quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Não me ame.


Não me sonhe, por favor. Pessoas que acham que podem me amar me ofendem. É sempre muito pouco o que elas podem e é sempre muito diferente do que deveria ser amor o que elas oferecem.
Eu custo a suportar a banalidade do meu ser. Eu custo a aceitar uma relação como a que qualquer um poderia ter. Eu seria mais feliz se eu não me achasse melhor do que o meu vizinho. Mas eu sou infinitamente melhor que ele. Eu e minhas crises de ansiedade somos seres solitários, arrogantes e multiplicados por megalomanias. São mil vezes cem anos de análise e nada. Eu continuo me achando melhor que o amor igual e idiota que se oferece por ai. Melhor do que os casais e seus dilemas de festas de finais de ano e seus sonhos de vestidos brancos e seus cachorros e sacadas de predinhos neoclássicos e planos médicos familiares. Chato, chato, chato.
É sempre nojento quando aparece alguém que quer tentar me amar. Sempre daquele jeito burocraticamente aos poucos e equilibrado e respeitado pela vida social e empresarial e natural e dentro da rotina dos humanos normais do planeta que precisam ir aos poucos porque a vida em sociedade empresarial e natural e tudo isso. E então eu tenho prazer de tornar a vida de todo mundo que se aproxima de mim, achando que pode me amar igual meu vizinho ama a minha vizinha, um inferno. É que, por completa infelicidade, eu sempre acho a minha grama infinitamente mais verde.
O certo, se é que existe o certo, era eu gostar de assistir ao ato da conquista sentado confortavelmente em uma soberba cadeira de rei. pessoas adoram gente que se permitem galantear e sorrir entregues para seus lampejeresos de semi genialidade. O problema é que eu quase sempre sou muito mais engraçado e rápido e semi genial que eles. E estou tão perto de virar um homem desses, que tenho preferido a minha masturbação a ter problemas para conviver com outro ser humano que, por experiência própria, só vai encher a porra do meu saco.
Não sei o nome de milhares de capitais de milhares de estados. A minha vida inteira tirei 10 só pra passar de ano. Leio muito, mas só por prazer.Tenho fobia de sair de Belo Horizonte. Ainda assim, quando um bom moço me oferece amor, me sinto ofendido. Porque é pouco e porque se parece com tudo a minha volta e porque, definitivamente, não tenho estômago pra ser meu vizinho.
Meu vizinho, que é absurdamente igual a todo mundo, é casado com uma mulher que poderia se passar por qualquer ser humano da terra. Eles vivem uma vida muito parecida com todas as outras. Uma parede me separa dessa realidade insuportável e eu os odeio por isso.
Enquanto isso, gosto bastante de rapazes que, numa festa, conversam de costas pra mim. Pessoas que pouco se importam com a minha existência me libertam de ser especial. Ou, melhor, de não ser esse pequeno e medíocre “especial” que é o máximo de especial que as pessoas podem sentir e dar e ter. Resumindo: me libertam de não ser especial
Se não me percebem não preciso entrar em contato com a dor suprema que é ser percebido de forma tediosa ou menor ou superficial ou igual todos se percebem e se têm e, por fim e rapidamente, não se suportam mais.
Sou imaturo, egocêntrico e debilmente iludido por uma auto-estima analgésica de efeito rebote. E dane-se. Um dia o meu amor verdadeiro chegará e será diferente de tudo isso e nós vamos chorar de emoção por ter valido a pena não sangrar até a morte nos insistentes e rotineiros momentos de angústia e nada e vazio e solidão e inconformismo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sobre as Luzes.

 Depois de tanto tempo sem nenhum motivo ou por um simples descuido meu,é que fui me lembrar de você,meu querido amigo,li uma ou outra coisa que você já me escreveu naqueles tempos em que nós nem sabíamos como era ser adulto,não sabíamos como isto poderia doer,era somente eu e você e um gramado bonitinho com vista para um por do sol que eu muitas vezes sonhador achava a coisa mais linda que alguém poderia ter para dividir.  O fato é que esse texto é sobre essa coisa crua que tudo virou, voltando as cartas eu ri sem medo de parecer idiota afinal elas estavam em seus lugares já há muito tempo guardadas junto com você,onde eu te guardei como o souvenir mais belo e dolorido que você realmente é.
   Dessa vez diferentemente não quero falar como estou agora,apesar de bem aonde estou e você assim espero muito bem aonde você está. Me desculpe mas foi inevitável me lembrar do quanto eu amava o seu sorriso, o quanto eu achava lindo seus cílios de boneca,o quanto eu te admirava aponto de te querer para mim,te amar era pesado,sofrido, doentio,mas era a única coisa que eu tinha para ser,e eu nunca me cansava de dizer imprudente ´´ amar você é tudo o que sou´´, e você ria meio torto dizendo que era a coisa mais linda que alguém poderia dizer. Olha eu nunca mais te vi e que bom pois só assim pude crescer o tanto que eu cresci sozinho. Aonde você estiver eu quero que você saiba que eu escrevo esse texto,já que você virou apenas uma história que eu gosto muito. Como você mesmo disse nossas luzes brilhantes se apagaram,de fato sem que nós pudéssemos fazer alguma coisa,eu nunca me dei conta de que a dor não era  protagonista apenas da minha vida ,o quanto fui cruel, injustificavelmente te machuquei e disse coisas,e gritei,só por que  achava que a minha dor poderia ser maior do que qualquer outra,me desculpe por não ter compartilhado e aceitado as suas mudanças,me desculpe por me colocar em primeiro lugar à frete de seus sentimentos, me desculpe por ter sido mesquinho e não ter te oferecido o melhor que você merecia,não ter aceitado de alguma forma que você não queria mais. Olha menino eu só quero que você saiba que as coisas boas ficaram,as ruins também,mas esse é um texto para te desejar sorte acima de tudo,eu espero que você tenha conquistado boas coisas,gritado alto,amado novamente,cumprido sua lista de objetivos anuais, e que esteja tudo certo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Aquela parte minha.

Eu te amo,isto não é nada,mas é tudo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Você


Volto com o pescoço alongado de tanto perseguir com queixos altivos a sua beleza. Um nem aí escravo. O estivador amendoado não é seguro mesmo dentro de tanta enlouquecedora beleza. Enquanto ele se move de um canto a outro da festa, como dezoito sobremesas de chocolate para não ajoelhar no meio do evento, na frente de todos, e abrir o zíper do estivador amendoado. Sinto espasmos de ataque percorrendo meu corpo. Cada centímetro de mim quer ter boca para degustar cada centímetro do estivador amendoado. Seu braço é uma coxa minha e isso me emociona mais do que cem garotos angelicais lendo Dostoievski em puro russo. Medi com uma língua imaginária seus ombros e na metade, próximo a nuca, acabava a minha saliva. Você é homem de exaurir pessoas e suas imensas porcentagens de água. Sua existência exige do mundo melhores peles, melhores líquidos, melhores pelos. Você constrange a humanidade só de respirar. O oxigênio volta mais agradecido sempre que pode entrar e sair do seu largo e desenhado peitoral. Mas o estivador amendoado, ainda mais bonito por não saber de tamanho poder, fica frágil e sente ataques de ansiedade. E desaparece. Vai tomar ar como se o ar já não estivesse louquinho de desejo para ser tomado por ele. Acha que é doença mas é a lua que implora para vê-lo novamente. É o céu que cansado de embrulhar tanta gente feia clama por sua existência ao ar livre. É o sol que exaurido de iluminar os erros humanos precisa ser ofuscado um pouco por outro astro. Sim, nada é mais brega do que observar o estivador pensando tantos elogios de botequim. Estivador vai até a sacada, fecha os olhos, lamenta algo. Não lamente mais, eu dedicaria cada segundo da minha vida em vesti-lo, alimentá-lo e animá-lo. Sente-se nu em meu sofá e ganhe cinqüenta reais a cada vez que seus olhos amendoados piscarem. Mais cem reais a cada vez que seus cabelos amendoados caírem sobre seus cílios amendoados. Eu não sei que cor é essa "amendoada" mas sei que você é todo dessa cor que não sei direito. A cor de um dia frio com sol. A cor de uma noite com luzes quentes. Eu pagaria imposto a Deus pra ter você em minha casa, eu pagaria imposto ao diabo pra não ter você em minha casa por alguns dias só para me assustar dessa forma, depois, quando você surgisse de novo do alto da escada, perguntando se vou querer pipoca ou chocolate. Você me assusta como deve ser a alguém miserável encontrar um carro forte abandonado. Estivador amendoado, você arrancou as talas dos meus braços, sua beleza endureceu meus dedos. A ereção dos dedos que precisam te tocar então tocam as letras e formam um texto para usufruir você. Escrevo pra ver se gozo de alguma forma e volto a dormir. Você me dá ânsias em lugares que não tenho. Você sorri com sua cara séria e nunca sei se você está se divertindo ou odiando tudo. E então começo a fabricar sêmens dentro do meu coração. E então meus vazios se transformam em lanças para te furar inteiro. E então sinto dores inchadas em minhas bolas quando você parte mais uma vez, sem que eu pudesse lamber suas axilas e morder sua virilha e chupar seus dedos. Eu desejo trepar com pedaços seus que não são só feitos de orifícios, línguas e paus. Eu desejo trepar com seu nariz, colovelos, calcanhares e com os ossos salientes da sua bacia quadrada. Bacia quadrada, rosto quadrado. Você num quadro, milhões de euros, eu a pagar com gosto e sem pressa o preço mais caro do mundo. Mas em centavos, para que nunca termine a imensa oferta da sua beleza.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

