quinta-feira, 31 de março de 2011

Rivotril

Da porta da minha casa até a porta do táxi demora mas não me irrita. Lento, bem lento. O raciocínio diz tão devagar que deixo pra lá. As pernas estão tão devagares que deixo pra lá. Mas vou. A mala de mão pesa mas não machuca. As rodinhas da outra mala trururu, trururu. Viver agora é um embalinho de barco ou de berço. Podia enjoar mas a felicidade de agora não deixa. Felicidade é sono. O oposto de despertar. Felicidade é esse segundinho de sono entre seu sonho e algo na TV. Despertar é preciso, mas só depois. Agora embalinho de barco. As rodinhas fazem trururu, trururu. A dor está distante, em um planeta que guarda pra mim a dor. Pra depois. Por via das dúvidas, coloco outro Rivotril de 0,25mg embaixo da língua. Já tomei um bem cedo e quando chegar no aeroporto vou tomar outro. Somando tudo, são 0,75mg. A psiquiatra disse que posso tomar até 6mg por dia. E mais que isso? Ela muda de assunto. Mas com 0,75mg já fico bem legal. Bem legal mesmo. Pensa num dia que você tomou o vinho certo, transou com a pessoa certa e depois capotou num lençol de zilhões de fios egípcios. Atrás dos meus joelhos aquele gostosinho da fraqueza sem julgamento. Na minha nuca, o quente de algum colo que nunca vai acabar. Se o uísque é o cachorro engarrafado o Rivotril é a mãe empilulada. A mãe idealizada, claro. Mãe, não me deixe, segura na minha mão. Com 0,50mg já não sinto mais medo de algum moço ruim não me deixar entrar no avião com minha droga. Eu o abraçaria e cantaria "Just put me in a wheelchair and get me on a plane. Hurry, hurry, hurry before I go insane…". Não, não é essa. É o anjo que canta Candy Says. Mas que anjo? Ou o Bob falando cause every little thing is gonna be all right. Rivotril vai deixar seu cérebro musical pacas. A caixinha de música, lenta e constante. Ao invés da máquina macabra de datilografar desgraças cravadas no peito. Ao invés do vagão trem do horror passeando por baixo do esgoto e me dizendo que não tem ar, não tem ar, não cheira bem, é o fim, é ruim demais. Embalinho de barco, soninho de nenê, colo, quente, possibilidades. Demoro tanto pra falar o e-ticket que chegam os reforços. Descobriram meu segredo. Por trás dos meus cabelos rebeldes e dos meus enormes óculos de pessoa rica existe uma caipira assada porque está fazendo coco sem parar de medo. De medo do quê? De ter medo. Mas de ter medo do quê? Não sei, cara. Juro. Se eu realmente precisar te responder eu diria "ir". Eu tenho medo de ir. Não acordo para o Nutre de banana e nem para o suco de laranja com gelo de água de sabe-se-lá-a-procedência. Tenho medo do gelo do avião. Tenho fobia daquele cheiro de bafo enjaulado que forma crostas no ar. Dentro do avião fede. Se alguém espirrar vai pra onde? Não gosto de aeroporto, nem de avião e odeio particularmente os saquinhos de vômito. Tenho medo do som da privada. O limbo supersônico. Suas excreções explodidas no universo. Antes do aviso de desligar celulares minha mãe me liga e eu choro, choro, como eu choro. Não quero ir, não quero morrer, não quero as japinhas bebês sendo testadas por homens com roupa de apicultor pra ver se viraram armas nucleares, não quero as mortes da Líbia, não quero a patinha quebrada da labradora da vizinha, não quero que mãe e pai e domingos de sol com jornais acabem. Silêncio e segundos depois, minha mãe entre o susto e a vontade de rir, me fala "mas você só está indo fazer uma viagenzinha". Sim, sim, não se explica. Eu não sei explicar o que é isso que dispara em mim quando faço malas e vou. Como é que fica o mundo quando destranco minha bolha? Sofrer é de uma arrogância egocêntrica sem limites. Tenho medo de dobrar a esquina de casa. Tenho medo de fazer aniversários. Tenho medo de ser homem. Tenho medo que me magoem. Tenho medo de estarem rindo do quanto eu sou feliz quando alguém me abraça e eu me largo um pouco. Minha cabeça pesa quilos demais pro meu pescoço. Alguém por favor só me segura um pouquinho? Tenho medo de acordar. Tenho medo quando acaba a bateria do meu Iphone porque mexer nele me distrai de pensar como tudo é bem maluco. Estou quase dormindo, quase. Sinto uma tristeza profunda de ir. Ir é muito triste. E estou sempre indo apesar das minhas unhas desesperadas eternamente esfolando algum conforto que deixou saudades apesar de nunca ter existido. Mas o Rivotril vai comigo e daqui a pouco me traz de volta. Tenho 20 anos, sou um homem, a pessoa ao lado quer tranzar comigo, a reunião é sobre um lance bem maduro. Bem de homem bacana e foda que ganha dinheiro e manda nas pessoas. Bem de quem tem talento. Eu tenho talento, as pessoas me pagam, me querem, me obedecem. Eu quero minha mãe. Eu não sou esse cara que eu sou. Eu sou, mas às vezes não. É foda manter isso aí que sou o tempo todo. É um drama, uma novela, apenas uma reunião, em 42 minutos estarei lá. Depois estarei aqui. Depois mil anos e todos nós mortos e os depois de nós mortos. Depois mais amores que me racham inteiro e eu catando minhas bolinhas de gude pelos ralos de todas as cidades. Tenho medo de não ser pai,como acho que não serei. Tenho medo de não ter fome. Tenho medo de não dormir. Ou tudo isso demais. Mais um Rivotril. O restinho dos ratos gritando somem. O restinho das pombas macabras somem. O restinho dos corvos somem. Todos para longe. Lá vai o cara que assusta. Mas assusta principalmente eu mesmo. Minha psiquiatra me disse que não sou fraco, sou humano, mas, poxa, às vezes é bem fraco ser humano. Preciso gostar dessa parte, preciso gostar dessa parte. Tirar minha gravata amarrada no meu próprio coração. O céu está bem limpo enquanto eu durmo em algum lugar bem longe de mim.




