quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tomates prodres

Nós somos claramente responsáveis pelas consequências das nossas atitudes. Como há duas semanas, quando me dei conta de que tinha guardado a conta de luz de março e esquecido de pagar. Foram três horas vivendo na Era pré-Thomas Edison, em um dia cheio de textos deixados para a última hora.
Nós também somos responsáveis pelo que dizemos - e pelo que deixamos de dizer. Sou pentacampeão mundial na categoria falar coisas horríveis sem pensar. E, na maioria das vezes, o arrependimento vem durante o vômito de palavras inconsequentes, raramente acompanhado de um pedido de desculpas. Porque sou hexacampeão em orgulho idiota.
Nós somos responsáveis - ou pelo menos tentamos ser responsáveis - por uma lista infindável de obrigações morais. Não conseguimos nem nos livrar daqueles que cativamos. Como decretou Saint-Exupéry em "O Pequeno Príncipe", somos eternamente responsáveis por essa gente. E eu sei bem disso, pois não suporto a ideia de que exista alguém no mundo que não goste de mim.
A justificativa para todas essas responsabilidades, incluindo a de ficar fortão, bem vestido, ter um trabalho apaixonante e uma pessoa incrível para amar e ser amado, é chegar a algo próximo do que se considera "felicidade".
Mas será que, assim como nossas contas para pagar, nós somos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade?
É natural pensarmos que não. Aprendemos desde cedo, na escola, que os seres humanos dependem de outros seres humanos. Lembro da professora de "Atualidades" falando sobre como o comércio é uma das provas de que não somos autosuficientes. Nós precisamos trocar para sobreviver.
E seguindo essa lógica, seria, de fato, impossível ser feliz sozinho. Tom Jobim devia concordar com a minha antiga professora de "Atualidades". De repente eles até já se pegaram. Isso explicaria muita coisa do que ela dizia nas aulas.
De todo modo, se eles estiverem certos - minha professora de "Atualidades" e o Tom Jobim - então a felicidade está fora da nossa esfera de responsabilidade. Nós dependemos da troca com outros seres humanos para sobreviver. Nós dependemos do quanto os cativaremos e do quanto seremos cativados por eles. Nós dependemos das suas escolhas, das suas palavras e das consequências de suas atitudes. E, por isso, meus caros, seja como for, a culpa por nossos infortúnios jamais haverá de ser nossa.
Ufa.
Acontece que, ao nos livrarmos do terrível peso de sermos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade, adquirimos outras cargas, tão trambolhudas quanto. Como a autopiedade, por exemplo. Culpar o mundo pelas injustiças sofridas, lamuriar-se pelas tristezas vivenciadas, sofrer, sofrer, sofrer, e depois sofrer mais um pouco é o que os seres humanos fazem quando isentos da responsabilidade de serem felizes.
Ok, nós precisamos da troca com outros seres humanos. Nós damos batatas e recebemos tomates de volta. Só que se os tomates vierem todos podres, cabe somente a nós decidir o que fazer com eles. Podemos sentar e chorar, nos vitimizar, repetir que "só acontece comigo", que "é sempre assim", "ó vida, ó azar"... ouuu - e sim, existe um ou - podemos elegantemente juntar os tomates podres, jogá-los na lixeira e fazer o melhor que nos for possível com as batatas que restaram na despensa.
Não digo que é um trabalho simples. É milhões de vezes mais tentador chorar pelos tomates podres no chão. Eu, por exemplo, seria um suicida nato, não fosse pelo meu egocentrismo exacerbado. Sou bom demais para morrer, seria um desperdício. Mas tenho total consciência de quando escolho ser infeliz. É aquela fração de segundo em que você deliberadamente opta pelo sofrimento. Você tinha escolha, mas preferiu a habitual dose de autodestruição e autopiedade. E é quase compreensível. É muito mais fácil ser infeliz.
Para tentar ser feliz, você precisa assumir responsabilidade pelas trocas efetuadas com outros seres humanos. Para o bem e para o mal, você é o único responsável pela forma como essas negociações te afetam. Já para ser infeliz, você não precisa fazer absolutamente nada. É só esperar um pouco que os tomates podres virão. E eles virão aos montes.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cheio de vazio.

Copo cheio, relações vazias. BH virou sinônimo de open bar. A excitação e ansiedade pela “balada perfeita” traz como conseqüência do dia seguinte a carteira vazia e o fígado cada vez mais debilitado; isso para não mencionar os resultados da trágica mistura “álcool + volante”.

É assim que muita gente tem vivido por aqui; buscam fugir dos problemas, frustrações e insatisfações em ambientes superficiais, onde a “alegria” é efêmera e desprovida de sustentação. Chega a ser um vício muitas vezes difícil de detectar. A fórmula já é mais do que conhecida: bebida liberada, ambientes super povoados e imagem sobrepondo ao conteúdo.