É só o inferno

Começou quando comi o terceiro sonho de valsa e eu nem estava com fome. Mais tarde, na segunda colherada de sopa, eu já queria vomitar, mas estava morto de fome. Conheço de longe, ou tão de perto, a tensão sexual: é a fome matadora que enjoa. É estar inflado demais pra se saciar, mas de um tamanho desproporcional para ficar saciado. Não faz sentido e é bem bobo de querer fazer. É vontade de mastigar algo, mas uma mão sai de dentro do estômago, passa pela boca e quer estapear o mundo. É desejo de porcaria e necessidade de vitamina. É preciso triturar, mas só passa líquido, quando passa. É a esquizofrenia da gana.
Dai decidi que agora não. Ah, agora não. Tudo de novo? Não. Então peguei meu celular, assim, meio ocupado, óculos e tal e mordendo o lábio inferior um pouco ressecado e, sem dó, deletei seu número de celular. Deletei as mensagens de texto também. E deletei seu nome e as fotos e a música e tudo.
E deletei você de tudo que me informa da sua vida e do lugar mais difícil de todos: do lixo do computador. Foi quando piorei. Vi seu carro parado na rua de trás e quebrei inteiro. Vi sua casa e ateei fogo. E vi você andando na rua e te atropelei. E nada adiantou. Porque você é antes de agora. Então voltei no mundo e deletei seu começo. E deletei o mundo. E deletei a explosão cósmica.
E nada adiantou, nada, porque desejo se forma em um lugar que é de onde somos também. Então eu teria que me deletar. E não adiantaria de agora, tipo: "não existo! Valendo!". Teria que ser de antes. Mas complicou demais. E é por isso que escrevo isso da sua sala iluminada pelo sol mais feliz de todos que é o sol do dia seguinte quando ainda estamos no dia anterior. A vida que ultrapassa a gente só porque esses pequenos momentos de amor nos congelam dando uma falsa sensação de que pode ser bom pra sempre. Enquanto você dorme com uma camiseta cheirosa e é, posso dizer com certeza, a pessoa mais bonita que eu já vi numa cama desarrumada. Poucas coisas são tão claras como isso que percebo agora: você é tão bonito que eu tenho esse riso congelado. Odeio as casas modernas e os casais modernos e o sexo moderno e ser moderno. Eu quero parar com essa vidinha e ter um amor pra vida. Mas e mas e mas e mas. Você é tão bonito que renova a mesmice do cinismo amoroso. Por você vale qualquer sombra na alma.
E é isso. Agora é suspirar feito besta, meus celulares e e-mails e o ar voltam a ser objetos de tortura, sempre a espera da próxima vez que você vai me pedir que morda o violão pra escutar a música dentro do cérebro. E você desafinando e meu cérebro consertando tudo dentro da minha imaginação. Não é amor porque amor é mais do que essa escravidão estética. Não é paixão porque eu só me apaixono por quem eu quero destruir e eu só quero limpar com uma palhinha de ouro seu corpo num pedestal. Não é só tesão, porque eu passaria o resto da minha existência fazendo carinho no liso do seu cabelo e você com 18 metros de altura parecendo um menino. Não é nada dessas coisas todas que a gente separa numa caixinha da mente pra continuar arrumando o resto das gavetas da vida. Então o quê? É isso, o xixi baixinho olhando a pessoa mais bonita que já vi numa cama desarrumada. É encantamento puro com um pouco de dor porque até a falta de dor tem muito de dor. E mais o sol e mais as formigas e mais a camiseta cheirosa e o xixi baixinho. É só o inferno, é só saudades.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

´´This one goes out to the one I love´´

Desde que você se cansou e foi embora,eu morri todos os dias um pouco,eu me casei com a minha melhor roupa, com a solidão e meus piores demônios,eu vivi de luto embrutecido,de luto encarnado,eu morri por mim,por você, pelo nosso fim,pela sua desistência covarde.
  Mesmo quando vi você negar que me amava,o eterno guerreiro que abitava embaixo de minha pele continuava de pé,ereto,continuava sangrando,dando a cara para ser cospida,logo eu que jurava que morreria de orgulho e não de amor.
 foi dando ouvido aquela velha frase ´´o que é nosso nunca vai realmente embora´´ é que prefiri ser covarde dessa vez,pois não suportaria amar um fantasma,mesmo eu que já tinha me tornado um defunto em vida,enterrado por lembranças,deixei você ir,partir dessa para uma melhor.
  Dessa covardia toda eu aprendi que a gente não precisava um do outro para ser feliz,a felicidade existia mesmo por dentro do ser que cada um somos separadamente,que precisavamos voar sem esse cordão umblical desse relacionamento. E você se tornou todos os dias o eterno personagem que sempre falhava comigo por que não suportava a minha intensidade,que borrava a folha de nossa história com tinta pemanente,e foi ganhar ares de herói em outras terras. Mas só eu sei que esse herói não passa de um covarde. A verdade é que me enchi, De você, de nós, da nossa situação sem pé nem cabeça. Não tem sentido  que continuassemos dessa maneira. Eu, nessa constante agonia o tempo todo imaginando como você vai estar. E você, numas horas doce, noutras me tratando como lixo. Não sou lixo. Tampouco quero a doçura dos culpados, artificial como aspartame.
Fico pensando como chegamos a esse ponto. Não quero mais descobrir coisas sobre você, por piores ou melhores que possam ser.
Assim, chega. Chega de brigas, de berros, de chutes nos móveis. Chega de climas, de choros, de silêncios abismais. Para quê, me diz? O que, afinal, eu ganho com isso? A companhia de uma pessoa amarga, que já nem quer mais estar ali, ao meu lado, mas em outro lugar?
Sinceramente, abro mão. Vou atrás de um outro jeito de viver a minha vida, já que em qualquer situação diferente estarei lucrando.
Bom é isso, se agora isso ainda me causa alguma tristeza, tudo bem. Não se expurga um câncer sem matar células inocente
   Mas sempre dá pra ficar em paz em dias assim,dias de chuva e sol,por que o tempo mesmo passa e a gente mesmo aprende a ser homem de verdade,depois de muito café e textos escritos a mão ou não,tanto faz. Você sempre estará bem aonde você está,e eu sempre vou estar bem aonde eu estou,talvez você ainda resida em alguma parte de algum sentimento bom em mim,mas que se foda isto.O dia em que eu passei por você e você passou por mim foi inevitavel olhar para trás!
 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Libido.

