quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Mano


E aí, Mano? Naquela última vez tu me disse que estava bem, e pela primeira vez me convenceu. Sei como é isso de estar tudo bem, estar feliz, de bem contigo mesmo. Já ouvi muito falarem. É o slogan oficial das pessoas ao redor. Mas não se preocupe, até que estou legal, só que ainda tenho problemas de visão. Como vai a medicina? Não tenho nada pra dizer, como pode ver. Só acho que estamos nos vendo pouco, em momentos demasiado formais, com montes de gente na volta. Queria jogar umas pedras no rio contigo, sem precisar falar nada. Não curto muito falar, tu sabe.

Esses dias, num bar, ouvi “Teatro dos Vampiros” e lembrei de nossa época. Me matei rindo ao lembrar que tu cantava “Vi capoeira se escondendo pelos cantos...” e eu te corrigia toda vez é “É ‘Fica a poeira se escondendo’... caralho!” (Risos.) Tanto tempo depois, acho que essa música não faz muito sentido na tua vida, esse lance de não ter dinheiro, de estar procurando emprego, badernas com garotas e tudo mais. Tu é um médico casado agora. Aliás, como vai a Natália? É uma ótima pequena, ela. Bonita, divertida, parece cuidar bem de tudo que merece cuidado. Tu se deu bem na vida, não é, Mano? Eu continuo inadequadamente o mesmo.

Estava saindo com uma até semana passada, mas sabe como é. Sou sozinho, não sei dizer não, aí elas vêm, comem minha comida, atiram suas calcinhas no meu cesto de roupas, depois aqueles papos vagos e reticentes de que o mercado imobiliário de e  Belo Horizonte está um absurdo, e quando vejo estou virando um consorte magrelo. Não quero mencionar mais nenhum cara. Ela não era nenhuma Natália e eu não daria um bom marido, então foi melhor desse jeito, cada um para o seu lado. Sentiria falta, se não tivesse me acostumado. Minha vida amorosa sempre foi uma esteira rolante, tipo aquelas de indústria, sabe? Sou esse péssimo operador de máquinas, eu me distraio, e elas acabam se chocando umas nas outras.

Fico solteiro e já penso em comprar uma moto. Sei o que tu está pensando Mano, que estou vivendo uma crise da casa dos vinte e alguma coisa, crise pré formatura. É que os velhos estão com saúde, não tenho filhos, propriedades, e nem o diabo de um amor. Isso diminui o medo de morrer. E tu sabe melhor do que ninguém, um dia a moto te ganha. (Ah, o tornozelo ainda dói? Futebol nunca mais, mesmo? Putz, você gostava tanto) Pensei em mudar estrategicamente. Pensei em Rio de Janeiro. Fica perto da praia, daí da tua casa. A droga é que lá não tem emprego sobrando. Mas é só um plano, entre os milhares que já tive e nunca realizei. Sempre fui o rei dos planos, péssimo em execuções.

Esses dias me chamaram para uma entrevista. Aquela fileira de gente engomada do outro lado da mesa, me fazendo perguntas idiotas. Se eu tenho namorada, onde quero estar daqui a cinco anos, qual meu pior defeito. Porra, como vou saber essas coisas? Bem, disse a eles que não gostava muito de falar, que era de ficar na minha. Pelas caras tortas, não gostaram muito da minha sinceridade. Esse pessoal de recursos humanos não enxerga nada. Se sou retraído não é porque sou alheio ao mundo, mas porque sou sensível a ele. Vejo coisas que os outros não. Sei lá, li isso numa revista aí. Minha timidez é como uns óculos de sol, se eu detestasse o verão não haveria por que usar. Só que eles vêm com aqueles papos de “vestir a camiseta”, querem que a gente se empolgue com um trabalho que não faz sentido algum. Tu já salva vidas, não deve ter esse problema. Mas por que o mundo todo gosta tanto de mentir para si mesmo, hein Mano?

