sábado, 26 de junho de 2010

Vazio

Fui em um prédio hoje. Tem um andar inteiro vazio. Parece comigo. Eu tenho um andar inteiro vazio. Os meus cinqüenta e oito andares estão vazios. Está tudo vazio. 
Eu queria avisar as pessoas que eu era a melhor instalação do centro. Veio ver o vazio? Olhe pra mim. Não tenho nada dentro de mim. Nada. Não tenho vontade nenhuma de lutar por você, mas também não tenho vontade nenhuma de não lutar. Não espero nada, mas também não espero outra coisa nenhuma. Eu não tenho nada. Eu perambulo por aí, atendendo meus 78 mil amigos e odiando ver o nome de cada um deles no visor do meu celular. Todos divertidos, leves, incríveis, amigos. E eu cagando um mundo pra toda essa merda. 
Aí no prédio fiquei sabendo que uma professora enlouqueceu e jogou umas fotografias lá pra baixo. Ninguém entendeu nada. Mas eu acho que entendi. O vazio dá desespero, cara. Dá um desespero filho da puta. 
O vazio dá um desespero silencioso. É como se o tempo jogado no lixo batesse sutil, num relógio esquecido em algum canto do quarto, que você só descobre quando está muito de madrugada e ao longe você escuta aquele tic,tac,tic,tac. Um batida que quase não existe. Você não sabe se é o tempo sendo contado pra você ou o seu coração contando você pro tempo. Um desespero sem cara de desespero. Mas que é desespero puro. A pior espécie dele. 
Aquele tobogã do prédio...que porra é aquela? Sofrer anda tão sem graça que mergulhar no vazio tem fila e casal de mãos dadas. 
Tem três seguranças no andar vazio do prédio. A vida anda tão sem graça que até o nada corre risco de ser roubado. Até porra nenhuma precisa de vigília. E eles com aquela cara brava, fechada. Uma cara familiar pra mim. Da pessoa que protege o nada como se fosse a única coisa que ainda restou. Um egoísmo em dividir o nada e ver ele virando alguma coisa. 
Ai que dor. Que dor. Que merda. Que lixo. O andar vazio do prédio tem cestos de lixos espalhados. A vida anda tão chata que nem o nada pode sujar. Eu queria ter gritado. Eu queria ter essa cara de pau. E ter berrado no meio do andar vazio do prédio. Um grito de nada. Pior é que eu berrei. Berrei com o pior tipo de desespero do mundo. Meu silêncio, meu conformismo, minha aceitação, minha quase maturidade. 
Eu tenho a impressão que a hora que eu chorar, vai ser das coisas mais tristes do mundo. Mais triste que aquelas crianças carentes correndo pelo vazio dos prédios. Mais triste que o sol frio entrando pelo vazio do prédio. Mais triste que a mulher tirando foto do marido descendo no tobogã do prédio. E aquela bandinha que fica embaixo do pão de queijo. E o velhinho com uma ave azul no ombro. Mais triste que os gringos tirando fotos com as crianças carentes correndo ao fundo do andar vazio do prédio. No vazio cabe um monte de coisa, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. A hora que eu chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. 

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um dia eu chego lá!

