícios errados. E fritar é foder o joelho do cérebro. E se o cérebro é só um joelho, então o quê?
Nada. É isso. Um dia, você descobre e está salvo. Nada. Viver é só esse mistério mesmo. Não tente respirar mais rápido que o mistério pra tentar chegar antes dele. Respire passos pra trás da vida e isso é só o que dá pra fazer. Ela ganha e ponto final. Ela ganha, mas a gente se diverte pacas com isso. É tipo estar numa festa linda, você conhece alguém pra amar, você pula meio de pileque na piscina, você nunca se esquece. Mas a festa era de outra pessoa que, gentilmente, te convidou. Não tente roubar sua casa, sua comemoração grandiosa. Apenas bata palmas na hora do parabéns e aceite o convite da vida.
Não dá pra entender nada. Mas é isso. Temos um nariz, somos alaranjados. Com calma, que agora consigo ter (por causa do remédio, sim, mas também porque precisei ter medo de supermercado pra não ter medo de super qualquer coisa). Com calma, você repara. E não é ruim. Com calma, não se vê lá fora o assustador borrado da velocidade. Se vê como é. E não é tão feio. E até o feio, tem seu valor. É só isso. A vida. Com calma. Mil quadras,e três mil quadras de casa. Só a vida. Uma linda e magnífica bobeira.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Tédio;
Minha vida ´´tá´´ chata pra cacete. Eu passo mais de 12 horas estudando e trabalhando,mais de duas horas na academia,mais de seis horas pra pegar no sono e não sobra nada para acalmar as súplicas das minhas células por uma vida menos meia-boca. Eu sigo a risca a dieta do nutricionista para ganhar músculos e não ganho nada,os exercícios do personal( sim eu escrevi isto só pra dizer que faço personal) Para engordar e não parecer sempre esse palito.Eu cumpro horários,eu cumpro prazos,eu cumpro regras de sobrevivência para não mandar á merda as pessoas do meu serviço.Eu cumpro regras de educação para não dizer todas as merdas que me vêm a cabeça quando sou obrigado a conviver com pessoas burras,e por falar em merda:até meu intestino está funcionando na hora certa.
Puta vida chata!Minha vida tá um Nuty de banana,sabe?Uma esteira de academia? Um homem que te chama pra jantar em restaurantes a luz de velas e ainda escuta cd de novela? Minha vida tá meia-boca pra cacete.Você também precisa de um motivo para levantar da cama de manhã? Não que eu seja depressivo e tenha dificuldade para levantar da cama,não é isto.Eu estou falando de LEVANTAR da cama,da aquele pulo de ´´bora lá para mais um dia fantástico! Você também precisa d de um? Pois é,eu dedico dez minutos da minha manhã procurando um e o único motivo que vem a minha cabeça é ``Levanta logo porque,se a vida tá chata,imagina sem tudo isto´´.
Antes era tão fácil ,eu levantava por que tinha uma festa,cheia de homens pseudo-politizados sustentados pelos pais com camisetas do Che Guevara.Eu levantava porque tinha cervejada com os amigos deslumbrados pela vida que prometia tantas coisas. eu levantava porque o gatinho da balada(que não sabia nem falar mas estava fumando) tinha prometido ligar.Eu levantava por que ainda trabalhava três vezes na semana,e ser designer me dava um puta tesão,designers me davam um puta tesão e o sonho de ser contratado por uma grande agência era um orgasmo.
Hoje acho que festinhas e garotos de baladas um porre,e meu tesão por designers brochou sem esperança para um viagra.
Designers em geral são chatos inseguros,metidos,frequentam sempre os mesmos lugares,falam sempre as mesmas coisas e acham que careca e barriga não importam já que eles tem uma conta cheia no banco,mas na verdade são brochas de tanto trabalhar.Designer principalmente de joias é só mais uma profissão com tudo que uma profissão tem de chata,com o agravante de ter criativos que se acham geniais e atendimentos que soltam o tempo todo frases em inglês.