Algumas pessoas dizem que nunca mentem, e essa é apenas a primeira de sua série de mentiras. É tudo em nome do conforto. Vendedor hoje em dia é “consultor de negócios”. Um consultor de negócios me vendeu uma torradeira esses dias, e ganhou dois pilas de comissão. Não dá nem um maço de cigarros. Os afro-descendentes, os deficientes visuais, ninguém mais é negro ou cego. Está tudo muito chato. A religião, por exemplo. Eu não conseguiria atravessar a única vida que tenho seguindo as normas de um deus que eu nem sei se existe, que quer ser reverenciado o tempo todo, que só me faz sentir culpado.

Ok, Mano, já vou indo. Vai dar um pouco de atenção pra tua mulher. Só estava meio vazio, querendo falar uns troços pra alguém de confiança, jogar conversa fora. Está todo mundo ficando velho e esclerosado por dentro. Os bares estão perdendo feio para a TV, não há mais ninguém nas ruas. Não tenho me identificado muito com ninguém. Mas tudo bem. Levei um tempo até entender que pode ser muito libertador não se sentir parte de nada. E tu sabe como sou, dramatizo para dar às coisas a importância que originalmente elas não têm.

Um abraço, Mano.
Eu te amo, cara. Tu sabe.
Fica bem.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Especial mas não o suficiente.

Sei lá, há montes de regras ou talvez seja fricote demais pra minha idade.  Não sou homem o bastante para dizer pessoalmente.  
   Me senti especial por dois dias inteiros pela existência de  alguém inteiramente meu de verdade, No horário nobre, de cara limpa, de verdade.  Por mais que seja intensa a loucura não encare como uma.  Não sei mais como se faz isto, corro como ratinho que sou em uma eterna roda para ratos, cachorro correndo atrás do próprio rabo, dando voltas em si mesmo. 
Eu poderia fazer uma lista com no minimo cem linhas de todas as qualidades que vi em você,  poderia descrever a vontade que tive de desarmar o soldado embaixo da minha pele e dizer que queria ficar, no entanto não consigo. 
   Achei que já estava pronto para algo assim, para alguém como você, mas não estou, não resolvi questões minhas que precisam ser resolvidas antes de começar algo bom, não estou inteiro, uma relação requer integridade  em todos os sentidos que se possa pensar.
Não estou preparado para um relacionamento tão pouco para essa coisa de one-night-stands, o que me resta ficar sozinho. 
Desculpe-me por tudo, mas não consigo fazer isto com você e nem comigo, se não posso ser o melhor que não seja nada.

Pateticamente mas como muito carinho.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cachorro latindo.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

O chato


“Estou apaixonado por você. Mas só por hoje. Ou melhor: até amanhã, ou enquanto dure o efeito do álcool… mas não me peça exclusividade, sabe como é que é, tem muita gente por aí, uns exs inacabados, estou trabalhando muito e também tem outras coisas e tal… você entende, não é…?”- Claro, afinal, ninguém quer ser careta.
Existe uma plasticidade que insistem em chamar de contemporânea no mundo do amor. Certo valor mercadológico que torna as pessoas cada vez mais descartáveis. Namorar está em desuso: vivemos um relacionamento. Rola um lance, um clima. Depois, beijos e abraços, gritos roucos. Enfim. Nada de casamentos arrendados, namoros por conveniência. Os tempos são outros. Tudo flui. Mas não chega a lugar nenhum. Afinal, como disse Caetano: “ele me deu um beijo na boca e me disse: a vida é oca como a toca de um bebê sem cabeça”.
É inevitável pensar que quanto mais insistimos em achar a pessoa que faça o coração valer a pena, proporcionalmente, mais confirmamos que não fazemos parte da regra. E é difícil viver em exceção. É piegas ser romântico… quer dizer… shhh… ninguém pode saber que eu quero me apaixonar. Na verdade, esquece isso. Essa coisa toda de amor.
Esse negócio de querer encontrar um namorado, alugar um apartamento, adotar um yorkshire e comprar um aquário enorme para sala é muito antiquado. Algo tão chato atualmente. Todo mundo procura outra coisa. E embora ninguém a ache nem saiba exatamente o que é, faz muito mais sentido ser moderno do que a ideia old-fashioned de happy ending.
Escrever sobre amor parece bem menos entusiasmante do que  escrever sobre traições, separações e disfunções.
- Lá vem aquele chato, falando de amor de novo. Esse cara só fala disso.
Me desculpem, é que pra ser sincero, às vezes, me sinto um tanto disfuncional no meio dessa era do não-amor e apostar em algo frívolo, efêmero e substituível. Mas tem nada não. É só um leve dissabor, afinal, ainda com Caetano: “Eu queria querer-te amar o amor, construir-nos dulcíssima prisão. Encontrar a mais justa adequação: tudo métrica e rima e nunca dor. Mas a vida é real e é de viés e vê só que cilada o amor me armou: Eu te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és”.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O mala.


