segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tudo errado.

A primeira parte da primeira vez que fomos jantar foi um completo fracasso. Eu escolhi o restaurante, eu peguei ele em casa, eu paguei a maior parte da conta porque “você que inventou de pedir o vinho” e ele estava muito mal vestido e não tinha tomado banho depois de um dia inteiro de trabalho. Erro, erro, erro.Me vi andando na chuva até ele, que me aguardava dentro do carro tranquilamente embaixo de um toldo, tive a certeza: esse não serve nem pra amigo que você cumprimenta quando cruza na rua uma vez a cada quinze anos. 
Mas eu estava uns bons dias sem transar, sem o menor saco de conhecer gente nova, sem a menor cara de pau para ligar para um monte de gente e ele havia sido recomendado por amigas limpinhas “vai que é bom” e, por total falta de opção numa terça fria, deixei ele vir aqui em casa.
Na manhã seguinte, já éramos melhores amigos. Cantamos todas as músicas do Radiohead tão alto que a vizinha do lado resmungava pra eu ouvir. Fizemos campeonato de quem imitava melhor a dança epilética do Ian Curtis, falamos mal das meninas que usavam saltos muito altos nos domingos ensolarados, pulamos de alegria quando descobrimos que estávamos lendo o mesmo livro do Philiph Roth e ele instalou todos os aparatos eletroeletrônicos que, assim como eu, aguardavam alguém inteligente dentro de uma caixinha semi aberta. 
Ele foi embora se despedindo de mim com um beijo amigo e pela primeira vez na vida achei essa ideia ótima “ele está indo embora sem promessas de amor eterno e eu não estou sofrendo nem um pouco com isso”. 
Sem mensagenzinhas de carinho ou e-mails fofos, seis dias depois nos encontramos de novo para mais uma maratona de sexo sem amor, e assim ficamos por uma vida. Com intervalos para quando ele arrumava um namorado ou eu achava que arrumava um namorado. Era leve, divertido, gostoso e uma experiência incrível para a minha pessoa ciumenta: eu ajudava ele a paquerar em baladas e me divertia quando ele ligava na manhã seguinte “o mala do cara apaixonou, e agora?” E agora vamos no cinema mais tarde. E pronto. 
Esse mês ainda não havíamos nos encontrado. Ele porque arrumou um cara bem ao seu estilo (que escolhe restaurante que aceita Visa Vale, usa chinelos crocs e super se preocupa mesmo com aquelas passeatas dentro do prédio de sociais da UFMG) e eu porque estava tão apaixonado por outra pessoa que preferia deitar na cama sozinho, só com a voz dele do outro lado da linha, a milhões de quilômetros de mim. 
Ontem nos encontramos numa festa de um amigo em comum. Ele estressado, com o menino ciumento ligando no seu celular de meia em meia hora; e eu pelos cantos, suspirando por mais um amor perdido pelo excesso. 
Ficamos abraçados por horas. Meu coração não disparou e nem o dele. E só por isso o abraço durou tanto.