Enfim, me perdi no meu veneno;voltando ao assunto:minha vida tá chata,pra cacete.Eu conheço pessoas aqui e ali,mas ninguém me emociona,e quando me emocionam se mostra ´´losers´´ semanas depois(Olha eu dizendo como meus colegas atendimentos).Minhas amigas em geral continuam arrastando seus namoros sem emoção,e as que juram viver uma vida de emoção vivem bêbadas. Meus heróis morreram de overdose:overdose de trabalho,overdose de família,overdose de vida adulta,overdose de ir empurrando com a barriga.Onde está a diversão?
Olha eu tenho procurado por ela.Eu não tenho estado,estando-desistindo (só para citar mais uma vez meus amigos atendimento e seus gerúndios)Ela não está nas baladas com suas garotinhas e garotinhos em série:uma edição sem cérebro.Ela não está naquele bairro que todo mundo vai,ainda que não tenha desistido despretensiosamente de ser feliz num barzinho despretensioso.Ela não está nos três filmes aos quais assisto por semana para fujir da minha realidade.Ela definitivamente não está em meus ex-casos,ex-namorados e ex-paqueras,às vezes eu acho que ela está por ai,na praia ou numa trepadinha sem maiores danos. Mas aí ela escapa como areia nas minhas mãos assim que enjôo do cd,do calor,da falta de amor ou acabo um livro.Ela não está na minha casa,nas minhas roupas novas,no meu novo emprego,no meu salário.E se você vier com aquele papo de que está em mim eu vou te dizer que chupar o título do Freud não vale.Ter alguma conciência,alguma idade e alguma experiência me tornaram exigente.E eu que gostava da diversão em diversidade fiquei com pouquíssimas opções.Fiquei chato.Enfim,sei lá.Vai ver essa coisa de diversão e felicidade é uma eterna busca mesmo.E vai que é por isso que a gente continua levantando da cama.
Puta vida chata!Minha vida tá um Nuty de banana,sabe?Uma esteira de academia? Um homem que te chama pra jantar em restaurantes a luz de velas e ainda escuta cd de novela? Minha vida tá meia-boca pra cacete.Você também precisa de um motivo para levantar da cama de manhã? Não que eu seja depressivo e tenha dificuldade para levantar da cama,não é isto.Eu estou falando de LEVANTAR da cama,da aquele pulo de ´´bora lá para mais um dia fantástico! Você também precisa d de um? Pois é,eu dedico dez minutos da minha manhã procurando um e o único motivo que vem a minha cabeça é ``Levanta logo porque,se a vida tá chata,imagina sem tudo isto´´.
Antes era tão fácil ,eu levantava por que tinha uma festa,cheia de homens pseudo-politizados sustentados pelos pais com camisetas do Che Guevara.Eu levantava porque tinha cervejada com os amigos deslumbrados pela vida que prometia tantas coisas. eu levantava porque o gatinho da balada(que não sabia nem falar mas estava fumando) tinha prometido ligar.Eu levantava por que ainda trabalhava três vezes na semana,e ser designer me dava um puta tesão,designers me davam um puta tesão e o sonho de ser contratado por uma grande agência era um orgasmo.
Hoje acho que festinhas e garotos de baladas um porre,e meu tesão por designers brochou sem esperança para um viagra.
Designers em geral são chatos inseguros,metidos,frequentam sempre os mesmos lugares,falam sempre as mesmas coisas e acham que careca e barriga não importam já que eles tem uma conta cheia no banco,mas na verdade são brochas de tanto trabalhar.Designer principalmente de joias é só mais uma profissão com tudo que uma profissão tem de chata,com o agravante de ter criativos que se acham geniais e atendimentos que soltam o tempo todo frases em inglês.
Enfim, me perdi no meu veneno;voltando ao assunto:minha vida tá chata,pra cacete.Eu conheço pessoas aqui e ali,mas ninguém me emociona,e quando me emocionam se mostra ´´losers´´ semanas depois(Olha eu dizendo como meus colegas atendimentos).Minhas amigas em geral continuam arrastando seus namoros sem emoção,e as que juram viver uma vida de emoção vivem bêbadas. Meus heróis morreram de overdose:overdose de trabalho,overdose de família,overdose de vida adulta,overdose de ir empurrando com a barriga.Onde está a diversão?