Imagine que tenho uma mala muito pesada com um milhão de moedas de ouro. As alças ficam penduradas no meu pescoço, me forçando a cabeça pra baixo, retesando os músculos do olhar pra frente.
Vez ou outra, uma pessoa da rua passa e tenta me roubar. Mas, por mais que esteja tão pesado e doendo e estragando a minha coluna, luto até a morte pra proteger a tal da mala. Automaticamente me atiro contra o chão, como se protegesse um filho das balas. São terríveis esses quilos centralizados no ponto mais fraco do meu corpo, mas pra violência a gente não entrega nem os fardos.
Dai, também, às vezes, uma pessoa da rua se oferece pra carregar a mala pra mim. Ou pra guardar em sua casa. Ou pra dividir o peso ao estilo “uma mão em cada alça”. Também não consigo entregar meu arqueamento e tamanho para essas pessoas. O amor gentil nunca me conquistou. Gentileza é coisa pra quem nunca será íntimo. Solidariedade é coisa pra campanha política. Felicidade é pra quem se conforma em ficar num lugar só porque está bom.
Mas muito de vez em quando, como aconteceu com a gente, aparece uma pessoa que não me pede nada e pra quem eu tenho vontade de entregar cada moeda da minha mala com um milhão de moedas de ouro. Tome, leve, gaste, use, encha a sua banheira com elas e depois me mande uma foto.
Eu sou um mendigo ao contrario. Eu ando pelo mundo implorando pra que alguém aceite a minha riqueza. Fico sentado no chão, tocando meu instrumento, com um chapéu imenso e lotado. E a plaquinha “por favor, não me ajude”. Muitas pessoas passam, mas pra poucas me levanto.
Posso ficar horas tentando te explicar. Você tem um resto perdido e solitário de sobrancelha ao lado da sobrancelha esquerda. Você tem pequenos buracos entre os dentes de baixo. Você molha o lábio com a língua ainda mais seca que seus lábios, quando está nervoso. Você joga seu maxilar inferior pra frente quando a risada é de deboche. Você joga o seu maxilar superior pra frente quando a risada é de timidez.
Você atravessou a rua com as mãos congeladas dentro do bolso. Você pede perdão pela sua parte playboy com a doçura e a sinceridade de um poeta descalço. Você me convida pra almoçar no restaurante onde terminamos e, porque sabe ser piadista exatamente do jeito que combina comigo, explica detalhadamente onde é o lugar como se eu não lembrasse dele todos os dias.
Eu vejo a palavra “reply” no meu celular e, só porque tem a letra “y”, a letra mais forte do seu sobrenome, sinto de leve um chutinho atrás dos meus joelhos. Eu poderia ficar horas te explicando por que eu acho que é amor.
Você outro dia fez o exercício contrário. Ficou tentando me explicar por que não é amor. Falou da minha amargura verborrágica, das minhas fases com remédios , do quanto odiava quando eu tentava extrair mais e mais e mais do seu peito protegido pelas várias jaquetinhas modernas que parecem paletozinhos mas têm zíper e, por fim, disse que apesar de não simpatizar com elas, prefere os meninos que te fazem sentir de férias em um spa relaxante.
Não são por essas coisas que não se ama. Não são por essas coisas que se ama. Essas são apenas as coisas sobre as quais conseguimos falar na nossa ânsia de ocupar a cabeça enquanto nos encaramos um pouco assustados.
A verdade é que, no meio da multidão, estamos carregando nossas malas pesadas de riquezas e belezas e sentimentos. E uma hora, só porque acontece e não se pode explicar sem parecer ingênuo e arrogante, escolhemos uma pessoa que nos leve.
Eu sei que é amor porque eu te escolhi pra me levar e, mesmo você não tendo aceitado, eu fui.
Eu te vi atravessando a rua com as mãos frias dentro da “jaquetinha paletó que tem zíper” e fui lançado sem tempo de pena. Você não sabe, você não vê, você não quer, você não se importa. Mas, no último segundo do sinal fechado, eu abri a janela do meu carro e joguei a mala com milhões de moedas de ouro.
A mala não te atingiu, caiu meio metro antes do seu último passo. Nem o som do meu peito desmoronado, nem o cheiro do meu amor metalizado, nem a luz da minha devoção dourada. A mala espatifou no meio da avenida caótica pela chuva e pela véspera do feriado. Os famintos, os entediados, os pobre-ninguéns, os todos-os-outros, se engalfinharam pra tirar proveito do amor que, lançado ao homem sem mãos aparentes, agora ficou esparramado, exposto e restante no asfalto, como um resto de feira reluzente.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tomates prodres