Você voltou rápido do banheiro. Eu só fui cuspir o chiclete. Por que não cuspiu aí do lado? Porque isso é um troço de botar velas. Eu tomei uma garrafa inteira de vinho, acho melhor ir pra casa. Acho que você deveria ficar. Acho que se eu ficar, vou querer ver você sem roupa. Agora não rola, tem criança aqui. Olha bem: é uma anã. Eu não gosto da minha barriga. Sua barriga é bonita, você é todo bonito, bonito normal, mas seu corpo é senssacional. Eu gostei da sua calça molinha, dá pra sentir exatamente como é o seu pau. Você não quer me chupar? Quero, assim que as crianças forem embora. Olha bem: é uma anã. Não é. Mas ela tá fumando. Meu Deus, é mesmo uma anã. Então me chupa? Espera, vamos pra minha casa? Você vai me levar pra sua casa? Só se você prometer que não vai me matar. Eu prometo, até porque tô sem tempo hoje. Se você fizer assim eu não vou conseguir dirigir. Dirige assim, quero ver. Não posso bater o carro, eu vou vender o carro na quarta. Tá perto? Eu tô com muito tesão. Eu também. Mas eu tomo um remédio que mexe com a minha libido, tô achando estranho tanto tesão. Eu não tomo nada mas deveria porque eu não durmo. Dorme na minha casa. Você disse que odeia que durmam na sua casa. Mas eu gosto de você. Eu gostei do seu cheiro. Do meu cheiro ou do perfume? Não sei. Eu gostei de você porque você é meio ogro, meio doce, você é ogrodoce. Você está tão sensual agora. Só agora? Só. Mas estamos juntos desde as seis da tarde e só fiquei sensual agora? Só. Mas eu te fiz rir das seis da tarde até agora. Macaco de circo não é sensual, é divertido, é legal, mas não é sensual. Eu sempre achei que ser engraçado era meu ponto forte. Não é. (________). Você ficou mal com o que eu falei? Muito. Por quê? Porque sem fazer piada eu não sei fazer mais nada. Então chupa meu pau. Tenho nojo sem estar apaixonado. Então se apaixone. Tá. Chegamos? Sim. Legal aqui, pequeno mas legal. E se eu falar o mesmo de você? Vai voltar a fazer piada? Eu não consigo parar. Para só um pouco, só um pouco. Vou tentar. Se desarma, vai. Vou tentar. Posso ver agora? Pode. Posso tirar a calça? Pode. Então tira a bota antes, botas são complicadas. Tiro. Você só me obedece? Só. Ah não, você tá fazendo graça! Tô. Não faz graça, se entrega, fazer graça é sua defesa, não se defende, eu tô bêbado, eu não tô me defendendo. Pra você é fácil. Por quê? Porque você é esse cara. Homem morre de medo de caras como você. Como sou eu? O tempo todo analisando profundidades, dando notas de desempenho para almas. Notas? É, você é a Bruna Surfistinha da profundidade. Eu quero te beijar. Não, antes eu quero ver uma coisa. Pode ver. Você tá com frio? Não, eu tô tremendo porque gosto tanto de você. Calma. Eu sei. Calma. Eu sei. Posso? Espera, deixa eu pegar a camisinha. Onde tem? Ali. Você é safado. Por que tenho camisinha perto da cama? Amanhã quando eu for embora seu vizinho vai rir e pensar "esse menino não perde tempo". Eu sou safado porque vou transar com você e acabei de te conhecer? Não! É? Não. Então não. . (___________).  Tá. Posso? Pode. Fica assim? Fico. O que foi? . Desculpa. Não. Não desculpa? Desculpo, mas não, não fala. Eu posso gozar? Pode. E você? Eu vou bem, obrigado. Não faz piada agora, peloamor, eu tô quase gozando e você continua armado. Desculpa, mas me sinto sexy sendo engraçado. Você é muito sexy sendo engraçado. Você disse que não. Eu menti. Adoro essa música. O que é isso? Animal Collective. Não curto essas coisas estranhas, meio eletrônicas, meio sei lá. Você tem o melhor beijo do ano, o melhor pau do século, a mão quente, a boca quente, é tudo tão gostoso. Sério que você não vai falar do meu pau? Seu pau é lindo. Eu nunca imaginei que seria tão bom. Por quê? Porque você é metidinho intelectual, nhãnhãnhã. Posso lamber sua tatuagem? Posso te enforcar um pouco? Eu dou defeito. Toda pessoa dá defeito, mas você parece ser o tipo louco que dá defeito rápido. Eu já tô dando defeito. Eu vou gozar. Goza. !!!!!!!!!!!!... eu tô com vergonha. Por quê? Por causa do escândalo. Foi lindo, você parecia a Luisa Marilac falando "porra" e tomando uns bons drink na Eu-ro-pa. kkkk Eu pareço um traveco gozando? Desculpa, eu não consigo parar de fazer piada. Eu vou embora. Mais cinco, por favor? Trepadas? Não, minutos. Eu preciso ir. Por quê? Pra não ficar pra sempre. Fica pra sempre. Por quê? Porque aqui tem amor, dinheiro e tarja preta, você pode só descansar existindo, eu faço o resto todo. Tarja preta vicia. Dinheiro também. Você tá tirando onda de rico? Não, eu tô tirando onda de homem. Você é um menininho. Perto de você eu consigo ser e você não sabe o prazer que isso me dá. Se sentir menino? Estar com um homem, eu só andei com moleques nos últimos anos. Eu sou velho? Você é bonito demais. Eu sou bonito porque você admira meu trabalho, eu não sou bonito tipo andando na rua. Você é bonito tipo andando na rua. Seu peitoral é senssacional. Leva um e me deixa com o outro. Qual você quer me dar? O que tem o coração. Você vai para o Rio quando? Eu quero te ver de novo. Então, vai pro Rio. Eu tenho fobia do Rio. Eu também. Porque lá é tudo feliz mas eu me sinto sozinho. Exatamente. Quero tanto te ver. Dá próxima vez você é que vai pagar o vinho. Mas foi você que bebeu. Não interessa. Fala "não interessa" de novo. Não interessa. Adoro sua voz. E o que mais? E sua mão quente e seu beijo calminho e intenso e seu jeito de lamber antes a cueca pra ver se tava cheirando bem. Tava cheirando ótimo. Mas eu trabalhei o dia inteiro. Mas tava ótimo. Cheiro ou combina ou não combina. É. É. Chama um táxi. Não. Eu ficaria mais se não tivesse que arrumar as malas. Não arruma, fica pelado pra sempre, você é tão bonito pelado. Vou jogar isso fora antes que caia tudo na sua cama. Deixa cair, engravida minha solidão. Que bonito isso, você deveria ser escritor. Que cínico você, deveria ser ator. Eu ficaria mais. Eu não gosto nunca de nada e gostei tanto de você. É? Droga. O quê? Eu falando de gostar. E daí? E daí que vai acontecer tudo de novo. O quê? Vou sentir demais, falar demais, escrever demais, você vai embora. Agora eu vou embora. E depois? Depois não sei. Tá. Eu ficaria, sério, eu ficaria muito, muito, muito. Eu sei. Mas agora eu vou. Então tira o dedo dai. Não consigo. Então não tira. Eu queria foder o dia inteiro com você. Eu queria foder a vida inteira com você. Você é exagerado. É só como dá pra ser. Me chupa? Pra sempre.



segunda-feira, 16 de maio de 2011

Matei a sede.

Eu mastigava com culpa cinco daquelas bolinhas de amendoim. Não era culpa, era ansiedade. Não, era tédio. Meus amigos conversavam longamente sobre algo que não me interessava nem por um segundo, as chatices do trabalho, as chatices do trânsito. Minha vida não é chata. Desde muito novinho decidi que minha vida não seria chata. Eu inventaria um trabalho, uma casa, um dia, um modo, um jeito. E inventei. As festas sempre tinham comidas incríveis mas, naquele dia, eram só bebidas. Eu não bebo. Quer dizer, agora não bebo, de vez em quando, comecei a beber só porque entendi quando me falavam que sem álcool é tudo muito pior. Então passei a beber . Uma taça de vinho? Mas naquele dia eu não podia beber porque não tinha comido e também porque não estava a fim. Eu estava a fim de ir embora. Voltar pra minha vida que não era chata mas ficava chata quando percebia que eu tinha uma vida dentre todas aquelas vidas que se faziam perceber. Olhei pra porta. Ela abriu e você chegou. Eu não te via há 3 meses e alguns dias. Foi então que o narrador do meu cérebro pigarreou e mudou o tom. Eu me narro tudo desde que me tenho por cérebro. Como se o tempo todo eu me contasse e contasse o mundo. Para ver se eu existo e se o mundo existe. Para ver se eu me suporto e se suporto o mundo e se o mundo me suporta. É insuportável, mas o tempo todo minha cabeça narra tudo. Minuciosamente, detalhadamente, dolorosamente. O tempo todo eu cavoco o segundo, o pó, a pele, o que se diz, o que se parece. Tentando narrar o mais profundo do profundo do que eu poderia narrar. Só pra responder o mais profundo do profundo do que eu poderia perguntar. Então o narrador começou dizendo assim "e então ele entrou por aquela porta". Você entrou por aquela porta. Eu apertei o braço do meu amigo: "é ele! Ai, meu Deus, é ele". Quem? Ele. Mas qual dos "eles"? Você tem tantos "eles". O último. Você era o último homem que eu tinha amado e, portanto, o "ele" da vez. Com seu cabelo alto, largo. Eu amo seu cabelo. Amo os fios mais claros que parecem ornamentos rococós para suas orelhas. Os puxa-sacos te abraçam. Eu percebo quem gosta de você e quem só te abraça porque um dia pode precisar de emprego. Alguns te abraçam gostando de você. E então eu fico feliz, porque eu gosto que gostem de você. Você é o cara que, quando foi embora, me deixou sentindo uma dor bem enorme, mas eu gosto de você, você não fez por mal. Seu mal nunca foi por mal. Então, eu gosto que gostem de você. E o narrador me narra seus tênis sempre tão publicitários. Seus pés gordinhos e pequenos e tão perfeitos pra carinhos. E narra sua roupa de chefe descolado. E narra o segundo em que você me percebe na festa e cochicha no ouvido do seu amigo alto. E narra todas as infinitas vezes em que você passou por trás de mim, esperando que eu me virasse e concordasse com seu "oi" cordial. Preferindo que eu não me virasse, assim você podia não sentir essas coisas complicadas todas que sentimos juntos. Então, cansado de te narrar, chamei firme seu nome, com um sorriso maduro. Mordendo a língua que tremia batendo no céu da boca. Minha língua, quando te vê, quer logo te dizer coisas lindas e assustadoras. Então é uma luta prendê-la no céu, deixando na terra apenas meu cordial "oi" que você queria sem querer. Então fomos pegar água. Brindamos com a água. Você com sua mania de conversar quase dentro da minha cara. Eu vesgo de te ver tão perto. Seu charme míope e inseguro. O menino inseguro que conversa colado na minha retina. Que insegurança é essa? Eu não te pergunto nada, apenas desejo tanto você que sorrio como se não me importasse com sua existência. Mas você resolve se explicar mesmo assim. Porque "seus olhos estão sempre me perguntando algo", você diz. E você começa sua loucura que me faz gostar ainda mais de você. Empurra a palma contra o peito e diz "eu gosto assim, fechado, protegido, eu gosto". Então você olha para o meu copo d'água e diz: "eu sou só um copo d'água, mas você ficava me olhando e pensando nas bolhas e nos gelos e nos canudinhos e na transparência e se a água era isso ou aquilo. Água é só água, por que você complica a água, jimmy?". Então apagaram a luz e eu quis me esconder dentro do seu paletozinho de publicitário descolado e ouvir suas batidas descompassadas e embaladas pelo seu cheiro de alma boa. Mas você pegou na minha mão e continuou dizendo que uma mão, muitas vezes, é apenas uma mão. Mas que eu insistia em enxergar os buracos entre os dedos, os anéis que separavam os dedos, a dor da separação dos dedos, a gota da bebida gelada entre os dedos. E que você não poderia suportar isso. A maneira como eu te olhava. Vendo mais, inventando mais, complicando mais. E eu quis te dizer que tudo bem, eu seria um menino simples. Eu mataria meu narrador, minhas possibilidades, meus mundos, minhas invenções. Só de ver seus fios mais grisalhos e rococós ornando seus medos e superficialidades eu desejei não ser mais eu pra ser qualquer coisa que pudesse ser seu. Mas enchi meu peito surrado e murcho de coragem e te disse que, infelizmente, onde você era apenas um copo d' água eu era a tempestade.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

só.