Olha eu tenho procurado por ela.Eu não tenho estado,estando-desistindo (só para citar mais uma vez meus amigos atendimento e seus gerúndios)Ela não está nas baladas com suas garotinhas e garotinhos em série:uma edição sem cérebro.Ela não está naquele bairro que todo mundo vai,ainda que não tenha desistido despretensiosamente de ser feliz num barzinho despretensioso.Ela não está nos três filmes aos quais assisto por semana para fujir da minha realidade.Ela definitivamente não está em meus ex-casos,ex-namorados e ex-paqueras,às vezes eu acho que ela está por ai,na praia ou numa trepadinha sem maiores danos. Mas aí ela escapa como areia nas minhas mãos assim que enjôo do cd,do calor,da falta de amor ou acabo um livro.Ela não está na minha casa,nas minhas roupas novas,no meu novo emprego,no meu salário.E se você vier com aquele papo de que está em mim eu vou te dizer que chupar o título do Freud não vale.Ter alguma conciência,alguma idade e alguma experiência me tornaram exigente.E eu que gostava da diversão em diversidade fiquei com pouquíssimas opções.Fiquei chato.Enfim,sei lá.Vai ver essa coisa de diversão e felicidade é uma eterna busca mesmo.E vai que é por isso que a gente continua levantando da cama.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Os três.
A Laika, minha cachorra brava, infantil e introspectiva, acabou de derrubar todas as almofadas do sofá da sala. Ela olha pra mim com aquela cara de “eu mando nessa porra” e eu deixo, porque ela manda mesmo: um ser tão fofo e irritado merece mandar nessa porra.
Todas as possibilidades de roupa para o jantar de ontem ainda estão jogadas em cima da minha cama, que eu não arrumei, e no chão tem dois enroladinhos de papel higiênico, sobras da luta para dormir mesmo com a rinite atacadíssima.
Shirley manson ainda canta gritando´´ you look so fine,i want break your heart,and give the mine,´´ e o chiado da antiga gravação deixa a sujeira da pia ainda mais perfeita, ainda mais exata, ainda mais com cara de estar no lugar certo.
Está sol e daqui a pouco, com cara de sono e poucos amigos, eu vou tomar sorvete de chocolate e dar uma caminhada aqui perto. Molhado e com medo de ficar com dor de ouvido, vou esquecer minhas manias lendo mais umas vinte páginas de “a entrevista com o vampiro”, livro que ganhei do meu melhor amigo, à pesar de já ter lido antes ainda o amo.
Meu melhor amigo essa hora está trabalhando, todo mundo está trabalhando, minha mãe está trabalhando, quase quero me sentir um irresponsável por isso, mas aí lembro que eu também estou trabalhando, e durmo mais um pouco entre crianças de férias, que insistem em me jogar grama na cara como se até elas me culpassem por eu estar ali, e suas babás de roupas e sonhos branquinhos.
shirley Manson, sempre forte, dócil e companheira, não me deixa mentir: ela é perfeita no que faz e eu nasci pra essa porra, assim como minha cachorra manda nessa porra. Assim seguimos, nós três. Uma que não dura mais de quinze anos, uma imortal, outro tentando ser. E isso me parece mais lógico do que qualquer sala bege com entrada para laptops, cafés mecânicos e cadeiras com rodinhas.
Daqui a pouco eu vou latir, Shirley vai tentar algumas divinas palavras que podem nunca serem ouvidas e a Laika vai chiar, como sempre.
Todas as possibilidades de roupa para o jantar de ontem ainda estão jogadas em cima da minha cama, que eu não arrumei, e no chão tem dois enroladinhos de papel higiênico, sobras da luta para dormir mesmo com a rinite atacadíssima.
Shirley manson ainda canta gritando´´ you look so fine,i want break your heart,and give the mine,´´ e o chiado da antiga gravação deixa a sujeira da pia ainda mais perfeita, ainda mais exata, ainda mais com cara de estar no lugar certo.
Está sol e daqui a pouco, com cara de sono e poucos amigos, eu vou tomar sorvete de chocolate e dar uma caminhada aqui perto. Molhado e com medo de ficar com dor de ouvido, vou esquecer minhas manias lendo mais umas vinte páginas de “a entrevista com o vampiro”, livro que ganhei do meu melhor amigo, à pesar de já ter lido antes ainda o amo.