Nós somos claramente responsáveis pelas consequências das nossas atitudes. Como há duas semanas, quando me dei conta de que tinha guardado a conta de luz de março e esquecido de pagar. Foram três horas vivendo na Era pré-Thomas Edison, em um dia cheio de textos deixados para a última hora.
Nós também somos responsáveis pelo que dizemos - e pelo que deixamos de dizer. Sou pentacampeão mundial na categoria falar coisas horríveis sem pensar. E, na maioria das vezes, o arrependimento vem durante o vômito de palavras inconsequentes, raramente acompanhado de um pedido de desculpas. Porque sou hexacampeão em orgulho idiota.
Nós somos responsáveis - ou pelo menos tentamos ser responsáveis - por uma lista infindável de obrigações morais. Não conseguimos nem nos livrar daqueles que cativamos. Como decretou Saint-Exupéry em "O Pequeno Príncipe", somos eternamente responsáveis por essa gente. E eu sei bem disso, pois não suporto a ideia de que exista alguém no mundo que não goste de mim.
A justificativa para todas essas responsabilidades, incluindo a de ficar fortão, bem vestido, ter um trabalho apaixonante e uma pessoa incrível para amar e ser amado, é chegar a algo próximo do que se considera "felicidade".
Mas será que, assim como nossas contas para pagar, nós somos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade?
É natural pensarmos que não. Aprendemos desde cedo, na escola, que os seres humanos dependem de outros seres humanos. Lembro da professora de "Atualidades" falando sobre como o comércio é uma das provas de que não somos autosuficientes. Nós precisamos trocar para sobreviver.
E seguindo essa lógica, seria, de fato, impossível ser feliz sozinho. Tom Jobim devia concordar com a minha antiga professora de "Atualidades". De repente eles até já se pegaram. Isso explicaria muita coisa do que ela dizia nas aulas.
De todo modo, se eles estiverem certos - minha professora de "Atualidades" e o Tom Jobim - então a felicidade está fora da nossa esfera de responsabilidade. Nós dependemos da troca com outros seres humanos para sobreviver. Nós dependemos do quanto os cativaremos e do quanto seremos cativados por eles. Nós dependemos das suas escolhas, das suas palavras e das consequências de suas atitudes. E, por isso, meus caros, seja como for, a culpa por nossos infortúnios jamais haverá de ser nossa.
Ufa.
Acontece que, ao nos livrarmos do terrível peso de sermos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade, adquirimos outras cargas, tão trambolhudas quanto. Como a autopiedade, por exemplo. Culpar o mundo pelas injustiças sofridas, lamuriar-se pelas tristezas vivenciadas, sofrer, sofrer, sofrer, e depois sofrer mais um pouco é o que os seres humanos fazem quando isentos da responsabilidade de serem felizes.
Ok, nós precisamos da troca com outros seres humanos. Nós damos batatas e recebemos tomates de volta. Só que se os tomates vierem todos podres, cabe somente a nós decidir o que fazer com eles. Podemos sentar e chorar, nos vitimizar, repetir que "só acontece comigo", que "é sempre assim", "ó vida, ó azar"... ouuu - e sim, existe um ou - podemos elegantemente juntar os tomates podres, jogá-los na lixeira e fazer o melhor que nos for possível com as batatas que restaram na despensa.
Não digo que é um trabalho simples. É milhões de vezes mais tentador chorar pelos tomates podres no chão. Eu, por exemplo, seria um suicida nato, não fosse pelo meu egocentrismo exacerbado. Sou bom demais para morrer, seria um desperdício. Mas tenho total consciência de quando escolho ser infeliz. É aquela fração de segundo em que você deliberadamente opta pelo sofrimento. Você tinha escolha, mas preferiu a habitual dose de autodestruição e autopiedade. E é quase compreensível. É muito mais fácil ser infeliz.
Para tentar ser feliz, você precisa assumir responsabilidade pelas trocas efetuadas com outros seres humanos. Para o bem e para o mal, você é o único responsável pela forma como essas negociações te afetam. Já para ser infeliz, você não precisa fazer absolutamente nada. É só esperar um pouco que os tomates podres virão. E eles virão aos montes.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cheio de vazio.