Entender é trancar-se dentro da palavra.
Quem não sabe, quem não sabe, quem não quer saber de nada gruda a língua no céu da boca, não escuta e finge que não vê.
Entender é um outro nível da ignorância. Bastaria um toque se fôssemos livres.
Não é preciso nenhum livro para quem pode não ler.
Se quisermos, amiga, não entendemos nada...
Tem quem prefira os beijos às palavras.
Tem quem não viva sem um off dizendo não, o tempo todo.
Tem gente de tudo o que é tipo.
Só não devemos viver sem o sentido, sem a realidade, o objeto, o eu e o você.
Somos infelizes. Jamais sobreviveríamos à liberdade de leves e inconseqüentes ações.
-Vamos, vamos logo subir essa escada que leva o amor ao último andar.
Estamos descalços e o mármore gela os nossos pés. Sobe pelo corpo o tremor do castelo que desmorona.
Então vamos, segura firme no corrimão. Respire fundo. Subir tão alto dá vertigem e olhar para trás deixaria-nos cegos.
Os erros são medusas intransigentes, arrancam as nossas lembranças boas e tatuam os desaforos e mágoas.
Por isso, Marche! Ainda estou contigo. Para ir até o fim da paixão deve-se estar acompanhado. Sinta o meu perfume enquanto o vento do tempo sopra esse bafo de mudança. Se quiser, dou-lhe o braço. Entraremos no salão da grande dança. A quadrilha dos desafortunados só começa quando o poeta recita a dor de um adeus. Pronto. Mais alguns passos e poderemos nos soltar no espaço. Livres. Serenos. E tristes. Vamos logo. Não há mesmo como evitar a covardia. Não há coragem para se ir até o fundo.
É isso, meu amor, agora só mais um degrau e você estará – de novo – em paz com o seu coração vazio. Por isso, vamos!
O nada não inspira, não treme os sexos, não dá calafrios, nem ciúmes; Não cria o ódio, nem teme o abandono. Ali você poderá descansar sem culpa, remorsos, sonhos estúpidos.
Amar proibido é muito. Causa tanto estrago...
E por isso, por tudo isso, vamos!
No final devo pedir perdão por tê-lo tocado.
Agora pode largar a minha mão. Pode partir.
Lembre-se ou esqueça-se de mim.
Coração quebrado tem cura: a paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe.

-Não estou mais agüentando.
A ansiedade –não mais aquela por bombons – poderá me estourar a veias. É o pior momento, esse, meio excitado, meio cansado, quando eu espero que campainhas toquem. Anunciando mudanças... e elas tocam, mas é somente um rapaz que me diz sobre uma encomenda ou um engano ou uma ligação familiar. Nada de mudanças. As mudanças, minha cara, só nas cores do cabelo, nas roupas e nos dias da regra mensal.
Não! Não queiram que eu acredite que tudo o que vivo será eterno, igualmente bom, para o resto dos meus dias. Não posso viver com o igual, não posso sobreviver ao certo, não quero morrer com certezas.
- Então vá se foder! E estrague logo esse lindo!
Receio da confusão o estresse, do medo à apatia das impulsivas atitudes, mágoas. Escuto música as alturas, quero somente amortecer os erros. E mudar de idéia. Quem sabe o porque do quê?
- O que você está falando, cara? – Nada, nada... é só a vida enchendo o saco com surpresas. Queria ser do século XVII, arfar o peito e ajoelhar num confessionário de madeira de lei... e eu não entendo porra nenhuma de madeira, entendo de culpas. Mas é negra a solidão de quem escreve...
Na casa dos meus avós tinha móveis negros, não tenho mais ninguém para mexer gavetas e tomar coca cola pequena no gargalo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para você que me odeia

Eu te amo. E não seria metade do que sou sem você, juro.
É seu ódio profundo que me dá forças para continuar em frente, exatamente da minha maneira.
Prometa que nunca vai deixar de me odiar ou não sei se a vida continuaria tendo sentido para mim.
Eu vagaria pelas ruas inseguro, sem saber o que fiz de tão errado.
Se alguém como você não me odeia, é porque, no mínimo, não estou me expressando direito.
Sei que você vive falando de mim por aí sempre que tem oportunidade, e esse tipo de propaganda boca a boca não tem preço.
Ainda mais quando é enfática como a sua - todos ficam interessados em conhecer uma pessoa que é assim, tão o oposto de você.
E convenhamos: não existe elogio maior do que ser odiado pelos odientos, pelos mais odiosos motivos.
Então, ser execrado por você funciona como um desses exames médicos mais graves, em que "negativo" significa o melhor resultado possível.
Olha, a minha gratidão não tem limites, pois sei que você poderia muito bem estar fazendo outras coisas em vez de me odiar - cuidando da sua própria vida, dedicando-se mais ao seu trabalho, estudando um pouco.
Mas não: você prefere gastar seu precioso tempo me detestando.
Não sei nem se sou merecedor de tamanha consideração.
Bom, como você deve ter percebido, esta é uma carta de amor.
E, já que toda boa carta de amor termina cheia de promessas, eis as minhas:
Prometo nunca te decepcionar fazendo algo de que você goste. Ao contrário, estou caprichando para realizar coisas que deverão te deixar ainda mais nervoso comigo.
Prometo não mudar, principalmente nos detalhes que você mais detesta. Sem esquecer de sempre tentar descobrir novos jeitos de te deixar irritado.
Prometo jamais te responder à altura quando você for, eventualmente, grosseiro comigo, ao verbalizar tão imenso ódio. Pois sei que isso te faria ficar feliz com uma atitude minha, sendo uma ameaça para o sentimento tão puro que você me dedica.
Prometo, por último, que, se algum dia, numa dessas voltas que a vida dá, você deixar de me odiar sem motivo, mesmo assim continuarei te amando. Porque eu não sou daqueles que esquece de quem contribuiu para seu sucesso.
Pena que você não esteja me vendo neste momento, inclusive, pois veria o meu sincero sorrisinho agradecido - e me odiaria ainda mais.

Com amor, de seu eterno.

terça-feira, 26 de abril de 2011

sujo.

O problema é que passar por um açougue desses com cartazes amarelos vendendo preços em vermelho. Com pombas em bando na porta, dando cabeçadas sujas no nada. A valeta seca acompanha o caminho dando um seco também no fundo da garganta. Ônibus bufando no ar carregado de pressas e tosses. Andar na rua pesa, fede, suja, convive. Ele sempre vai de carro. Em seu carro, ele tem um álcool gel que passa no volante para limpar os restos gordurosos das mãos de manobristas punheteiros e ranhentos. Tudo lhe dá nojo. Começou aos poucos com isso. E foi piorando. A doença é sim arrogante e preconceituosa, mas o mundo segue sambando, suando, escarrando. Enquanto ele se resguarda e se alimenta em sua maldade higiênica. A solidão desinfetada. Mas de dentro dessas bolhas macabras cheias de regras maníacas de um cérebro doente, ainda bate alguma coisa desritmada, vez ou outra, lhe dando escuros impulsos de vida. Um prolapso de desejo. E essa coisa bateu quando ele o viu. O fundo do seu peito exala um azedo de cocaína no sangue. Ele colocou a musica que dilacerava seu coração e, ao vê-lo em prantos, só foi capaz de aumentar o som. Naquela noite ele estava especialmente sujo. Ele sumiu e voltou com um pentelho loiro grudado no suor da testa. Seu pulso fedia vodka, cigarro e carne mole. Fedia um coração apodrecido pelos seus desejos noturnos. Ele agarrou no braço de um moreno corcunda que não sabia ser solicitado por um deus. Ele é meu deus, ele pensou quando se sentiu correndo bem rápido de sua gaiola. Voando bem rápido de sua ratoeira. Sempre que ser bicho vem é tão novo que não se sabe ao certo encaixar as coerências. Ele vai até ele e enfia seu dedo dentro de sua orelha. Eu gosto de homens altos e magros, ele diz. Eu não gosto de você. Ele vai até ele e esfrega o osso da sua bacia. Eu não gosto de você, ele diz agora misturando ódio com delicadeza. Ele vai até ele e faz pra cima e pra baixo com a mão, por cima da calça. Por que se humilhar? Essa pergunta os dois se fazem. Ambos envergonhados e enojados. Porque é tudo tão chato, é tudo tão limpo, o certo fica errado de repente, enquanto dormimos na falsa paz que nos carrega sedados de um dia para o outro. Porque o bonito, o puro, o quase infantil de tão feliz, o saudável, todos esses, todos são manchados de merda, de porra, de vômito, de cortes pequenos na perna com a faquinha da maçã. Tudo que pareceu estar indo, apenas voltou como uma dor que nunca me mata mas me faz voltar gordo de tremores e sarcasmos. Mas eu consigo gostar da sua sujeira, da sua impossibilitada excitada, do seu não retesado e apontando para mim. Eu gosto de ser seu jamais porque tudo o que podia, nunca pode. Nós vamos mesmo fazer isso? Ele pergunta me tocando. Eu não quero ficar aqui mas também não quero voltar e muito menos quero ir. Então me sufoca só para eu sentir um pouco de alivio. O jogo de sedução dos meninos que casam é a coisa mais podre de se fazer para uma pessoa cínica e em pânico. Porque eu sinto todas as hipocrisias de uma relação de uma maneira tão forte e alta e intensa que prefiro esse minuto em que eu enfio meu dedo na sua orelha e você, porque já são sete da manhã e só sobrou eu, enfio meu vazio duro no seu vazio endurecido. E nós sentimos um vazio terrível que nos violenta e nos separa pra sempre. Porque eu não sei amar, menino sujo, e nem você.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

sobre relacionamentos (amigos,familia,amores)