Meu melhor amigo essa hora está trabalhando, todo mundo está trabalhando, minha mãe está trabalhando, quase quero me sentir um irresponsável por isso, mas aí lembro que eu também estou trabalhando, e durmo mais um pouco entre crianças de férias, que insistem em me jogar grama na cara como se até elas me culpassem por eu estar ali, e suas babás de roupas e sonhos branquinhos.
shirley Manson, sempre forte, dócil e companheira, não me deixa mentir: ela é perfeita no que faz e eu nasci pra essa porra, assim como minha cachorra manda nessa porra. Assim seguimos, nós três. Uma que não dura mais de quinze anos, uma imortal, outro tentando ser. E isso me parece mais lógico do que qualquer sala bege com entrada para laptops, cafés mecânicos e cadeiras com rodinhas.
Daqui a pouco eu vou latir, Shirley vai tentar algumas divinas palavras que podem nunca serem ouvidas e a Laika vai chiar, como sempre.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Procurando esperança.
Pra onde foi a minha inspiração? Cadê? Uma preguiça de acordar. Uma preguiça de tomar banho, escolher uma roupa, escolher entre bolo de chocolate e suco de laranja. Tudo parece ter o mesmo gosto falso de paliativos. De forte somente a preguiça de contar de tantas preguiças.
Da cartilha do sucesso, que manda estudar, amar o que se faz e se relacionar bem, apenas amei. Nem isso faço mais. Sou um péssimo aluno.
Tenho a impressão de ter chegado ao topo de uma montanha, mas ela era muito alta e afastada e ninguém me viu.
Em vez de sucesso sinto segundos desejáveis de suicídio, vontade de pular lá de cima da montanha com o dedo desejando um último foda-se ao mundo. Nem que seja para fazer barulho e sujar o chão dos equilibrados. Nem que seja para fazer falta.
Cadê o gosto intenso de fugir do mundo com um segredo fatal? Não existem segredos fatais: todo mundo come todo mundo por caça e infelicidade. Somos animais tristes e não seres loucos e apaixonados. Eu me enganei tanto com o ser humano que ando com preguiça de me entregar.
Ninguém tem coragem pra mudar nada, ou apenas é inteligente para saber que a rotina chega de um jeito ou de outro, não adianta se mover.
Pra quem faço falta e aonde me encaixo? Aonde sou útil e pra quem sou essencial? Pra onde vou e aonde descanso? Pra quem e por quem vivo?
Freud mexeu três vezes no túmulo com a vontade de me dizer que devo viver por mim. Dane-se a psicanálise: é muito mais gostoso ter outros encantamentos, além do umbigo.
Não que esses encantamentos não sejam para agradar meu umbigo. Ok, fiz as pazes com Freud, que deve achar o egoísta um pouco menos doente que o depressivo.
Ou não, não fiz as pazes com Freud, que acha tudo farinha do mesmo saco e nem está prestando atenção em mim. Ele é só mais um a não enxergar o alto da montanha, mesmo porque ele está embaixo da terra. Incluo Freud no meu "foda-se o mundo". Que papo é esse?
A esperança desesperada por amor e reconhecimento profissional deixou escapar a cansada esperança que se assustou de desespero.
Perdi meu deslumbramento, a válvula propulsora da vida que tive até aqui.
Cansei de me encantar pelo difícil. Que tal um homem e um salário de verdade pra viver uma vida de verdade? Chega da miséria do sonho.
Chega de idealizar uma vida com um fone no ouvido. Eu quero tocar, eu quero cair das nuvenzinhas acima da minha cabeça.
Junto com meu deslumbramento, perdi boa parte de quem eu era. Boa parte tão grande que não tenho para onde ir. Sou um sem-vida.
Junto com o meu deslumbramento, perdi o rumo: quem não sonha não sabe aonde quer chegar.
O sonho guia, leva longe. Mas de frustrado ele te faz retroceder alguns anos, te transforma em criança assustada. Sei disso quando durmo em posição fetal querendo ser devolvido ao quente da minha proteção primária. Freud volta a ser meu amigo.