Copo cheio, relações vazias. BH virou sinônimo de open bar. A excitação e ansiedade pela “balada perfeita” traz como conseqüência do dia seguinte a carteira vazia e o fígado cada vez mais debilitado; isso para não mencionar os resultados da trágica mistura “álcool + volante”.

É assim que muita gente tem vivido por aqui; buscam fugir dos problemas, frustrações e insatisfações em ambientes superficiais, onde a “alegria” é efêmera e desprovida de sustentação. Chega a ser um vício muitas vezes difícil de detectar. A fórmula já é mais do que conhecida: bebida liberada, ambientes super povoados e imagem sobrepondo ao conteúdo.

Não há nada de errado em curtir uma balada, sair para se distrair, deixar de lado as preocupações. O problema é quando a exceção vira regra, quando a quantidade é mais importante que a qualidade. O “baladeiro” não quer perder seu tempo se preocupando com os outros, quer satisfazer seu ego e suas vontades a seu tempo e modo e em seguida partir pra novas aventuras. São pessoas que não suportam a própria cia, precisam desesperadamente da adrenalina alcoólica para se sentir preenchidas. E o ritmo tende a acelerar cada vez mais, já que o efeito da “droga” é curto.

Em meio a tudo isso temos ainda o paradoxo de que grande parte dessas pessoas anseiam e procuram por alguém que supostamente seria o responsável para encerrar toda essa fase descompassada. Ora, sendo bastante simplista: se nesse tipo de ambiente dificilmente se consegue ouvir a voz do outro, como seria possível conhecer uma pessoa disposta a iniciar um relacionamento sério? E mais, por que acreditar que um namoro tem o poder de consertar tudo e colocar as coisas no lugar? Somos inteiramente responsáveis pela nossa felicidade, estando acompanhados ou sozinhos. Atribuir a alguém o poder de solucionar nossos problemas é o primeiro passo pra derrocada de uma relação.

Como já foi dito certa vez, vivemos na era do “fast-food” e da digestão lenta, do homem grande, mas de caráter pequeno; das casas chiques e lares despedaçados; do excesso de vaidade e lucro e das relações vazias. Para aqueles que insistem em permanecer no ciclo vicioso da futilidade, meus pêsames. Ninguém é melhor do que ninguém, o que temos de mais valioso não é possível se enxergar a olho nu e as nossas melhores experiências não são vivenciadas quando estamos bêbados. Portanto, saia do “transe” enquanto é tempo, tem muita coisa interessante por detrás das cortinas deste espetáculo bizarro.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não é novidade.


O de sempre, basicamente: ainda que com a porta fechada, pela janela eles pousam no meu quarto com alguma das asas machucadas, sofridos, desmoronando, com uma carinha irresistível de choro. Eu dou meu carinho de pai, meu amor de home, meu papo de irmão mais novo, meus conselhos de melhor amigo e quando eles ficam mais corados e sorridentes, lá se vão, batendo as asas, para alguém mais ensolarado que eu. A mesma coisa, toda vez. Eles vêm, eu os conserto, eles vão. Eles vêm, eu os conserto, eles vão. Eles vêm, eu os conserto, eles vão.