Intimidade é uma palavra de cinco sílabas para ‘aqui – está – o – meu – coração – por – favor – esmague-o – como – carne – moída – e – se – delicie’. É uma coisa ao mesmo tempo desejada e temida. Difícil de conviver com e impossível de se viver sem

A Julieta era uma idiota. Porque ela se apaixona por aquele cara que ela sabe que não pode ter… Todo mundo acha isso tão romântico: Romeu e Julieta, amor verdadeiro… que triste. Se Julieta foi burra o bastante para se apaixonar pelo inimigo, beber uma garrafa de veneno e ir repousar num mausoléu, então ela teve o que merecia
E até hoje, eu acredito que, na maior parte do tempo, o amor é uma questão de escolhas. É uma questão de tirar os venenos e as adagas da frente e criar o seu próprio final feliz
 Há um velho provérbio que diz que você não pode escolher sua família. Você aceita o que o destino lhe dá. E gostando deles ou não, amando-os ou não, entendendo-os ou não, você se adapta a eles. Aí tem também aquele que diz que a família onde você nasce é simplesmente o ponto de partida. Eles te alimentam, te vestem e tomam conta de você até que esteja pronto para cair no mundo e encontrar sua própria família, sua tribo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Rivotril

Da porta da minha casa até a porta do táxi demora mas não me irrita. Lento, bem lento. O raciocínio diz tão devagar que deixo pra lá. As pernas estão tão devagares que deixo pra lá. Mas vou. A mala de mão pesa mas não machuca. As rodinhas da outra mala trururu, trururu. Viver agora é um embalinho de barco ou de berço. Podia enjoar mas a felicidade de agora não deixa. Felicidade é sono. O oposto de despertar. Felicidade é esse segundinho de sono entre seu sonho e algo na TV. Despertar é preciso, mas só depois. Agora embalinho de barco. As rodinhas fazem trururu, trururu. A dor está distante, em um planeta que guarda pra mim a dor. Pra depois. Por via das dúvidas, coloco outro Rivotril de 0,25mg embaixo da língua. Já tomei um bem cedo e quando chegar no aeroporto vou tomar outro. Somando tudo, são 0,75mg. A psiquiatra disse que posso tomar até 6mg por dia. E mais que isso? Ela muda de assunto. Mas com 0,75mg já fico bem legal. Bem legal mesmo. Pensa num dia que você tomou o vinho certo, transou com a pessoa certa e depois capotou num lençol de zilhões de fios egípcios. Atrás dos meus joelhos aquele gostosinho da fraqueza sem julgamento. Na minha nuca, o quente de algum colo que nunca vai acabar. Se o uísque é o cachorro engarrafado o Rivotril é a mãe empilulada. A mãe idealizada, claro. Mãe, não me deixe, segura na minha mão. Com 0,50mg já não sinto mais medo de algum moço ruim não me deixar entrar no avião com minha droga. Eu o abraçaria e cantaria "Just put me in a wheelchair and get me on a plane. Hurry, hurry, hurry before I go insane…". Não, não é essa. É o anjo que canta Candy Says. Mas que anjo? Ou o Bob falando cause every little thing is gonna be all right. Rivotril vai deixar seu cérebro musical pacas. A caixinha de música, lenta e constante. Ao invés da máquina macabra de datilografar desgraças cravadas no peito. Ao invés do vagão trem do horror passeando por baixo do esgoto e me dizendo que não tem ar, não tem ar, não cheira bem, é o fim, é ruim demais. Embalinho de barco, soninho de nenê, colo, quente, possibilidades. Demoro tanto pra falar o e-ticket que chegam os reforços. Descobriram meu segredo. Por trás dos meus cabelos rebeldes e dos meus enormes óculos de pessoa rica existe uma caipira assada porque está fazendo coco sem parar de medo. De medo do quê? De ter medo. Mas de ter medo do quê? Não sei, cara. Juro. Se eu realmente precisar te responder eu diria "ir". Eu tenho medo de ir. Não acordo para o Nutre de banana e nem para o suco de laranja com gelo de água de sabe-se-lá-a-procedência. Tenho medo do gelo do avião. Tenho fobia daquele cheiro de bafo enjaulado que forma crostas no ar. Dentro do avião fede. Se alguém espirrar vai pra onde? Não gosto de aeroporto, nem de avião e odeio particularmente os saquinhos de vômito. Tenho medo do som da privada. O limbo supersônico. Suas excreções explodidas no universo. Antes do aviso de desligar celulares minha mãe me liga e eu choro, choro, como eu choro. Não quero ir, não quero morrer, não quero as japinhas bebês sendo testadas por homens com roupa de apicultor pra ver se viraram armas nucleares, não quero as mortes da Líbia, não quero a patinha quebrada da labradora da vizinha, não quero que mãe e pai e domingos de sol com jornais acabem. Silêncio e segundos depois, minha mãe entre o susto e a vontade de rir, me fala "mas você só está indo fazer uma viagenzinha". Sim, sim, não se explica. Eu não sei explicar o que é isso que dispara em mim quando faço malas e vou. Como é que fica o mundo quando destranco minha bolha? Sofrer é de uma arrogância egocêntrica sem limites. Tenho medo de dobrar a esquina de casa. Tenho medo de fazer aniversários. Tenho medo de ser homem. Tenho medo que me magoem. Tenho medo de estarem rindo do quanto eu sou feliz quando alguém me abraça e eu me largo um pouco. Minha cabeça pesa quilos demais pro meu pescoço. Alguém por favor só me segura um pouquinho? Tenho medo de acordar. Tenho medo quando acaba a bateria do meu Iphone porque mexer nele me distrai de pensar como tudo é bem maluco. Estou quase dormindo, quase. Sinto uma tristeza profunda de ir. Ir é muito triste. E estou sempre indo apesar das minhas unhas desesperadas eternamente esfolando algum conforto que deixou saudades apesar de nunca ter existido. Mas o Rivotril vai comigo e daqui a pouco me traz de volta. Tenho 20 anos, sou um homem, a pessoa ao lado quer tranzar comigo, a reunião é sobre um lance bem maduro. Bem de homem bacana e foda que ganha dinheiro e manda nas pessoas. Bem de quem tem talento. Eu tenho talento, as pessoas me pagam, me querem, me obedecem. Eu quero minha mãe. Eu não sou esse cara que eu sou. Eu sou, mas às vezes não. É foda manter isso aí que sou o tempo todo. É um drama, uma novela, apenas uma reunião, em 42 minutos estarei lá. Depois estarei aqui. Depois mil anos e todos nós mortos e os depois de nós mortos. Depois mais amores que me racham inteiro e eu catando minhas bolinhas de gude pelos ralos de todas as cidades. Tenho medo de não ser pai,como acho que não serei. Tenho medo de não ter fome. Tenho medo de não dormir. Ou tudo isso demais. Mais um Rivotril. O restinho dos ratos gritando somem. O restinho das pombas macabras somem. O restinho dos corvos somem. Todos para longe. Lá vai o cara que assusta. Mas assusta principalmente eu mesmo. Minha psiquiatra me disse que não sou fraco, sou humano, mas, poxa, às vezes é bem fraco ser humano. Preciso gostar dessa parte, preciso gostar dessa parte. Tirar minha gravata amarrada no meu próprio coração. O céu está bem limpo enquanto eu durmo em algum lugar bem longe de mim.




quarta-feira, 30 de março de 2011

Do lado

Me enchi de artigos e frutas picadas no canto da mesa, querendo encontrar logo alguma ideia que resolvesse um trabalho que eu tava fazendo. Queria resolver, entregar, receber e voltar logo pra mim. Acho que desaprendi a trabalhar para os outros ou mesmo qualquer coisa para os outros. O que parece arrogância e depois de muito tempo dando nomes menos feios resolvi que é arrogância mesmo porque talvez esse seja o nome menos feio.

Foi quando chegou um rapaz e perguntou se alguém estava sentado ao meu lado. Só que não era um lado, era um super lado. Era tipo colado em mim. Era tipo quem visse acharia que estávamos juntos. Daí que achei melhor olhar bem pra ver se era o tipo do homem com o qual eu poderia estar, numa tarde de feriado ensolarada. Não era. Ou eu não sabia se era. Eu não queria ninguém ao meu lado. Não agora e nem nunca mais. O que obviamente era mentira mas saia com uma força ainda mais forte que a verdade.