Tomo um remédio chamado Exodus. Um antidepressivo pra quem tem problema de pânico. Eu tenho problema de pânico. Por pânico entendo momentos em que tive a plena certeza de que iria desintegrar em praça pública, nú, e pessoas enviadas do inferno tirariam a minha pele com giletes podres para vender numa feira macabra. E eu estava apenas comprando pão na padaria ao lado de duas senhorinhas e uma criança. 
Sim, eu tenho esse problema. Não tenho orgulho, mas também não tenho vergonha. Só acho, confesso, que susto pela vida não dá em gente besta. E eu sou bem esquisito mas definitivamente não sou besta. E apesar de viver dizendo que não, gosto pacas de mim quando consigo. 
Não é sempre que a coisa dá, mas é como se fosse: o pânico é um eterno medo do primeiro pânico. Você passa inexplicavelmente mal (ou muito explicavelmente se quiser entender) uma vez e depois apenas convive com a certeza de que pode, uma vez que já pode, quase não morrer novamente. E de fato a coisa volta. E volta. E volta. E quando não volta, simplesmente está. Quem tem a coisa estranha, tem a coisa estranha sempre, a diferença é que quando estamos ou queremos estar bem, viver distrai. E pra mim, aprendi recentemente, viver é exatamente isso: se distrair do medo que dá pensar em viver.
Enfim, durante muito tempo não sai de casa sem minha cartelinha de Rivotril sublingual. Pra ir do quarto até a cozinha de casa eu levava uma no bolso. Mas as coisas melhoraram e eu simplesmente não tenho mais cartelinhas de Rivotril. Fiquei apenas com o Exodus, uma vez ao dia, 10 mg, depois do café da manhã. Há meses sem brigar com a mãe, sem brigar no trabalho, sem querer esfaquear mocinhos (a não ser quando eles realmente merecem), sem ter medo de velhinhas esquartejadoras na padaria da esquina. Não posso negar que o tal do Exodus me faz bem. Até a manhã de hoje, em que o danado do remédio simplesmente acabou sem o meu planejamento. 
Tudo bem, algo aparentemente fácil de resolver. Era só ligar pra psiquiatra e pedir uma receita. Ligo, ela atende, celular falhando: “não estou no Brasil”. Tudo bem, fácil de resolver, era só ligar pra minha amiga pediatra. Ligo, ela atende “eu tenho uma receita médica com dois peixinhos dando um beijo, tudo bem?” Acho que não. Melhor não, né? Sei lá, tomar um remédio com nome de disco do Bob Marley já é humilhação suficiente, não preciso de uma receita com peixinhos apaixonados. Nem aceitariam, acho. Tudo bem, fácil de resolver, eu tinha que ter tomado o remédio às duas da tarde e já são  nove e quinze da noite, mas o que não me falta é amigo doido. Ligo pro V. Você vai ao psiquiatra hoje? Ele fica puto “por quê? Você acha que eu deveria?”. Não, esse tá pior que eu. Tento o K. Você tem algum amigo médico? Ele fica puto “pôi, já te falei que se você quer um cara rico, mercado financeiro é muito melhor que hospital”. Não, eu quero uma receita, mas deixa pra lá. Tento um  ex namorado de mais de 3 anos atrás que trabalha num prédio com 45 psiquiatras, mas quando escuto a voz dele, começo logo a fazer piada nervosa e não me explico direito. Algo sobre uma receita, sobre um remédio, sobre o Bob Marley, sobre meu pau. Perai, me perdi um pouco. Ele não entende, mas ri, e eu preciso mais do que nunca do Exodus acalmando meu sangue. E agora? E agora? Tento minha mãe, mas o que minha mãe tem a ver com isso? Nada. Mas por via das dúvidas eu sempre tento a minha mãe. Tento minha analista. Ela não atende. O mal de não ser louco de verdade é que meu tratamento nunca é VIP. Eu sou só um esquisitinho mimado que esqueceu de pedir a receita do remédio. Mas nada disso importa, eu preciso do remédio e pronto. Pra sentir a falta da química enjoando meu sangue e dando vazio no centro da minha cabeça ainda demoram três dias, mas psicologicamente falando, já estou tonto e com o coração disparado. Se eu pagar mil reais, será que o farmacêutico me vende? 
Lembro de um conhecido neurologista, que me fala umas obscenidades de vez em quando. Me arruma uma receita, Fulano? Arrumo, mas você tem que vir pegar em casa, umas onze da noite. O Exodus tá valendo a prostituição? Não. Não tá. Então o quê? O quê? 
Às sete da noite, depois de tentar todas as ideias possíveis (inclusive, comprar uma caixa deixando minha carteira de identidade na farmácia até conseguir a receita com a minha psiquiatra na próxima terça-feira) já estou engolindo cinco litros de água por minuto e tremendo mais que dependente de drogas (ops!). Ligo então para uma clínica ortopédica que fica perto ao meu trabalho. Preciso ir aí agora, entende? Agora? Você fraturou alguma coisa? Sim, o cérebro. Preciso ir agora. O doutor Alê me recebe. Eu tenho vontade de abraçar o doutor Alê. Vou direto ao assunto: eu tenho lordose, escoliose, cifose e o dedão do meu pé pode ser seu mestrado em ossatura extraterrestre, mas eu vim mesmo porque preciso de uma receita de antidepressivo. É feio fazer isso, eu sei, mas muito mais feio é ter medo de gente na padaria, entende? Doutor Alê faz a receita pra mim, Exodus, 10 mg, duas caixas, me olha, sorri,e diz mentindo, amigo: “sabia que pra homem esse remédio funciona pra ejaculação precoce?” , doutor Alê, ansiedade é um gozo tão prematuro de felicidade que parece tristeza. Mas eu chego lá.