Talvez eu seja algum tipo de oficina de homens que sofreram maus tratos de algum momento do relacionamento anterior. Quem sabe eu compre um espaço no jornal e coloque um anúncio com a descrição dos serviços oferecidos, pois claramente meu negócio está indo bem. Deveria existir uma parte no meu cérebro, um órgão qualquer, que regule as propagandas enganosas que chegam à tela do meu córtex, que selecione melhor o que vai me tirar o ar, já que que auto-censura nunca foi meu forte.

Acho que é por esta razão que as pessoas tanto associam o amor à mágica. Às vezes alguém me mostra um pouco dele, e depois o faz desaparecer numa cartola. E eu me pergunto: ei, como você consegue fazer isso?

Aí, eu encontrei você, nós nos conhecemos, eu te consertei, te fiz perfeito pra mim, nos amamos, ficamos  juntos e agora você está voltando pra casa.

Naquele cenário infeliz de sobras de chá de cidreira, lenços de papel amassados pelo chão, cobertor no sofá, cadeiras fora do lugar, mala aberta por sobre a cama, livros e CDs embrulhados, dentes e sorrisos guardados, eu não disse nada, quase nada, até porque seria uma deformidade. Mas estou dizendo agora. Desculpa por nunca considerar você uma aposta segura e razoável, por ficar noites de guarda te esperando cometer um erro dantesco e irreparável e definitivo todas as sessenta semanas que passamos juntos, e que devem ter sido incríveis – um dia, quando tudo isso passar, e eu me esquecer do seu rosto me dizendo “eu quero que você se dane”, você me conta. Desculpa por nunca, em nenhum momento, deixar de acreditar que lá fora existia um cara imperfeito pra mim, ou pelo menos melhor do que você, em todos os aspectos. Desculpa por agir feito um diabinho sempre espetando com um tridente nossos ocasionais dias de sossego.

É que na minha cabeça já estava tudo preparado pra dar errado. Eu não mudei toda minha estrutura de vida, eu não conheci seus amigos de infância, eu não planejei uma viagem de férias, eu não parei com nada, eu não... nada. Eu sempre vivi uma vida de propagandas e na primeira oferta concreta e interessante que recebi, era tarde, eu já tinha vendido minha alma.

Quando eu te chamava de “amor”, não sei, era só um modo de falar. Talvez minha liberdade seja um poste sem iluminação onde ficarei acorrentado pelos tornozelos para sempre. Porque, eu sei. Tudo pode mudar o tempo todo e, tola, sofro desse medo; quando o real perigo à espreita é nada acontecer.

E nada aconteceu. Eu meio que sabia onde as coisas iam dar – foi quase, mas não deram. Não deu. Não dei. Valeu a tentativa, o empenho, o interesse. Eu não estava prestando muita atenção, mas posso sentir em algum lugar aqui dentro de mim que foi bonito. A gente ainda vai se falar por aí, essa não é a conversa final, eu sei como você é.

segunda-feira, 19 de março de 2012

E se eu fosse seu vampiro?