Respondi o não mais agressivo e masculino que pude. De repente o mundo estava infestado de garotos bronzeados com suas camisetas. Todos os homens do mundo com cabelos bonitos e que são chamados em horas de profunda saudade e que roçam o nariz na bochecha de seus queridos e fazem barulhos de ratinhos carentes. E de repente, eu sabia, odeio quando chega isso, mas de repente eu estava muito sem ar, pra fora da bolha de oxigênio do mundo. Eu era um garoto mal vestido para o momento, trabalhando por grana em dia de sol e de mortos e de descanso. E que, só porque o café estava muito lotado, tinha um acompanhante que jamais perguntaria meu nome. E jamais saberia que, apesar de eu nem pensar mais nisso, no meio da noite, minha cabeça grita, noite após noite "como é que existe uma maldade que joga pessoas fora assim, mesmo sabendo tudo de bom que elas têm?". Minha cabeça grita noite após noite, quando eu não falo mais por ela e ela fala sem parar por mim e eu já até aprendi a deixar assim pra ver se gasta "como é que a coisa mais bonita que já me deram vem da coisa mais feia que já me deram?". Ele nunca saberia. Se eu não sei. Se você não sabe. Então ficamos sem resposta. Eu com meu trabalho. O mundo com sua comida. Lado a lado, todos, sem resposta, fechados em certeza e cara fechada e tudo fechado. Lado a lado.

O garoto pensando "coitado". Se é que ele pensa que eu gostaria de sentar ao lado dele porque tô achando ele lindo. Com tanto cara de camiseta e de gemidinhos de ratinhos em bochechas. Com tantos desses caras. Por que esse com essa roupa estranha, que trabalha por uns trocados em dia de ser livre ou mesmo morto e dorme e morre por uns trocados em dias de se esquecer na massa do mundo e quase ser feliz? Por que eu perguntaria o nome dele? Se não fosse, apenas, porque o café está lotado e ele queria sentar porque estava quente e eu, sempre sabido com essas coisas, tinha escolhido um bom canto. Eu sou bom de escolher cantos.

E então, por alguma coisa em mim que sempre tem dessas, essa coisa que eu adoraria entender, porque de verdade me escapa, me sacaneia, me é um adulto sábio e mais burro, que mostra pra mim que isso que me apego é só frescura e não saber viver. Um adulto que já desistiu sabiamente de ser adulto porque nunca se é como se planejou naquele dia de muita criancice. Eu olhei pra ele e sorri. Sorri. Porque se a pessoa mais doce que já conheci, se a pessoa mais sensível que já conheci, se a pessoa que me garantiu, segurando firme meu corpo no meio da noite, eu sempre querendo ir respirar pra fora do amor, e me disse que tudo bem, eu podia ficar. Era possível ser e ter e durar e florescer e tudo. Se a pessoa que poderia saber de alguma coisa sabia muito infinitamente menos que eu. Se tanta doçura no meio da noite me volta como um estômago estuprado. Então que esse moço passageiro e sem rosto e sem intenção ficasse com meu sorriso. Porque estar ao lado de alguém é só um mundo apertado e uma vontade de comer até enojar e uma licença pra existir e um descanso como dá. Até resolver o trabalho e receber e ter forças pra seguir e segundos antes de dormir pra ter coragem. No dia dos mortos. Ao lado do mundo, sempre à margem, quase nele, quase dele. E o que ele me deu depois do sorriso eu nunca vou saber porque o bom de ter essa dor que nem dá pra mexer é pouco nos lixarmos pras pequenas felicidades

sexta-feira, 25 de março de 2011

O mundo é uma revista chata.

Desfiles, indicação de livros, ótimas músicas para baixar,festas para tocar, fofocas e últimos trabalhos importantes, alguns clichês, a personalidade do momento, uma sessão de piadinhas, dicas de comportamento pra não afugentar o próximo e a crônica final: um relato pessoal cheio de trocadilhos e "pseudos" momentos de alma. Qualquer amigo, qualquer almoço, qualquer telefonema, qualquer encontro de galera animada, qualquer papo virtual, qualquer café com alguém cabeça, se parece com qualquer revista chata. Uns são Nova e outros Bravo. Mas não passam de papel com brilho. Viram lixo na semana seguinte, na hora de pintar as paredes ou da Laika mijar. Todo e qualquer ser humano cheio de ideias não passa de um jornalista mala em começo de carreira querendo montar uma revista sensacional e inédita que o mundo inteiro já montou. Tá todo mundo falando, falando, falando a mesma coisa de sempre. Do mesmo jeito de sempre. E comendo as mesmas garotas de sempre. Com a ressaca de sempre. Com a vontade de morrer de sempre. E o alpino melhorando a vida por alguns segundos depois da massa ruim de microondas ou da rebarba de gordura no peito de peru light.

As regras do jornalismo. Sempre as datas, lugares e filiações. Sempre os sonhos pra daqui dez e há dez. Sempre os personagens simples das esquinas e a necessidade do povo de ser. Até o ônibus te fechar e o Hitler "baixar" em você. Isso ninguém publica ou fala. Igual, igual, igual. Um lugar pra chamar de seu. A mina da vez. Mil lugares pra se matar antes de morrer. A volta por cima. Ele veio pra ficar. O mundo é uma revista chata e igual.

A banca de jornal tem cara de boteco cheio. Uma solidão profunda. Mil assuntos gritados egoistamente e todo mundo se perguntando em silêncio se já pode ir embora sem parecer um maluco que fica em casa fritando a cabeça. As gordas gostosas de obra usando sandálias de plataforma e encantando os super bem sucedidos profissionais assistentes de firma falida. Hmm, hoje vai rolar um sexozinho gostoso com uma bunda falante. A VIP nem colunista tem mais. E infinitas mesas de cariocas ultra felizes ainda que mais da metade ali nunca tenha pisado no Rio e só ache sexy fazer chiados ou falar garçom com sotaque menos caipira. Bancas de jornais, com as revistas penduradas pra fora, voando um pouco pelas laterais, quase no seu colo, "splashs" implorando pra serem levados, tudo grita, uma explosão de cor que acaba num cinza amorfo. Cadeiras pra fora dos botecos. Tudo igual. Um segundo ali e você acaba comprando um assunto chato pra se distrair, ocupar os dedos folheando e não beliscando o centro do peito como a tal da ave que comia um fígado. O fingimento da não angústia compartilhada chega tão perto da alegria que a coisa volta pra você numa tristeza ainda pior. Coxinha com bebida mesa capenga e elogio falso. Azia arrependida mas melhor que o oco. Qualquer merda dentro da gente é melhor do que o nada. Vomitar o nada seria conhecer um universo paralelo que nem dá pra passar pelo pensamento. Então vomitemos coxinhas. Moça bonita na capa na lata de lixo. Chorume na coluna do psiquiatra das estrelas. Chato, chato, chato. Por isso, e só por isso, ainda insisto na amizade com quem, livre de parecer ou ser ou se sentir qualquer coisa, fala de escatologias. Ao resto das revistas todas, dedico breves encontros enquanto estou cagando.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pra lembrar da dor

Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?
Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim?  Não venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz um ano de análise, já surtei, lembra?enquanto os outros, solidários e positivos, apertavam meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, amigo, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertáriabababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta,cadê o potencial criativo?
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente?No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poçodo poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? Agente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói.Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperado, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louco nem bêbado, estou é lúcido pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santo, absolutamente puro, absolutamente limpo, depois tomo outro porre, ou ligo para conversar às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?
Naqueles dias eu Andava angustiado demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, um logo tempo adolescente de convívio cotidiano, mas andava, andava, tinha uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Por favor me contem outra que dessa eu já estou vacinado!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Consideração

Já tinha um mês e resolvi ir nessa festa com cara de festa que você vai. Toda pessoa de cabelo cheio que entrava eu achava que era você. Assim como acho quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei um caçador de pessoas cabelos cheios. Virei um caçador de você em todas as pessoas. Então você chegou na festa. E eu apenas sorri e sorri e sorri. Porque era isso. Eu queria te ver apenas. A dor numa caixinha embaixo dos meus pés e eu mais alto pra poder te abraçar sem dor, perto da sua nuca e por um segundo. Eu te acho bonito de formas tão variadas e profundas e insuportáveis. Eu vejo você parecendo um leãozinho no fundo da festa. Suando e analisando. O rei escondido escolhendo a presa que não vai atacar. Com sua eterna tristeza cheia de piadas afiadas. Suas facas afiadas de graças para defender as tristezas que nadam baixas nos seus olhos de quem não quer fazer mal. Mas faz. Seus olhos. Em volta um riozinho melancólico e no centro o sol feliz e novinho chegando. E tudo isso vem forte como um soco de buquê de flores de aço no meu estômago. E eu quero ir até você e te dizer que eu sei que você desmaia quando faz exame de sangue. E como eu gosto de você por isso. E como eu queria tirar todo meu sangue em pé pra você jamais cair. E como eu gosto de você por causa do e-mail que você mandou pro seu amigo com problemas. Como gosto quando você lembra de alguém e precisa demonstrar naquela hora porque tem medo da frieza das suas distrações. Suas listas de culturas e atenções. Os vasinhos. Os vasinhos coloridos da cozinha me matam. A história do milagre que te salvou da queda da estante. Você arrepiado falando em anjos. Essas suas delicadezas em detalhes dormem e acordam comigo. Acariciam e perfuram meu peito vinte e quatro horas por dia. Uma saudade dos mil anos que passamos, ou das três semanas. A loucura de gostar tanto pra tão pouco ou simplesmente a loucura de tanto acabar assim. Fora tudo o que guardei de você, me restou a consideração que você guardou por mim. Sua ligação depois, quando me encontra. Sua mão estendida. Sua lamentação pela vida como ela é. Sua gentileza disfarçada de vergonha por não gostar mais de mim. A maneira que você tem de pedir perdão por ser mais um cara que parte assim que rouba um coração. Você é o mocinho que se desculpa pelo próprio bandido. Finjo que aceito suas considerações mas é apenas pra ter novamente o segundo. Como o segundo do meu nariz na sua nuca quando consigo, por um segundo, te abraçar sem dor. O segundo do seu nome na tela do meu celular. O segundo da sua voz do outro lado como se fosse possível começar tudo de novo e eu cheiroso e você me fazendo rir e tudo o que poderia ser. O segundo em que suspiro e digo alô e sinto o cheiro da sua sala. Então aceito a sua enorme consideração pequena, responsável, curta, cortante. Aceito você de longe. Aceito suas costas indo. Aceito o último fio de cabelo virando a esquina. O último fio preso no pé da minha cama. Não é que aceito. Quem gosta assim não come migalhas porque é melhor do que nada, come porque as migalhas já constituem o nó que ficou na garganta. Seus pedaços estão colados na gosma entalada de tudo o que acabou em todas as instâncias menos nos meus suspiros. Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. Aceito sua consideração de carinho no topo da minha cabeça, seu dedilhar de dedos nos meus ombros, seu tchauzinho do bem partindo para algo que não me leva junto e nunca mais levará, seu beijinho profundo de perdão pela falta de profundidade. Aceito apenas porque toda a lama, toda a raiva, todo o nojo e toda a indignação se calam para ver você passar. 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