Tudo errado.

A primeira parte da primeira vez que fomos jantar foi um completo fracasso. Eu escolhi o restaurante, eu peguei ele em casa, eu paguei a maior parte da conta porque “você que inventou de pedir o vinho” e ele estava muito mal vestido e não tinha tomado banho depois de um dia inteiro de trabalho. Erro, erro, erro.Me vi andando na chuva até ele, que me aguardava dentro do carro tranquilamente embaixo de um toldo, tive a certeza: esse não serve nem pra amigo que você cumprimenta quando cruza na rua uma vez a cada quinze anos. 
Mas eu estava uns bons dias sem transar, sem o menor saco de conhecer gente nova, sem a menor cara de pau para ligar para um monte de gente e ele havia sido recomendado por amigas limpinhas “vai que é bom” e, por total falta de opção numa terça fria, deixei ele vir aqui em casa.
Na manhã seguinte, já éramos melhores amigos. Cantamos todas as músicas do Radiohead tão alto que a vizinha do lado resmungava pra eu ouvir. Fizemos campeonato de quem imitava melhor a dança epilética do Ian Curtis, falamos mal das meninas que usavam saltos muito altos nos domingos ensolarados, pulamos de alegria quando descobrimos que estávamos lendo o mesmo livro do Philiph Roth e ele instalou todos os aparatos eletroeletrônicos que, assim como eu, aguardavam alguém inteligente dentro de uma caixinha semi aberta. 
Ele foi embora se despedindo de mim com um beijo amigo e pela primeira vez na vida achei essa ideia ótima “ele está indo embora sem promessas de amor eterno e eu não estou sofrendo nem um pouco com isso”. 
Sem mensagenzinhas de carinho ou e-mails fofos, seis dias depois nos encontramos de novo para mais uma maratona de sexo sem amor, e assim ficamos por uma vida. Com intervalos para quando ele arrumava um namorado ou eu achava que arrumava um namorado. Era leve, divertido, gostoso e uma experiência incrível para a minha pessoa ciumenta: eu ajudava ele a paquerar em baladas e me divertia quando ele ligava na manhã seguinte “o mala do cara apaixonou, e agora?” E agora vamos no cinema mais tarde. E pronto. 
Esse mês ainda não havíamos nos encontrado. Ele porque arrumou um cara bem ao seu estilo (que escolhe restaurante que aceita Visa Vale, usa chinelos crocs e super se preocupa mesmo com aquelas passeatas dentro do prédio de sociais da UFMG) e eu porque estava tão apaixonado por outra pessoa que preferia deitar na cama sozinho, só com a voz dele do outro lado da linha, a milhões de quilômetros de mim. 
Ontem nos encontramos numa festa de um amigo em comum. Ele estressado, com o menino ciumento ligando no seu celular de meia em meia hora; e eu pelos cantos, suspirando por mais um amor perdido pelo excesso. 
Ficamos abraçados por horas. Meu coração não disparou e nem o dele. E só por isso o abraço durou tanto.