Estou de preto. Calça, sapato, blusa, óculos. Os caras da recepção da academia, que sempre me olham com certo ódio típico de homens que servem homens, me respeitam tímidos dessa vez. Como se eu fosse velho ou aleijado. Isso é um gozo dentro de mim. Sofrer por amor é um gozo. Me faz sentir superior porque carrego essa estrela negra. E carrego esse céu escuro. E esse cemitério de felicidades. E poros que sangram em silêncio. Tudo isso faz de mim um peso de papel. E meus pensamentos não voam mais descom-promissados e jovens e coloridos e destacáveis. Eles se unem para, num bloco só, sentir sua falta. Que é algo imenso demais pra se sentir sem estar todo. E por isso, por eu ser agora um peso de papel de mim, as pessoas me velam tristes como se eu estivesse ligado a um soro ou como se eu estivesse acenando a elas, de longe, de um lugar devastado por alguma guerra ou vírus. Como se, de dentro de um planeta que sofreu irradiação, eu acenasse protegido por vidros antes de virar pó químico. Elas me olham como se eu fosse um peixe envene-nado num aquário abandonado.
Ninguém me olha, na verdade, mas fantasio tudo isso e é de fato muito arrogante ter um peito apaixonado. Pra que o peso do peito apaixonado não nos faça caminhar de ponta cabeças, empinamos com toda a força o coração. Como se fossemos muito diferentes e especiais por estar assim. O estado interessante. A gravidez do peito. O peito com alguém dentro.
Não se sinta mal por eu ficar doze horas do meu dia olhando um ponto invisível na parede. Ou por eu gemer de leve quando chega a hora de eu acordar. Ou pela dor nos meus ombros sempre me avisarem que será mais uma luta pra não ouvir a sua voz, a mais bonita voz que se tem notícias pelos ares do mundo. Ou por eu segu-rar os instantes quando afundo na água, em segundos dramáticos de desistência. Ou por eu ter sempre molei-ras de lágrimas iluminando meus olhos. Eu gosto disso. Eu gosto de caminhar soberbo e duro e pesado e arras-tado e arranhado e retesado e ensanguentado pelas ruas. Eu gosto de ser um escombro perambulando entre todos que não estão apaixonados por você e, só por isso, são inferiores a mim. E de ver o vazio, o normal, o médio, as pessoas, e me sentir mais alto. Ou baixo. Mas sempre de outro lugar. Eu gosto do coração barrigudo e disso me fazer imenso e cheio de você. Implodido de você e sentindo as dores e as fumaças de andares que desabam quando você diz que agora só amanhã ou depois de amanhã ou nunca.
Pode até ser que outra pessoa te tenha agora andando pela casa e dormindo na cama e pegando uma água na geladeira. Mas eu tenho você no meu fígado e rins e veias e artérias e sonhos e líquidos e células.
Eu gosto da lama viscosa escorrendo dos meus ouvidos. E do sangue esguichando do meu nariz. E dos rios infinitos jorrando dos meus olhos. E do exagero e da histeria e da psicopatia e do delírio que é estar apaixona-do. E de eu ter doze anos e ter medo de morrer de tanta atrapalhação. E de como todas as pessoas que já me deixaram assim são automaticamente zerados quando eu sinto de novo. E de como estar idiota assim parece novo e inexperiente porque sempre só se fica idiota assim pela primeira vez. E do animal cabeceando a jaula até a cabeça, antes enorme e agora comprimida e amassada, passar pelo pequeno vão livre e conseguir ir até você. E de como a gente se agarra a uma migalhinha de razão de areia flutuando num mar bravo. E da mesa com cinco amigas preocupadas, me vendo chorar no restaurante, enquanto sorrio e choro de novo. Eu gosto disso tudo, desse drama todo, dessa dor, das minhas olheiras, da minha face afundada pelo murro do amor. Eu gosto como as músicas e os filmes e as praias e os livros e os silêncios e as nuvens e os abraços e a noite e tudo ficam gritantes e insuportáveis e brilhantes e verdadeiros. De mim zumbi, do corpo que parece ter apa-nhado até cair inconsciente, do quase vomito ansioso e latejante no meio do peito.
Então não se preocupe. Você não importa mais. Você já pode ir. Não me lembro mais seu nome ou cheiro ou o que sinto quando sua mão esmaga minha pele arrepiada. Eu sou um vampiro que sobrevive em beber o próprio sangue. Eu só preciso das pessoas para que elas me salguem. Me deixe assim e depois apenas me deixe. Agora eu fico aqui, me chupando até que eu perca novamente o gosto.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O post-mortem do amor.