estrela

Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, me disse: não
Então me venha e chegue e me invade e me toma e me pede me perde e te derrama sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abre a boca para liberar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me conta, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhala com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me quer assim porque é assim que você é e unicamente assim é que me quer e me utiliza todos os dias, e nos usamos honestamente assim

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Saudades é assim

Ainda que eu esteja numa fase bacana e sem nós no peito, resolvi embarcar num momento nostalgia. 
Não sei se foi esse tempinho em casa. Não sei se é porque agora, nesse exato momento, estou ouvindo “I know it’s over”, do Smiths, e tomando uma taça de vinho. Só sei que a noite está pedindo e resolvi fazer uma sessão nostalgia. 
Acho normal. Acho perfeitamente normal lembrar com carinho que você sempre dava um jeito de me mandar mensagens em datas festivas. Estivesse você casado ou namorando ou ilhado num templo budista, dava um jeito. Era como se dissesse, sem dizer “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”. 
Também me faz bem lembrar que você nunca, nunca, nunca se alterava. Trouxesse o garçom o pedido errado pela terceira vez ou fizesse um playboy qualquer caçasse confusão. Você nunca estragava nossas noites. Eram tão raros os nossos momentos, você dizia, que eram para ser sempre bons. E de fato sempre eram. 
Eu tenho saudade de mil coisas e todas essas mil coisas sempre caem na mesma única coisa de que eu tenho tanta saudade: sua leveza. Você me dizia que jamais iria me cobrar leveza, pois me amava intenso. E me pedia que fizesse exatamente o mesmo, ainda que ao contrário, por você. E eu não obedecia nunca, afinal, pessoas intensas não obedecem. 
E assim nós seguimos, por um tempo entrecortados, sendo tão parecidos ainda que tão atraídos mutuamente pelos nossos opostos. A gente era parecido principalmente porque topava as coisas mais malucas como, por exemplo, brincar que tinha acabado de se conhecer numa festa, ainda que tivesse ido junto para a festa. E por horas ficávamos nessa bobeira e nenhum dos dois ria. Até que alguém pedia, cansado, “já pode voltar ao normal? É que está me dando vontade de transar e eu não transo com desconhecidos”. 
Eu tenho saudades de tudo. Da gente perturbar nossos amigos de tanto rir de coisas bestas, de falar sobre música, da paciência que você tinha, da mania que você tinha e de quando você apertava os ossos das minhas costas no escuro e falava, baixinho: “ai, como esse menino gosta de fazer drama!”. 
Não é um sentimento egoísta e muito menos possessivo. É apenas uma saudadezinha. Gostosa, tranqüila, bonita, saudável, de longe. E, quem diria: leve. 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Muralha.

Essa muralha dura que, com o gosto certo para as palavras e o cheiro certo para a presença, amolece o mais duro gosto pela vida.
Ainda que nada que mereça uma racional lista neste momento, é como se faltasse o mais essencial ar puro e quente da minha saúde. O ar certo. E pela incoerência da vida e o delicioso gosto contrário pelo certo, esse ar, que se disfarça em puro, nada mais é que o velho conhecido gosto dos sonhos vermelhos aveludados e perfumados de cabarés imaginados.
O gosto pesado de erros soltos, expostos, e mais do que de encontro com o que palpita sem coerência mas soa em perfeição dentro de mim. O ar que bombeia as formigas de uma retardada felicidade levando sensações até para as improváveis pontas do cabelo e unhas do pé. Aquele que arrepia até as peles sem vida das camadas mais próximas à morte. As palavras saem querendo ter sentido, mas a boca se morde tamanha a vontade de abocanhar tanta cerimônia e transformar o peso ereto do humano responsável em instinto animal que corre de quatro e morde sem pedir.
Nada que eu não tenha sentido antes, ou escrito, mas mais uma vez, o que pontua minha vida em momentos e me joga para a frente pra cair de cara. Seja para chorar o inferno próximo, seja para me sufocar de você querendo todos os meus ângulos.
De energia presa num interesse congelado que grudei nos seus olhos, ainda me pergunto se minha clareza não te cegou. Minha energia em potencial, louca para cair de um longo prédio de andares divertidos e morrer tristemente no vazio de um fim certo para um sonho improvável, está zerada na espera de um estalar de dedos.
Estale os dedos e olhe para o chão. Eu estarei ali, arrastado em possibilidades e forte em atração para subir até o andar para o qual você me der asas.
Sei, como sempre soube desde que tomei noção de minha existência baseada em vôos com horas marcadas para quedas, que vou me estabacar em pedaços mais uma vez. E sei que os juntarei novamente, me jurando preservação. E, assim que estiver inteiro, estarei novamente cheio de vontade de sair dando encontrões com o mundo. Este mundo que insiste em inventar leis, regras, juramentos e instituições. E insiste em perder para seres apaixonados que juram, até para Deus, que nada pode ser mais sagrado do que a fidelidade aos hormônios.
Clichês me embrulham mais o estômago que qualquer podridão que meu lado puritano oitenta, irmão gêmeo do meu lado safado oito, tente me jogar na cara.
Aqui estou eu aberto até onde se pode rasgar, exposto até onde se pode vender e insinuando até onde se pode explicitar. E ainda que isolado de cúmplices, longe de aplausos e renegado de benção, aqui estou eu novamente servindo com prazer os meus joelhos à divindade do desejo.
Se você não puder esperar, será bem-vindo em minha ansiedade. Se você me quiser embaixo de mangas, será bem-vindo em meu masoquismo masculino nada original.
Por hora lhe agradeço. Voltaram a gritar os teclados espancados de sentidos para traduzir uma alma que já não cabe mais em seu estado natural. Agradeço-lhe o sorriso estúpido que por mais banal que seja. Nos faz sentir negritados em meio a tantos seres e suas aspirações. Agradeço-lhe a vontade de errar, sem ela minha vida não parece certa. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O jogo

Posso começar? Ok. Não sei bem ao certo quando aconteceu. Remei, remei e remei pra maré mudar, e acha que está acontecendo. O barco aos poucos foi virando, e toma vento forte, rumo pronto. Pelo menos, é o que parece. Na verdade, me dei conta apenas hoje. Me presenteei aquele tempo necessário, onde a gente chora a cada música romântica no rádio, se vê em cada personagem sofredor de novela, tem vontade de ver filmes dramáticos, e o nosso cobertor vira o nosso melhor amigo. A cama, quase nossa casa. Confidente e acolhedora, quase um lar, um óasis da dor. Tive alguns dias de insuportabilidade doentia, onde aluguei alguns amigos, horas e horas à fio, vendo e revendo fatos, insinuações, distorções, a história como um todo; contexto e estigma. Gênero e grau. Conclusões, algumas. Conselhos, muitos. A ser uma pessoa mais fria, e racional. A ficar calmo, e pensar positivo. A sair e me divertir. Ou simplesmente, tomar mais café e cuidar de mim, que as borboletas, hão de chegar. Eu sei, eu sei. E eu me permiti tudo isso. Assinei com convicção o contrato para enclausuro e fim de solidão, recomeço de esperança e felicidade. Deixei a raiva tomar conta, em cada esquina que cruzasse com os casais apaixonados do Centro. Abaixei o som, quando tocavam músicas que me instigavam fundo, mexiam dentro e me faziam nostálgico. E comecei a ler um livro que li há muito tempo, novamente. Comprei roupas, e um par de botas novas, que fizeram subir gradualmente minha auto-estima. Fim dessa confusão toda, e me vejo negando esse ódio da vida, e vendo que, a felicidade é uma opção. Não mais que isso, uma bela e grande opção. Quer, ou não quer. Embarca, ou não vem. Comecei a crer nas possibilidades, sabe? A gente tende a achar que tudo é passageiro, que a vida não é muito aí pra nós, mas se a gente não acredita, é isso que ela se torna: alheia e tão insignificante, quanto passageira. E acho esse processo todo, super válido. Como, se não assim, se preparar pra receber amor, amor bom e com gosto decente, se não desocupando a vaga, tirando o time (totalmente) de campo? Vejo apenas o sumiço, a reestruturação como alternativa. E dono dos meus caminhos e percalços, rodovias e vias de tráfego, acho esse tempo es-sen-ci-al. Tanto que um dia, chegou.Acabou a dor, acabou o papel de vítima. Sentado com perna de índio, cruzadas e olhos fechados, voltamos a ser o que éramos. Que alívio. Pegamos então o mapa, que deveria o tempo todo estar nas nossas mãos, e miramos o horizonte, uns trajetos brilhantes, honrosos e merecidos. Mais do que válidos, muito mais: concebidos.