quarta-feira, 30 de março de 2011

Do lado

Me enchi de artigos e frutas picadas no canto da mesa, querendo encontrar logo alguma ideia que resolvesse um trabalho que eu tava fazendo. Queria resolver, entregar, receber e voltar logo pra mim. Acho que desaprendi a trabalhar para os outros ou mesmo qualquer coisa para os outros. O que parece arrogância e depois de muito tempo dando nomes menos feios resolvi que é arrogância mesmo porque talvez esse seja o nome menos feio.

Foi quando chegou um rapaz e perguntou se alguém estava sentado ao meu lado. Só que não era um lado, era um super lado. Era tipo colado em mim. Era tipo quem visse acharia que estávamos juntos. Daí que achei melhor olhar bem pra ver se era o tipo do homem com o qual eu poderia estar, numa tarde de feriado ensolarada. Não era. Ou eu não sabia se era. Eu não queria ninguém ao meu lado. Não agora e nem nunca mais. O que obviamente era mentira mas saia com uma força ainda mais forte que a verdade.

Respondi o não mais agressivo e masculino que pude. De repente o mundo estava infestado de garotos bronzeados com suas camisetas. Todos os homens do mundo com cabelos bonitos e que são chamados em horas de profunda saudade e que roçam o nariz na bochecha de seus queridos e fazem barulhos de ratinhos carentes. E de repente, eu sabia, odeio quando chega isso, mas de repente eu estava muito sem ar, pra fora da bolha de oxigênio do mundo. Eu era um garoto mal vestido para o momento, trabalhando por grana em dia de sol e de mortos e de descanso. E que, só porque o café estava muito lotado, tinha um acompanhante que jamais perguntaria meu nome. E jamais saberia que, apesar de eu nem pensar mais nisso, no meio da noite, minha cabeça grita, noite após noite "como é que existe uma maldade que joga pessoas fora assim, mesmo sabendo tudo de bom que elas têm?". Minha cabeça grita noite após noite, quando eu não falo mais por ela e ela fala sem parar por mim e eu já até aprendi a deixar assim pra ver se gasta "como é que a coisa mais bonita que já me deram vem da coisa mais feia que já me deram?". Ele nunca saberia. Se eu não sei. Se você não sabe. Então ficamos sem resposta. Eu com meu trabalho. O mundo com sua comida. Lado a lado, todos, sem resposta, fechados em certeza e cara fechada e tudo fechado. Lado a lado.

O garoto pensando "coitado". Se é que ele pensa que eu gostaria de sentar ao lado dele porque tô achando ele lindo. Com tanto cara de camiseta e de gemidinhos de ratinhos em bochechas. Com tantos desses caras. Por que esse com essa roupa estranha, que trabalha por uns trocados em dia de ser livre ou mesmo morto e dorme e morre por uns trocados em dias de se esquecer na massa do mundo e quase ser feliz? Por que eu perguntaria o nome dele? Se não fosse, apenas, porque o café está lotado e ele queria sentar porque estava quente e eu, sempre sabido com essas coisas, tinha escolhido um bom canto. Eu sou bom de escolher cantos.

