A Laika, minha cachorra brava, infantil e introspectiva, acabou de derrubar todas as almofadas do sofá da sala. Ela olha pra mim com aquela cara de “eu mando nessa porra” e eu deixo, porque ela manda mesmo: um ser tão fofo e irritado merece mandar nessa porra.
Todas as possibilidades de roupa para o jantar de ontem ainda estão jogadas em cima da minha cama, que eu não arrumei, e no chão tem dois enroladinhos de papel higiênico, sobras da luta para dormir mesmo com a rinite atacadíssima.
Shirley manson ainda canta gritando´´ you look so fine,i want break your heart,and give the mine,´´ e o chiado da antiga gravação deixa a sujeira da pia ainda mais perfeita, ainda mais exata, ainda mais com cara de estar no lugar certo.
Está sol e daqui a pouco, com cara de sono e poucos amigos, eu vou tomar sorvete de chocolate e dar uma caminhada aqui perto. Molhado e com medo de ficar com dor de ouvido, vou esquecer minhas manias lendo mais umas vinte páginas de “a entrevista com o vampiro”, livro que ganhei do meu melhor amigo, à pesar de já ter lido antes ainda o amo.
Meu melhor amigo essa hora está trabalhando, todo mundo está trabalhando, minha mãe está trabalhando, quase quero me sentir um irresponsável por isso, mas aí lembro que eu também estou trabalhando, e durmo mais um pouco entre crianças de férias, que insistem em me jogar grama na cara como se até elas me culpassem por eu estar ali, e suas babás de roupas e sonhos branquinhos.
shirley Manson, sempre forte, dócil e companheira, não me deixa mentir: ela é perfeita no que faz e eu nasci pra essa porra, assim como minha cachorra manda nessa porra. Assim seguimos, nós três. Uma que não dura mais de quinze anos, uma imortal, outro tentando ser. E isso me parece mais lógico do que qualquer sala bege com entrada para laptops, cafés mecânicos e cadeiras com rodinhas.
Daqui a pouco eu vou latir, Shirley vai tentar algumas divinas palavras que podem nunca serem ouvidas e a Laika vai chiar, como sempre.