Não há nada de errado em curtir uma balada, sair para se distrair, deixar de lado as preocupações. O problema é quando a exceção vira regra, quando a quantidade é mais importante que a qualidade. O “baladeiro” não quer perder seu tempo se preocupando com os outros, quer satisfazer seu ego e suas vontades a seu tempo e modo e em seguida partir pra novas aventuras. São pessoas que não suportam a própria cia, precisam desesperadamente da adrenalina alcoólica para se sentir preenchidas. E o ritmo tende a acelerar cada vez mais, já que o efeito da “droga” é curto.

Em meio a tudo isso temos ainda o paradoxo de que grande parte dessas pessoas anseiam e procuram por alguém que supostamente seria o responsável para encerrar toda essa fase descompassada. Ora, sendo bastante simplista: se nesse tipo de ambiente dificilmente se consegue ouvir a voz do outro, como seria possível conhecer uma pessoa disposta a iniciar um relacionamento sério? E mais, por que acreditar que um namoro tem o poder de consertar tudo e colocar as coisas no lugar? Somos inteiramente responsáveis pela nossa felicidade, estando acompanhados ou sozinhos. Atribuir a alguém o poder de solucionar nossos problemas é o primeiro passo pra derrocada de uma relação.

Como já foi dito certa vez, vivemos na era do “fast-food” e da digestão lenta, do homem grande, mas de caráter pequeno; das casas chiques e lares despedaçados; do excesso de vaidade e lucro e das relações vazias. Para aqueles que insistem em permanecer no ciclo vicioso da futilidade, meus pêsames. Ninguém é melhor do que ninguém, o que temos de mais valioso não é possível se enxergar a olho nu e as nossas melhores experiências não são vivenciadas quando estamos bêbados. Portanto, saia do “transe” enquanto é tempo, tem muita coisa interessante por detrás das cortinas deste espetáculo bizarro.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não é novidade.


O de sempre, basicamente: ainda que com a porta fechada, pela janela eles pousam no meu quarto com alguma das asas machucadas, sofridos, desmoronando, com uma carinha irresistível de choro. Eu dou meu carinho de pai, meu amor de home, meu papo de irmão mais novo, meus conselhos de melhor amigo e quando eles ficam mais corados e sorridentes, lá se vão, batendo as asas, para alguém mais ensolarado que eu. A mesma coisa, toda vez. Eles vêm, eu os conserto, eles vão. Eles vêm, eu os conserto, eles vão. Eles vêm, eu os conserto, eles vão.

Talvez eu seja algum tipo de oficina de homens que sofreram maus tratos de algum momento do relacionamento anterior. Quem sabe eu compre um espaço no jornal e coloque um anúncio com a descrição dos serviços oferecidos, pois claramente meu negócio está indo bem. Deveria existir uma parte no meu cérebro, um órgão qualquer, que regule as propagandas enganosas que chegam à tela do meu córtex, que selecione melhor o que vai me tirar o ar, já que que auto-censura nunca foi meu forte.

Acho que é por esta razão que as pessoas tanto associam o amor à mágica. Às vezes alguém me mostra um pouco dele, e depois o faz desaparecer numa cartola. E eu me pergunto: ei, como você consegue fazer isso?

Aí, eu encontrei você, nós nos conhecemos, eu te consertei, te fiz perfeito pra mim, nos amamos, ficamos  juntos e agora você está voltando pra casa.

Naquele cenário infeliz de sobras de chá de cidreira, lenços de papel amassados pelo chão, cobertor no sofá, cadeiras fora do lugar, mala aberta por sobre a cama, livros e CDs embrulhados, dentes e sorrisos guardados, eu não disse nada, quase nada, até porque seria uma deformidade. Mas estou dizendo agora. Desculpa por nunca considerar você uma aposta segura e razoável, por ficar noites de guarda te esperando cometer um erro dantesco e irreparável e definitivo todas as sessenta semanas que passamos juntos, e que devem ter sido incríveis – um dia, quando tudo isso passar, e eu me esquecer do seu rosto me dizendo “eu quero que você se dane”, você me conta. Desculpa por nunca, em nenhum momento, deixar de acreditar que lá fora existia um cara imperfeito pra mim, ou pelo menos melhor do que você, em todos os aspectos. Desculpa por agir feito um diabinho sempre espetando com um tridente nossos ocasionais dias de sossego.

É que na minha cabeça já estava tudo preparado pra dar errado. Eu não mudei toda minha estrutura de vida, eu não conheci seus amigos de infância, eu não planejei uma viagem de férias, eu não parei com nada, eu não... nada. Eu sempre vivi uma vida de propagandas e na primeira oferta concreta e interessante que recebi, era tarde, eu já tinha vendido minha alma.

Quando eu te chamava de “amor”, não sei, era só um modo de falar. Talvez minha liberdade seja um poste sem iluminação onde ficarei acorrentado pelos tornozelos para sempre. Porque, eu sei. Tudo pode mudar o tempo todo e, tola, sofro desse medo; quando o real perigo à espreita é nada acontecer.

E nada aconteceu. Eu meio que sabia onde as coisas iam dar – foi quase, mas não deram. Não deu. Não dei. Valeu a tentativa, o empenho, o interesse. Eu não estava prestando muita atenção, mas posso sentir em algum lugar aqui dentro de mim que foi bonito. A gente ainda vai se falar por aí, essa não é a conversa final, eu sei como você é.