E então, por alguma coisa em mim que sempre tem dessas, essa coisa que eu adoraria entender, porque de verdade me escapa, me sacaneia, me é um adulto sábio e mais burro, que mostra pra mim que isso que me apego é só frescura e não saber viver. Um adulto que já desistiu sabiamente de ser adulto porque nunca se é como se planejou naquele dia de muita criancice. Eu olhei pra ele e sorri. Sorri. Porque se a pessoa mais doce que já conheci, se a pessoa mais sensível que já conheci, se a pessoa que me garantiu, segurando firme meu corpo no meio da noite, eu sempre querendo ir respirar pra fora do amor, e me disse que tudo bem, eu podia ficar. Era possível ser e ter e durar e florescer e tudo. Se a pessoa que poderia saber de alguma coisa sabia muito infinitamente menos que eu. Se tanta doçura no meio da noite me volta como um estômago estuprado. Então que esse moço passageiro e sem rosto e sem intenção ficasse com meu sorriso. Porque estar ao lado de alguém é só um mundo apertado e uma vontade de comer até enojar e uma licença pra existir e um descanso como dá. Até resolver o trabalho e receber e ter forças pra seguir e segundos antes de dormir pra ter coragem. No dia dos mortos. Ao lado do mundo, sempre à margem, quase nele, quase dele. E o que ele me deu depois do sorriso eu nunca vou saber porque o bom de ter essa dor que nem dá pra mexer é pouco nos lixarmos pras pequenas felicidades

sexta-feira, 25 de março de 2011

O mundo é uma revista chata.

Desfiles, indicação de livros, ótimas músicas para baixar,festas para tocar, fofocas e últimos trabalhos importantes, alguns clichês, a personalidade do momento, uma sessão de piadinhas, dicas de comportamento pra não afugentar o próximo e a crônica final: um relato pessoal cheio de trocadilhos e "pseudos" momentos de alma. Qualquer amigo, qualquer almoço, qualquer telefonema, qualquer encontro de galera animada, qualquer papo virtual, qualquer café com alguém cabeça, se parece com qualquer revista chata. Uns são Nova e outros Bravo. Mas não passam de papel com brilho. Viram lixo na semana seguinte, na hora de pintar as paredes ou da Laika mijar. Todo e qualquer ser humano cheio de ideias não passa de um jornalista mala em começo de carreira querendo montar uma revista sensacional e inédita que o mundo inteiro já montou. Tá todo mundo falando, falando, falando a mesma coisa de sempre. Do mesmo jeito de sempre. E comendo as mesmas garotas de sempre. Com a ressaca de sempre. Com a vontade de morrer de sempre. E o alpino melhorando a vida por alguns segundos depois da massa ruim de microondas ou da rebarba de gordura no peito de peru light.

As regras do jornalismo. Sempre as datas, lugares e filiações. Sempre os sonhos pra daqui dez e há dez. Sempre os personagens simples das esquinas e a necessidade do povo de ser. Até o ônibus te fechar e o Hitler "baixar" em você. Isso ninguém publica ou fala. Igual, igual, igual. Um lugar pra chamar de seu. A mina da vez. Mil lugares pra se matar antes de morrer. A volta por cima. Ele veio pra ficar. O mundo é uma revista chata e igual.

A banca de jornal tem cara de boteco cheio. Uma solidão profunda. Mil assuntos gritados egoistamente e todo mundo se perguntando em silêncio se já pode ir embora sem parecer um maluco que fica em casa fritando a cabeça. As gordas gostosas de obra usando sandálias de plataforma e encantando os super bem sucedidos profissionais assistentes de firma falida. Hmm, hoje vai rolar um sexozinho gostoso com uma bunda falante. A VIP nem colunista tem mais. E infinitas mesas de cariocas ultra felizes ainda que mais da metade ali nunca tenha pisado no Rio e só ache sexy fazer chiados ou falar garçom com sotaque menos caipira. Bancas de jornais, com as revistas penduradas pra fora, voando um pouco pelas laterais, quase no seu colo, "splashs" implorando pra serem levados, tudo grita, uma explosão de cor que acaba num cinza amorfo. Cadeiras pra fora dos botecos. Tudo igual. Um segundo ali e você acaba comprando um assunto chato pra se distrair, ocupar os dedos folheando e não beliscando o centro do peito como a tal da ave que comia um fígado. O fingimento da não angústia compartilhada chega tão perto da alegria que a coisa volta pra você numa tristeza ainda pior. Coxinha com bebida mesa capenga e elogio falso. Azia arrependida mas melhor que o oco. Qualquer merda dentro da gente é melhor do que o nada. Vomitar o nada seria conhecer um universo paralelo que nem dá pra passar pelo pensamento. Então vomitemos coxinhas. Moça bonita na capa na lata de lixo. Chorume na coluna do psiquiatra das estrelas. Chato, chato, chato. Por isso, e só por isso, ainda insisto na amizade com quem, livre de parecer ou ser ou se sentir qualquer coisa, fala de escatologias. Ao resto das revistas todas, dedico breves encontros enquanto estou cagando.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pra lembrar da dor

Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?
Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim?  Não venha com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz um ano de análise, já surtei, lembra?enquanto os outros, solidários e positivos, apertavam meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, amigo, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertáriabababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta,cadê o potencial criativo?
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente?No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poçodo poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? Agente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói.Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperado, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louco nem bêbado, estou é lúcido pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santo, absolutamente puro, absolutamente limpo, depois tomo outro porre, ou ligo para conversar às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?
Naqueles dias eu Andava angustiado demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, um logo tempo adolescente de convívio cotidiano, mas andava, andava, tinha uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Por favor me contem outra que dessa eu já estou vacinado!