Minha esperança é que o sonho esteja apenas cansado e depois de uma boa noite retorne colorido, musicado e perfumado. Eu disse a minha esperança? Então eu ainda tenho alguma? Nem tudo está perdido.
Estou deslumbrado com a vida, que te devolve à infância quando o mundo adulto atropela e fere. Lá na infância você se enche de sonhos e volta preparado para o mundo adulto, que se ocupa a frustrá-los todos novamente.
Eu disse que estou deslumbrado? Não, eu não disse, eu escrevi. Que papo é esse?
Entre idas e vindas me resumo feliz. Entre altos e baixos me resumo equilibrado. Sendo assim, tá na cara e não tem pane: ando meio mal mas vou sair dessa.
Da cartilha do sucesso, que manda estudar, amar o que se faz e se relacionar bem, apenas amei. Nem isso faço mais. Sou um péssimo aluno.
Tenho a impressão de ter chegado ao topo de uma montanha, mas ela era muito alta e afastada e ninguém me viu.
Em vez de sucesso sinto segundos desejáveis de suicídio, vontade de pular lá de cima da montanha com o dedo desejando um último foda-se ao mundo. Nem que seja para fazer barulho e sujar o chão dos equilibrados. Nem que seja para fazer falta.
Cadê o gosto intenso de fugir do mundo com um segredo fatal? Não existem segredos fatais: todo mundo come todo mundo por caça e infelicidade. Somos animais tristes e não seres loucos e apaixonados. Eu me enganei tanto com o ser humano que ando com preguiça de me entregar.
Ninguém tem coragem pra mudar nada, ou apenas é inteligente para saber que a rotina chega de um jeito ou de outro, não adianta se mover.
Pra quem faço falta e aonde me encaixo? Aonde sou útil e pra quem sou essencial? Pra onde vou e aonde descanso? Pra quem e por quem vivo?
Freud mexeu três vezes no túmulo com a vontade de me dizer que devo viver por mim. Dane-se a psicanálise: é muito mais gostoso ter outros encantamentos, além do umbigo.
Não que esses encantamentos não sejam para agradar meu umbigo. Ok, fiz as pazes com Freud, que deve achar o egoísta um pouco menos doente que o depressivo.
Ou não, não fiz as pazes com Freud, que acha tudo farinha do mesmo saco e nem está prestando atenção em mim. Ele é só mais um a não enxergar o alto da montanha, mesmo porque ele está embaixo da terra. Incluo Freud no meu "foda-se o mundo". Que papo é esse?
A esperança desesperada por amor e reconhecimento profissional deixou escapar a cansada esperança que se assustou de desespero.
Perdi meu deslumbramento, a válvula propulsora da vida que tive até aqui.
Cansei de me encantar pelo difícil. Que tal um homem e um salário de verdade pra viver uma vida de verdade? Chega da miséria do sonho.
Chega de idealizar uma vida com um fone no ouvido. Eu quero tocar, eu quero cair das nuvenzinhas acima da minha cabeça.
Junto com meu deslumbramento, perdi boa parte de quem eu era. Boa parte tão grande que não tenho para onde ir. Sou um sem-vida.
Junto com o meu deslumbramento, perdi o rumo: quem não sonha não sabe aonde quer chegar.
O sonho guia, leva longe. Mas de frustrado ele te faz retroceder alguns anos, te transforma em criança assustada. Sei disso quando durmo em posição fetal querendo ser devolvido ao quente da minha proteção primária. Freud volta a ser meu amigo.
Minha esperança é que o sonho esteja apenas cansado e depois de uma boa noite retorne colorido, musicado e perfumado. Eu disse a minha esperança? Então eu ainda tenho alguma? Nem tudo está perdido.
Estou deslumbrado com a vida, que te devolve à infância quando o mundo adulto atropela e fere. Lá na infância você se enche de sonhos e volta preparado para o mundo adulto, que se ocupa a frustrá-los todos novamente.
Eu disse que estou deslumbrado? Não, eu não disse, eu escrevi. Que papo é esse?
Entre idas e vindas me resumo feliz. Entre altos e baixos me resumo equilibrado. Sendo assim, tá na cara e não tem pane: ando meio mal mas vou sair dessa.
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