Em aniversários e festas de família, as pessoas fazem a mesma pergunta que eu me faço: onde está você que não veio. Eu murcho os lábios, solto um álibi, e o monstrengo boquirroto e peludo que foi morar no meu estômago depois que você foi embora tenta descaradamente me desmentir, gritando lá do fundo de mim que não estamos mais juntos. Não quero falar sobre o assunto, finjo não saber nada sobre isso. Levarei noventa e cinco anos pra superar todas as minhas perdas.
Não vou tão no âmago da coisa, eu teria de explicar aos meus tios como funcionam os relacionamentos, pois, pela cara de quem precisa ser comida da tia Dulce, eles não aprenderam nada com os programas da Sue Johansson. Eu poderia também fazer uma apresentação de slides, enquanto minha mãe distribui aos parentes aquelas panelinhas de ovos moles que ela faz como ninguém. Iniciaria pelo dia que a gente se viu, tirando os priminhos da sala na hora de explanar nossa primeira noite de amor sacana, enfim, cobrindo a primeira discussão por bobagem, a primeira mentira descortinada e o resto você sabe, está cansado de saber, aliás foi essa a justificativa que usou para cair fora e me deixar na mão.
Ao senhor da feira, eu disse que você partiu em missão espacial, num foguete russo. . Aos meus colegas de happy hour, que a conheciam de tanto passar lá para me buscar, eu disse que você mudou de sexo e agora atende por Gabi – estranhamente, agora nenhum deles faz piadas sobre ter dormido contigo pelas minhas costas.
Eu ando zanzando pela noite, falando comigo mesmo, em estado paranoico, conspirando contra os rostos que talvez se encaixem com o seu. Todos acham que sua ida desencadeou um surto esquizofrênico em mim e fingem apenas acreditar nas minhas desculpas. Meus amigos psicólogos me analisam de graça no meio da rua. A moça do térreo, como é, Rosane ou Roxane – aquela moça formada em nutrição –, disse que vai passar por debaixo da minha porta uma dieta especial para eu parar de perder peso. Parece também que a mãe dela já me colocou na lista de orações na igreja Menino Deus.
Eu entendo. Muito mais do que para nós mesmos, para todas essas pessoas era importante que a gente ficasse junto, perpetuando aquela paixão inaugural que adoecia as pessoas de inveja. Éramos os John e Yoko do bairro. A última esperança que o mundo tinha de que amar é uma coisa possível e não apenas uma promessa de quem quer vender mais absorventes nos intervalos da novela. Fomos tão irresponsáveis com nosso amor que esquecemos da nossa parcela de contribuição com o mundo. O tempo vai passar e as pessoas vão usar suas memórias, e para sempre nos ver como aquele inesquecível casal, mesmo que agora sejamos só amigos, ou nem isso.
Então volta. Pelos meus priminhos que diziam que você era legal e parecia com Gael Garcia . Volta pelo cão da dona Mirtes que não para de uivar na janela em dias de chuva.. Volta para alavancar as vendas de linhaça do seu pobre amigo feirante. Volta pra passar vergonha nas pessoas.
Não faz sentido voltar só porque temos um passado, se você gosta desse tipo de coisa é melhor sintonizar o History Channel. Mas não faça por mim, não precisa ser por mim, nem que seja pelo monte de gente para os quais é importante que a gente fique junto, volta. Mas quem se importa? Sei que eu não me importo. Mais. Não me importo mais. Estou de saco cheio de me importar. O mais fascinante depois de todos esses anos mentindo pra mim mesmo é que eu ainda caio na minha.
Não vou tão no âmago da coisa, eu teria de explicar aos meus tios como funcionam os relacionamentos, pois, pela cara de quem precisa ser comida da tia Dulce, eles não aprenderam nada com os programas da Sue Johansson. Eu poderia também fazer uma apresentação de slides, enquanto minha mãe distribui aos parentes aquelas panelinhas de ovos moles que ela faz como ninguém. Iniciaria pelo dia que a gente se viu, tirando os priminhos da sala na hora de explanar nossa primeira noite de amor sacana, enfim, cobrindo a primeira discussão por bobagem, a primeira mentira descortinada e o resto você sabe, está cansado de saber, aliás foi essa a justificativa que usou para cair fora e me deixar na mão.
Ao senhor da feira, eu disse que você partiu em missão espacial, num foguete russo. . Aos meus colegas de happy hour, que a conheciam de tanto passar lá para me buscar, eu disse que você mudou de sexo e agora atende por Gabi – estranhamente, agora nenhum deles faz piadas sobre ter dormido contigo pelas minhas costas.
Eu ando zanzando pela noite, falando comigo mesmo, em estado paranoico, conspirando contra os rostos que talvez se encaixem com o seu. Todos acham que sua ida desencadeou um surto esquizofrênico em mim e fingem apenas acreditar nas minhas desculpas. Meus amigos psicólogos me analisam de graça no meio da rua. A moça do térreo, como é, Rosane ou Roxane – aquela moça formada em nutrição –, disse que vai passar por debaixo da minha porta uma dieta especial para eu parar de perder peso. Parece também que a mãe dela já me colocou na lista de orações na igreja Menino Deus.
Eu entendo. Muito mais do que para nós mesmos, para todas essas pessoas era importante que a gente ficasse junto, perpetuando aquela paixão inaugural que adoecia as pessoas de inveja. Éramos os John e Yoko do bairro. A última esperança que o mundo tinha de que amar é uma coisa possível e não apenas uma promessa de quem quer vender mais absorventes nos intervalos da novela. Fomos tão irresponsáveis com nosso amor que esquecemos da nossa parcela de contribuição com o mundo. O tempo vai passar e as pessoas vão usar suas memórias, e para sempre nos ver como aquele inesquecível casal, mesmo que agora sejamos só amigos, ou nem isso.
Então volta. Pelos meus priminhos que diziam que você era legal e parecia com Gael Garcia . Volta pelo cão da dona Mirtes que não para de uivar na janela em dias de chuva.. Volta para alavancar as vendas de linhaça do seu pobre amigo feirante. Volta pra passar vergonha nas pessoas.
Não faz sentido voltar só porque temos um passado, se você gosta desse tipo de coisa é melhor sintonizar o History Channel. Mas não faça por mim, não precisa ser por mim, nem que seja pelo monte de gente para os quais é importante que a gente fique junto, volta. Mas quem se importa? Sei que eu não me importo. Mais. Não me importo mais. Estou de saco cheio de me importar. O mais fascinante depois de todos esses anos mentindo pra mim mesmo é que eu ainda caio na minha.