Mesmo que a gente afaste com barreiras de proteção, e cavaletes, as pessoas querem entrar. Querem chegar até mesmo no funeral , e no luto da ex-felicidade, querem povoar nosso íntimo. Não tem hora, e só pedem lugar. Complicado, mas somos bonzinhos. Aos poucos, e por que não? Quem sabe, ué.. O destino nos prega tantas peças, porque não mais uma? Mas a gente quer voltar. Tem recaídas. E chora um dia, sabendo que é a última vez: chega a hora de enterrar também num caixão, e tchau. Morreu aqui. Uma pena, mas as lágrimas são saborosas. São um prenúncio, um aviso vão; acaba daqui a pouco, e é só correr pro abraço.
Dias vazios nos acometem, e ficamos assim meio à deriva, sem rumo e marco certos, mais pra lá do que pra cá. Podia estar melhor, mas tá tudo meio assim, desgostante. Vai melhor, eu sei. Mais cedo do que você imagina, me dizem. Tudo vai dar certo, eu ouço. E então, a gente sabe que desapaixonou, quando sorri apenas por ver outra pessoa. E o melhor - isso não quer dizer que estejamos apaixonadas. Ainda. Não é paixão, mas o calor de uma possibilidade, de quem sabe, um dia ser. O coração palpita, você ensaia mentalmente falar calmo e certeiro o que está falando, e no final, a gagueira te pega mais uma vez. Nervosismo, mãos que suam, palavras que saem da boca, fugitivas. É a melhor sensação: sair de um pesadelo, e conseguir (se quiser) entrar numa nova jornada, novas ações; nova pessoa. Quer coisa melhor? A gente sorri pelas possibilidades, e não por já entrar em outra aventura. Mas por se ver livre, completamente livre, daquele pesadelo inteiro..Quer coisa mais bonita, mais completa, e transparente, do que a liberdade? Não a que alguém me deu, e sim, a que escolhi por mim mesmo. Não. Não quero, não. Escolha assim, de gostar e desgostar, de amar e desamarrar, é pra poucos. Como em tudo que faço, a pressa é campeã. O primeiro encontro é mágico, o segundo excitante, e no terceiro já estou totalmente envolvido - ou entediado. No amor, não vejo como ser diferente: me apaixono rápido; desapaixono mais rápido ainda. Simples. Pra entrar no jogo, basta deixar os dados rolarem; a sorte está lançada, e as oportunidades na mesa. Sorte no amor, azar no jogo. Felicidade nos dois? Bom jogo!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

o mito do cara misterioso

Com certeza você já deve ter visto um desses ou no seu trabalho, grupo de amigos ou mesmo andando nas ruas. Talvez você até mesmo seja um desses caras. 
É fácil reconhecer o homem misterioso. Ele jamais atende o celular na sua frente. Se levanta e vai atender bem longe de você. E você não sabe se ele está narrando alguma postura do Kama Sutra ou uma receita de bolo de fubá da vovó. O toque do seu celular é discretíssimo e você nem percebe que ele saiu de perto pra atender. Porque ele também é discretíssimo.
Por que terminou o namoro do homem misterioso? Ela enjoou dele? Levou um pé na bunda?Ele ta sofrendo? Você nem sonha. Ele não conta nem pro terapeuta. Aliás, você também jamais vai descobrir se existe um terapeuta.
Sua idade é entre 20 e 38 anos. Não dá pra saber só de olhar. Seu rosto se desfaz em segundos. Talvez ele more nos Jardins. Bh. Veio de Curitiba. Ele é carioca? É ali por perto, você acha. Seu carro é preto ou cinza, quase certeza. Ele gosta de música, porque vive de I-pod. Mas o que será que ele escuta? Nada. você não sabe absolutamente nada do homem misterioso. Quando você o encontra no banheiro, dá um segundo e ele desapareceu. E você louco pra descobrir, ao menos, a marca da sua pasta de dente.
Numa mesa de bar com conversa animada ele se limita a sorrir. Numa festa importante ele se limita a aparecer por minutos e desaparecer em segundos. Em um show ele jamais canta as letras, pula, comemora, fica suado. Aliás, quem é que já encontrou ele em algum show? Ou em algum lugar? Mas era ele, não era?
Dizer seu nome em vão parece até um pecado. Ele nunca fala de ninguém e muito menos dá assunto para alguém falar dele. Não se tem nada a dizer desse cara. Mas, para desespero geral de todas as outras pessoas, o mundo não tem outro assunto. 
Todos os homens desejam loucamente o homem misterioso. Todas as mulheres desejam loucamente o homem misterioso. Sua personalidade incerta acaba se tornando uma personalidade fortíssima e seu jeito anulado acaba se tornando um espaço gigantesco para todos imaginarem o que bem quiserem. 
E eu, como estava dizendo, sempre quis ser desses caras imperfuráveis, inatingíveis, inaudíveis e incompreensíveis. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida pra primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já to rindo alto no restaurante porque não me controlei e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre o fulaninho da terça passada. E o fulaninho ta morrendo de medo porque escrevi que gosto dele. E se alguém perguntar, vou dizer mesmo que goste dele. E se ele não gostar de mim, minha tristeza não será segredo para ninguém. E minha pasta de dente é para deixar os dentes branquinhos. E quando vou ver, lá se foi o homem misterioso que eu gostaria tanto de ser. Porque eu jamais poderia ser um.
E sofri anos com isso. Até que resolvi conviver de perto com alguns caras misteriosos para tentar descobrir o que se passa na cabeça e na alma desses seres incríveis que nunca têm nada a dizer, a doer, a aconselhar, a cantar, a dançar, a morrer de rir, a detalhar, a exagerar, a sonhar, a dividir, a acrescentar. E descobri que a coisa era muito mais simples do que eu imaginava: nada. Não se passa nada de relevante nem na cabeça e nem na alma desses caras. 
Os homens misteriosos, tão admirados e desejados, não passam de homens sem a menor graça. Eles não calam por mistério, charme ou discrição. Calam porque simplesmente não há nada mais sábio que eles possam faz

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

o vencedor

Venho por meio dessa lhe informar do prêmio. Será entregue em sua residência. Em plástico bolha, fita crepe, caixa de papelão, papel dourado espelhado. 
Pode colocar na mesinha preta, ao lado daquele troço legal que sua mãe te deu. Uma peça de design chique e um coração ensanguentado. 
Vão te perguntar de onde vem aquele coração e você vai ter mais uma história pra contar baixinho, no ouvido das garotas: essa é boa, quer ouvir? Eu no meio de suas carrancas, cabeças de faraós, estrelas e leões. O vencedor.
Pode voltar a respirar, pode fechar a janelinha emperrada da cozinha. Caso fique pesado para a sua decoração, me deixe com os bonequinhos do banheiro. 
Não serviu a saudade que eu sentia só porque você espremia saquinho por saquinho do shoyo longe de mim. Nem era longe, era logo ali, mas eu sentia saudade. Você queria uma prova, você queria a cabeça pra levar pro rei do seu peito. Você queria decapitar a mente que poderia te magoar.
Eu jurei, um dia, vendo você dormir e gostando tanto de você pra pouco tempo, que não teria medo e seria doce e não escreveria uma linha e você seria o escolhido pra não ser mais um escolhido.
Mas você levou meu coração, então só me resta a maldade, a bondade contrariada, que sempre me faz recorrer ao lugar comum de escrever um texto. O lugar onde tanta gente já esteve. O amor não é um jogo mas você ganhou. 
Daqui a pouco você vai se perguntar o que faz exatamente com isso, se não era melhor ter me deixado com o coração, assim eu poderia continuar gostando de você. Eu gostar de você só é um mérito se eu puder ir junto.
Talvez você me mande de volta o prêmio, a caixa rasgada, o papel dourado amassado, o laço frouxo, o coração assustado. E me peça que continue apenas sentindo saudade de quando você demora com os saquinhos de shoyo. 
Pra gente voltar de onde se tem coragem. De onde a pressa é angustia solitária e não um caminhão de lixo que se joga no outro. De onde a insegurança é um gatinho preso numa jaula alta e não um tigre alimentado pelo ego. O amor recém-nascido e alimentado com água pura. Eu estava nele quando você achou que diminuindo seu ritmo você aumentaria suas chances. 
O triste, e por isso eu te ligo e reclamo que é solitário, é que enquanto você pensa em chances, ritmos e ganhos, eu só penso em você.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Visão

Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Vai passar, você sabe que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'. Pois esse impulso as vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez' "
Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão das ruas. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa.Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia.Eu te amei muito. sempre disse, como você também disse. Pena que as grandes e as mentes confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, com carinho, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha por você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existiu em mim.
    Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender.