E aí, Mano? Naquela última vez tu me disse que estava bem, e pela primeira vez me convenceu. Sei como é isso de estar tudo bem, estar feliz, de bem contigo mesmo. Já ouvi muito falarem. É o slogan oficial das pessoas ao redor. Mas não se preocupe, até que estou legal, só que ainda tenho problemas de visão. Como vai a medicina? Não tenho nada pra dizer, como pode ver. Só acho que estamos nos vendo pouco, em momentos demasiado formais, com montes de gente na volta. Queria jogar umas pedras no rio contigo, sem precisar falar nada. Não curto muito falar, tu sabe.
Esses dias, num bar, ouvi “Teatro dos Vampiros” e lembrei de nossa época. Me matei rindo ao lembrar que tu cantava “Vi capoeira se escondendo pelos cantos...” e eu te corrigia toda vez é “É ‘Fica a poeira se escondendo’... caralho!” (Risos.) Tanto tempo depois, acho que essa música não faz muito sentido na tua vida, esse lance de não ter dinheiro, de estar procurando emprego, badernas com garotas e tudo mais. Tu é um médico casado agora. Aliás, como vai a Natália? É uma ótima pequena, ela. Bonita, divertida, parece cuidar bem de tudo que merece cuidado. Tu se deu bem na vida, não é, Mano? Eu continuo inadequadamente o mesmo.
Fico solteiro e já penso em comprar uma moto. Sei o que tu está pensando Mano, que estou vivendo uma crise da casa dos vinte e alguma coisa, crise pré formatura. É que os velhos estão com saúde, não tenho filhos, propriedades, e nem o diabo de um amor. Isso diminui o medo de morrer. E tu sabe melhor do que ninguém, um dia a moto te ganha. (Ah, o tornozelo ainda dói? Futebol nunca mais, mesmo? Putz, você gostava tanto) Pensei em mudar estrategicamente. Pensei em Rio de Janeiro. Fica perto da praia, daí da tua casa. A droga é que lá não tem emprego sobrando. Mas é só um plano, entre os milhares que já tive e nunca realizei. Sempre fui o rei dos planos, péssimo em execuções.
Esses dias me chamaram para uma entrevista. Aquela fileira de gente engomada do outro lado da mesa, me fazendo perguntas idiotas. Se eu tenho namorada, onde quero estar daqui a cinco anos, qual meu pior defeito. Porra, como vou saber essas coisas? Bem, disse a eles que não gostava muito de falar, que era de ficar na minha. Pelas caras tortas, não gostaram muito da minha sinceridade. Esse pessoal de recursos humanos não enxerga nada. Se sou retraído não é porque sou alheio ao mundo, mas porque sou sensível a ele. Vejo coisas que os outros não. Sei lá, li isso numa revista aí. Minha timidez é como uns óculos de sol, se eu detestasse o verão não haveria por que usar. Só que eles vêm com aqueles papos de “vestir a camiseta”, querem que a gente se empolgue com um trabalho que não faz sentido algum. Tu já salva vidas, não deve ter esse problema. Mas por que o mundo todo gosta tanto de mentir para si mesmo, hein Mano?
Algumas pessoas dizem que nunca mentem, e essa é apenas a primeira de sua série de mentiras. É tudo em nome do conforto. Vendedor hoje em dia é “consultor de negócios”. Um consultor de negócios me vendeu uma torradeira esses dias, e ganhou dois pilas de comissão. Não dá nem um maço de cigarros. Os afro-descendentes, os deficientes visuais, ninguém mais é negro ou cego. Está tudo muito chato. A religião, por exemplo. Eu não conseguiria atravessar a única vida que tenho seguindo as normas de um deus que eu nem sei se existe, que quer ser reverenciado o tempo todo, que só me faz sentir culpado.
Ok, Mano, já vou indo. Vai dar um pouco de atenção pra tua mulher. Só estava meio vazio, querendo falar uns troços pra alguém de confiança, jogar conversa fora. Está todo mundo ficando velho e esclerosado por dentro. Os bares estão perdendo feio para a TV, não há mais ninguém nas ruas. Não tenho me identificado muito com ninguém. Mas tudo bem. Levei um tempo até entender que pode ser muito libertador não se sentir parte de nada. E tu sabe como sou, dramatizo para dar às coisas a importância que originalmente elas não têm.
Um abraço, Mano.
Eu te amo, cara. Tu sabe.
Fica bem.