Outro dia me surpreendi quando me dei conta de que é assim mesmo que começa. No aniversário de oito anos de minha irmã mais nova, ela o aguardava com seus grandes olhos azuis brilhantes e seu coraçãozinho pequeno de criança batendo forte, peguntava a sua amiguinha, será que ele vem mesmo? Ele demorou e com seu humor tempestivo de criança por volta de meia hora de atraso decidiu que não ficaria mais na festa, sem seu presente não faria sentido, não faria sentido todos os balões, as palpitações, a falta de ar, o bolo da moranguinho e muito menos balões cor de rosa ou balinhas de todos os sabores. Ele chegou com aquele sorrisão pedindo desculpas dizendo que a sua mãe demorou muito para dar seu banho e ela como todo bom apaixonado aceitou as desculpas desconfiada e em sua mente infantil não conseguia se desligar nenhum minuto se sentido traída pelo nada, pois não sabia o significado da palavra traição pois para ela poderia ser qualquer coisa que a impedisse de realizar a sua vontade que naquele momento era ter aquele menininho magro e sardento em sua festa, em seu coraçãozinho.Depois passou, ela acordou e aquilo tinha sumido, o aperto no peito,as bochechas rosadas, tudo,tudinho havia passado. Aí voltou normalmente para as suas atividades corriqueiras na qual executa muito bem, como dar banho em suas bonecas , preparar lindas tortas de mentirinha, e achar meninos irritantes. Comigo foi mais ou menos assim, todos os dias eu  esperava por aquele segundo que antecedia a sua chegada, aquele momento de frio na barriga, de olhos arregalados, de desejos adultos, urgências, cala frios. Eu achava que nada mais importava apenas você e eu, seu gosto, sua pele, sua chatice, seu ciumes bobo, seu medo de ficar sozinho, suas declarações ou qualquer coisa que você poderia ser para mim. Até que um dia ela chegou  sem avisar, ríspida, sem razão nenhuma, a traição, eu também não sabia muito bem o significado dessa palavra , mas para mim poderia ser qualquer coisa que tirasse você de mim, no nosso caso a pior delas, você deixou de me amar, sem avisar, sem doer, só deixou de amar, daquele jeito que só as crianças gostam, dormir e acordar sem nada no peito. Hoje depois de um certo tempo eu acordei e não tinha mais nada aqui dentro, tão natural, sorrateira, apenas se foi. A verdade é que ninguém nos prepara para isto para o post-mortem do amor, só passa , e você não sabe muito bem o que fazer com isto.

  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Shy

Sempre fui assim, acanhado; despercebido, low profile. Foragido de gritos escandalosos, abraços demasiadamente apertados, ou barracos em lugares cheios. Cético, escolhia ficar de fora de todo esse tráfego intenso de movimentos e superficialidades. Observador das sensações alheias, interrogador de dores e delícias, questionador de posicionamentos, virtudes, e verdades. Contudo, mantendo tal barreira divisória e indivisível; necessária. Aquele ponto crucial entre se tornar, ou ficar apenas na especulação. E aí, às vezes, vinha alguém e comentava com não sei quem outro, fulano de tal, o que chegava até mim: é metido. Ou diziam então, que: ele é esnobe. Enjoado. Quando na verdade, era só essa minha mania infantil de observar o movimento dos corpos, suas alegorias endógenas e restritas, tentando decifrar sempre, quando é que o ser que somos de fora, se une à toda essa intimidadade oculta que carregamos dentro de nós. Ver, antes de agir; sempre. Sem nunca encontrar a resposta, me permitindo teorizar que, alguns vinham para a vida carregados de uma sorte que, outros só teriam em pensamento - ou sonho. E falavam então, que ela olhava de cima, por entre o nariz empinado, e o pescoço erguido (com um ar superiormente egípcio que nem eu mesmo havia conhecido em mim), com desprezo e dó por todos esses e aqueles que por entre o cotidiano atravessavam. Enquanto não passava de uma menino com olhos atentos e vivos, a boca semi-cerrada , figurando a mesma cara amarrada de sempre. Inseguro, descabido em si. Olhando para os pés, ou mesmo decifrando o chão e quaisquer desigualdades nele postas, caminhos ainda incompreensíveis, distintos. Ajeitando as roupas meio amassadas, e fingindo pouco ligar pro resto do mundo: feliz apenas em estar consigo e ninguém mais; completo numa solidão cúmplice de ser sozinho - e não se descabelar por conta disso. Tendo em mente que em sua própria companhia, não há margem para o erro, não existe quem o trairá. E se com cuidado me amedontra estar com os outros, e expor minha opiniões e gostos, isso é medo puro, e não falta de vontade. Cuidado, e não efusividade. Porque as conclusões exatas, só podem ser tiradas do forno quando conhecemos o não só as lágrimas, quanto o sorriso alheio. As graves faltas, os desejos mais profundos e disseminados. Convencidos somos todos nós, das próprias crenças, daquilo que nos cerca e podemos atingir. Talvez por isso, assim quieto e desinteressado nos fatos comuns, nas histórias repetitivas, e das pessoas sem sal nem pimenta, assim: esnobando a vida, se resguardando em si. Don't be shy!